Futebol brasileiro depende das bets? O que dizem receitas e dívidas dos clubes
Fonte: diariodopara.com.br | Data: 27/09/2026 18:18:28
A ficção construída pelos dirigentes defende a tese de que o futebol precisa das bets, porque sem elas os clubes deixariam de existir e quem perderia com isso seria o torcedor. Nada mais falso e falacioso. O futebol brasileiro é forte e domina o continente sul-americano há pelo menos duas décadas, a partir do poderio financeiro das principais equipes.
Além disso, as bets irromperam no cenário esportivo brasileiro há menos de seis anos. O efeito foi imediato e avassalador. Muito dinheiro entrando, patrocínios fortes e clubes maravilhados com a fonte de receita, embora completamente despreocupados com a origem dos recursos.
Do mesmo jeito que a propaganda de cigarros foi banida em nome da saúde pública, o sistema de apostas é viciante e causa males às vezes irreversíveis aos apostadores. As vítimas se multiplicam e, no fim das contas, o Estado arca com as consequências diante de uma verdadeira epidemia (em crescimento) no âmbito da saúde pública.
Os clubes só tiveram coragem de se manifestar, na semana passada, com uma nota oficial risível, manifestando posicionamento contrário à proibição das bets. Uma reação movida exclusivamente pela preocupação com os lucros, nenhuma empatia com os milhares de torcedores endividados e adoecidos em consequência da jogatina.
As bets dominam o mercado do futebol, patrocinando os clubes e até a CBF, que manda em tudo. O Campeonato Brasileiro é patrocinado pelas casas de apostas. No mundo da fantasia, era um negócio que era bom para todo mundo, com lucros abundantes. Mas, a que preço?
A saúde das pessoas está afetada gravemente pelo vício nas apostas, com famílias arruinadas e um quadro que envolve até óbitos. Desde 2021, a procura por atendimento no SUS para dependência de jogos cresceu 140%.
O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) aponta que o custo decorrente de problemas como depressão, ansiedade e suicídio relacionados ao vício em apostas on-line e jogos de azar chega a R$ 30,6 bilhões anuais.
Caso sejam considerados os danos sociais (como perda de emprego e endividamento), o total do prejuízo sobe para R$ 38,8 bilhões. É algo que faz pensar e impõe uma tomada de atitudes. Se as autoridades não tomarem uma atitude, certamente os donos do futebol é que não terão essa iniciativa.
Endividamento dos clubes e a reforma tributária
Vale lembrar que, apesar da defesa apresentada por alguns dirigentes, o problema do futebol não é perder o patrocínio das bets. O São Paulo, outrora apontado como um exemplo de austeridade na gestão do futebol, acumula R$ 126 milhões de déficit até julho deste ano. Isso corresponde a R$ 38 milhões a mais do que o orçado para o período e o endividamento chega a R$ 1 bilhão. E não é o único dos grandes em situação deficitária.
Por tudo o que se sabe, mesmo sem estudos mais aprofundados, a jogatina é prejudicial para toda a sociedade e tem sido proibida em vários países. Destrói famílias, levando a população a desviar dinheiro até da comida para esses jogos tão estimulados. Ao contrário do que alardeia a cartolagem, o fim das bets não representa o fim do futebol. Muito pelo contrário.
Quando a reforma tributária entra em campo
Dentro do tema endividamento dos clubes brasileiros, há um levantamento que revela que a arrecadação nunca foi tão forte. No último ano, os 20 maiores em receita faturaram R$ 15 bilhões, recorde histórico e avanço de 36% em relação a 2024. O problema é que, ao mesmo tempo, a dívida chegou a R$ 16 bilhões, também o maior já registrado.
Os dados são da Sports Value, consultoria de negócios esportivos. Ou seja, o aumento das receitas (via bets, por exemplo) não resolveu o crônico problema financeiro do futebol brasileiro. Enquanto o faturamento atinge recordes, outra variável começa a ganhar espaço nas decisões de presidentes, investidores e executivos do esporte: a reforma tributária.
Para os dirigentes, a geração de receita não livrou os clubes de um elevado nível de endividamento. Dessa maneira, qualquer mudança na forma de tributação ganha peso porque pode influenciar a capacidade dos clubes de transformar faturamento em bom resultado financeiro.
Ordenar isso é um desafio imenso, mas não necessariamente impossível de enfrentar. Depende de profissionalismo, trabalho sério e gestão caprichada – sem excessos e abusos em relação ao dinheiro arrecadado.