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Até onde confiar na inteligência artificial para tirar dúvidas de saúde | Bem-Estar

Fonte: veja.abril.com.br | Data: 26/09/2026 08:00:08

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Médico de jaleco branco e estetoscópio, segurando uma radiografia e usando uma caneta digital em um tablet, com projeções holográficas de um corpo humano e gráficos médicos sobre a mesa
Tecnologia no consultório: os sistemas digitais auxiliam médicos e pacientes (Hirun/Getty Images)

Cada vez mais usados para esclarecer dúvidas, interpretar exames e conhecer tratamentos, os chats de inteligência artificial ampliam o acesso à informação sobre saúde. Mas exigem cautela

Depois do Doutor Google, que marcou a explosão das buscas por informações de saúde na internet, chegou a era da IA generativa (GenAI). De acordo com levantamento da consultoria Edelman, 38% dos brasileiros já utilizam ferramentas de chat automatizado para se informar e orientar decisões relacionadas à saúde. Os principais usos incluem tirar dúvidas, interpretar resultados de exames e receber sugestões de tratamento. Até conversas sobre saúde mental aparecem entre as prioridades. O país confirma sua fama de adotar rapidamente novas tecnologias. Segundo estudo da Cisco em parceria com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil aparece como o segundo país com maior adoção de GenAI, com 51,6%, atrás apenas da Índia, com 66,4%. Nesse contexto, já existem ferramentas específicas para saúde, como o Copilot Health, da Microsoft, e o Claude for Healthcare, da Anthropic. As soluções permitem integrar registros médicos, aplicativos e outras informações de bem-­estar. Segundo a OpenAI, mais de 230 milhões de pessoas no mundo já fazem perguntas sobre saúde e bem-estar ao ChatGPT todas as semanas. Em paralelo, o uso da tecnologia em hospitais, clínicas e consultórios preocupa o Conselho Federal de Medicina (CFM), que publicou uma resolução, em vigor desde agosto, determinando que a inteligência artificial funcione como ferramenta de apoio, e não como uma substituta do médico. As decisões sobre diagnóstico, prognóstico e prescrição devem ser sempre do profissional, que pode acolher ou rejeitar as sugestões da IA.

A resolução também determina que o paciente seja informado quando a tecnologia for utilizada como apoio relevante em seu cuidado, diagnóstico ou tratamento. “Estima-se que mais de 70% dos médicos utilizam alguma ferramenta de IA. Os benefícios superam muito os riscos, mas o médico é sempre o responsável pela tomada de decisão”, afirma Jeancarlo Cavalcante, vice-presidente do CFM. O uso de IA generativa é natural e positivo, na avaliação do endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri. “As pessoas sempre buscaram informações sobre saúde fora do consultório. Isso aconteceu com livros, revistas, depois com o Google e agora com a inteligência artificial. A diferença é que a IA permite uma interação muito maior”. Pacientes mais bem informados podem se sentir mais à vontade para perguntar por que determinado exame não foi solicitado, por que uma opção de tratamento não foi considerada ou se uma recomendação está correta.

Infográfico Adesão acelerada sobre usos da IA generativa em saúde no Brasil. 38% dos entrevistados usam tecnologia para tirar dúvidas. Os usos mais comuns são: 89% obter respostas imediatas para dúvidas gerais de saúde; 87% receber recomendações de sono, atividade física ou nutrição; 83% ajudar a interpretar resultados de exames médicos; 79% contar com sugestões de tratamento; 78% obter uma segunda opinião sobre diagnósticos; 74% explorar as possíveis causas de sintomas; 69% determinar se a pessoa pode se cuidar por conta própria; 68% fornecer uma alternativa quando a pessoa não tem acesso a um profissional de saúde; 62% falar sobre problemas pessoais e emoções

Apesar dos benefícios, é importante tomar alguns cuidados. “Uma coisa é utilizar a IA para informação e educação. Outra, completamente diferente, é entregar a ela decisões médicas”, diz Couri. Um chatbot pode fornecer informações excelentes, mas também errar — às vezes de forma extremamente convincente. Por isso, não se deve ingerir um medicamento nem iniciar ou modificar um tratamento apenas com base nas respostas de uma IA. Também é preciso ter cuidado com a tendência dos chatbots de validar as premissas dos usuários. Perguntas que induzem a resposta, como “Você não acha que eu deveria fazer uma ressonância magnética?”, aumentam o risco de obter uma orientação enviesada ou incorreta.

Em áreas de diagnóstico complexo, como a saúde mental, o risco pode ser ainda maior. Também é recomendável pedir ao chatbot que informe as fontes e conferir se elas de fato existem. “Quanto maior o risco envolvido em uma decisão, maior deve ser a participação do profissional de saúde”, diz Couri. A perspectiva é de uma melhora no conhecimento das pessoas sobre saúde, o que pode contribuir para aprimorar o atendimento. A melhor relação continuará sendo aquela em que o paciente participa, pergunta e questiona, enquanto o médico transforma informação em uma decisão segura.

Publicado em VEJA, setembro de 2026, edição VEJA Negócios nº 30