O livro de ouro do Paizão — 2001 A 202
Fonte: opovoamazonense.com.br | Data: 28/09/2026 17:54:11
Por Rev. Prof. Francisco A. C. Pinho (*)
Um inventário para que ninguém alegue falta de informação.
Se há uma obra que o lulopetismo ergueu com argamassa inquebrável, foi a da corrupção como método de poder. Não se trata de desvios isolados. Trata-se de um projeto em que a miséria é administrada, a fé é instrumentalizada e o erário é saqueado sob o verniz da justiça social. Eis o memorial, fundado em inquéritos da Polícia Federal (PF), em denúncias do Ministério Público (MP) e em condenações transitadas em julgado.
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O alicerce no sangue
Tudo começa em Campinas e Santo André. Toninho PT, em 2001. Celso Daniel, em 2002. Tombaram no alvorecer do projeto de poder. No caso Celso Daniel, a Polícia Civil de São Paulo concluiu por latrocínio praticado por quadrilha da Favela Pantanal, com condenação dos executores. O Ministério Público de São Paulo, a pedido da família, sustenta até hoje tese diversa, de crime político destinado a ocultar esquema de propinas para abastecer o partido. Até 27 de setembro de 2026, conforme acompanhamento processual do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), não há condenação definitiva de mandante.
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A engenharia fina
Em seguida, a máquina se profissionaliza. “Mensalão”, desvio estimado em R$ 200 milhões para compra de apoio parlamentar, com cúpula condenada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na “Ação Penal 470”, em 2012. Escândalo dos Correios, revelado pela revista Veja em 2005. Dólares na cueca. “Sanguessugas”, operação da PF em 2006. “Navalha”, em 2007. Pasadena, a própria Petrobras reconheceu em balanço prejuízo de US$ 792 milhões na aquisição de 50% de refinaria obsoleta no Texas. Abreu e Lima, R$ 90 milhões em propinas apontadas em delações da “Lava Jato” homologadas pelo STF. Porto Seguro, condenação de Rosemary Noronha por tráfico de influência na Casa Civil, conforme sentença da Justiça Federal de São Paulo. “Pedaladas fiscais”, crime de responsabilidade que fundamentou o impeachment de Dilma Rousseff em 2016, nos termos da Lei n. 1.079/1950.
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A obra-prima e o capítulo recente
A “Lava Jato”, até 2023, segundo o Ministério Público Federal (MPF), R$ 6,4 bilhões já haviam retornado aos cofres por meio de acordos de leniência. Belo Monte, Comperj e Transposição do São Francisco surgem em delações com propinas e superfaturamento, conforme depoimentos de executivos da Odebrecht e da Andrade Gutierrez ao MPF. Delcídio do Amaral, preso em flagrante quando ainda líder do governo, em 2015. Lula, preso e condenado em duas instâncias no caso Triplex, com condenação anulada em 2021 pelo STF por incompetência territorial, conforme o “HC 193.726”. “Vegatomia”, R$ 500 milhões em fraudes no “Fies”, segundo a Polícia Federal.
O capítulo mais recente é a humilhação do aposentado. A “Operação Sem Desconto”, deflagrada pela PF e pela Controladoria-Geral da União (CGU) entre 2024 e 2025, apura, segundo nota oficial da PF, R$ 6,3 bilhões em descontos associativos indevidos lançados na folha do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Prometeram picanha. Entregaram consignado fraudado.
Faltava o Banco Master. Liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central (BC) em 18 de novembro de 2025, por ato do presidente Gabriel Galípolo, por grave deterioração econômico-financeira. A PF, na “Operação Compliance Zero”, investiga fraude de cerca de R$ 17 bilhões em venda de carteiras de crédito sem lastro ao BRB, banco público do Distrito Federal, conforme mandado da 10ª Vara Federal de Brasília. Daniel Vorcaro preso. O ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, investigado.
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A fatura: dívida, luxo, fuga e cativeiro
Toda utopia cara termina na contabilidade. Segundo o Tesouro Nacional, no Relatório Mensal da Dívida de dezembro de 2025, a Dívida Pública Federal fechou em R$ 8,635 trilhões, com alta de 18% em doze meses. O Plano Anual de Financiamento de 2026 projeta estoque de até R$ 10,3 trilhões ao final do ano. Segundo o Banco Central, no boletim de estatísticas fiscais, a Dívida Bruta do Governo Geral atingiu R$ 10,9 trilhões em 31 de agosto de 2026, o equivalente a 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB), maior patamar desde 2021. Em setembro de 2024, conforme a série histórica do BC, era de 78,3%. Somente em juros, a União desembolsou mais de R$ 1 trilhão em 2025, 8,35% do PIB, segundo o Tesouro Nacional.
Enquanto o pobre paga, o Palácio viaja. Dados do Portal da Transparência da CGU indicam gasto de R$ 7,14 bilhões do Governo Federal com viagens entre 2023 e 2025, sendo R$ 2,28 bilhões em 2023, R$ 2,38 bilhões em 2024 e R$ 2,49 bilhões em 2025. Três anos que superam os R$ 4,15 bilhões dos quatro anos anteriores. Apenas a Presidência, segundo o Portal, consumiu R$ 150,5 milhões. Média de R$ 5 milhões por dia em 2025, com recorde de R$ 3,88 bilhões em diárias e passagens, maior valor real desde 2014, conforme levantamento do site Metrópoles com base no Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (SIAFI).
O recibo do luxo, extraído do Diário Oficial e do Portal da Transparência, Nova York, setembro de 2024, 48 horas na Assembleia da Organização das Nações Unidas (ONU), R$ 3,2 milhões somente em hotelaria, sendo R$ 2,21 milhões no Grand Hyatt, para o presidente, e R$ 1,01 milhão no Park Lane, para a comitiva, equivalente a 2.133 salários mínimos da época. Paris, junho de 2025, seis dias, R$ 12 milhões, missão mais dispendiosa do ano, com diárias de até R$ 64 mil, conforme extratos do Itamaraty. Em dezesseis missões internacionais em 2025, R$ 44,4 milhões, dos quais R$ 20,5 milhões em locação de veículos e R$ 18,8 milhões em hospedagem. A primeira-dama, Rosângela da Silva, permaneceu 54 dias fora do país em 2025, em nove agendas próprias, com voos da Força Aérea Brasileira (FAB) mantidos sob sigilo, conforme resposta da FAB via Lei de Acesso à Informação (LAI) ao jornal O Estado de S. Paulo.
Enquanto o governo esbanja, o empreendedor foge. Acuado por carga efetiva de 34% sobre o lucro e pela Lei n. 14.789/2023, que tributou incentivos de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), o investidor cruza a Ponte da Amizade. O Paraguai opera na regra 10-10-10, sendo 10% de Imposto de Valor Agregado (IVA), 10% de imposto sobre a renda empresarial e 10% sobre a renda pessoal, segundo a Secretaria de Estado de Tributação paraguaia. Na “Lei de Maquila” n. 1.064/1997, tributação de 1% sobre o valor agregado exportado, isenção total de máquinas e insumos e energia industrial a US$ 41 o Megawatt-hora (MWh), contra US$ 113 no Brasil, conforme dados da Administración Nacional de Electricidad (ANDE) e da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Desde 2007, 232 empresas brasileiras migraram, segundo levantamento citado pelo deputado Davi Maia no Congresso Nacional. Hoje, 263 mil brasileiros vivem no Paraguai, segundo o Itamaraty e o Departamento de Migrações paraguaio, que concedeu 17 mil residências a brasileiros em 2024 e 23 mil em 2025. Somente a Maquila exportou mais de US$ 1,3 bilhão em 2025, conforme o Banco Central do Paraguai.
E o cativeiro assistencial. O “Bolsa Família” encerrou 2025 com 18,6 a 18,7 milhões de famílias, com fila de 503 mil à espera, segundo o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS). Em janeiro de 2026, benefício médio de R$ 697,77, piso de R$ 600,00, acrescido de R$ 150,00 por criança de zero a seis anos e de R$ 50,00 por gestante e jovem de sete a dezoito anos, conforme regras do MDS. Custo anual superior a R$ 170 bilhões, segundo o Orçamento Federal. A Bahia lidera com 2,6 milhões de beneficiários, conforme o MDS de setembro de 2025. Onde o programa mais cresce, o PT mais vence.
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O estelionato do Tigrinho
O capítulo mais desfaçado. As apostas de quota fixa foram legalizadas em 2018 por Michel Temer, pela Lei n. 13.756, mas quem regulamentou e liberou o cassino virtual, o Fortune Tiger, foi Lula, pela Lei n. 14.790, sancionada em 30 de dezembro de 2023.
Em dezembro de 2023, o senador Carlos Portinho, do Partido Liberal (PL), propôs emenda para retirar os cassinos on-line do texto. O PT orientou voto contrário. O líder do governo no Senado, Jaques Wagner, registrou em plenário que os clubes necessitavam de financiamento. O Senado aprovou a retirada por 37 votos a 27, mas a Câmara, com base de PT, Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Partido Verde (PV), Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e Rede, derrubou a emenda por 261 votos a 120, conforme registro da Câmara dos Deputados e da Cable News Network (CNN) Brasil. Lula sancionou a lei com o Tigrinho dentro.
Abriu-se a porteira, 85 licenças a R$ 30 milhões cada, R$ 2,55 bilhões somente em outorga, segundo a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda. Arrecadação de R$ 15,3 bilhões em tributos desde 2024, sendo R$ 8,94 bilhões em 2024 e R$ 6,32 bilhões até agosto de 2025, conforme a Receita Federal. O custo social foi fulminante, R$ 62,5 bilhões perdidos pelas famílias em 2025, segundo o Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz); R$ 38,8 bilhões de custo social anual, 79% em saúde mental, segundo o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde; R$ 3 bilhões do “Bolsa Família” em um único mês destinados a apostas, segundo estudo do Banco Central de 2024.
A nove dias do primeiro turno, em 25 de setembro de 2026, conforme a CNN Brasil e o Portal do Planalto, Lula assinou em São Paulo a Medida Provisória (MP) n. 1.394/2026, proibindo apostas e cassinos on-line. Efeito imediato, com prazo para saque até 5 de outubro, às 23h59, e, após 6 de outubro, bloqueio de Pix pelo BC, retirada de sites do ar e pena de quatro a seis anos de reclusão, agravada em um terço para jogos virtuais. As 85 licenças foram extintas por interesse público, sem indenização por lucro cessante. A pesquisa Atlas/Bloomberg de 23 de setembro de 2026 indicava que três em cada quatro brasileiros defendiam a proibição.
O senador Rogério Marinho resumiu, Lula é o pai do Tigrinho. Os próprios petistas Pedro Uczai, com o “Projeto de Lei n. 1.808/2026”, de 14 de abril, e Paulo Pimenta, com o “Projeto de Lei n. 2.258/2026”, de 7 de maio, tentaram revogar o que o partido havia aprovado.
Cria-se a doença, vende-se a cura e cobra-se o voto.
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A aliança dos apodrecidos: quando os Poderes se abraçam para não cair
Faltava a tampa do caixão. Se a corrupção é o método e a dívida é a fatura, a aliança entre os Poderes é o seguro contra a punição. O que se observou de 2023 a 2026 não foi harmonia entre Poderes, prevista no art. 2º da Constituição. Foi condomínio.
Segundo o Portal da Transparência e o SIAFI, o Supremo Tribunal Federal custou R$ 1,1 bilhão em 2025. O orçamento do Judiciário como um todo superou R$ 140 bilhões. Somente em auxílios, penduricalhos e diárias internacionais, ministros do STF e do Superior Tribunal de Justiça (STJ) gastaram mais de R$ 80 milhões em viagens entre 2023 e 2025, conforme levantamento do Estadão com base na Lei de Acesso à Informação. Em 2025, nove dos onze ministros do STF receberam acima do teto constitucional, com subsídios líquidos de até R$ 80 mil, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Enquanto o Executivo gastou R$ 7,14 bilhões em viagens, o Legislativo, segundo a Câmara dos Deputados e o Senado Federal, consumiu R$ 38 bilhões em emendas parlamentares em 2024 e R$ 53 bilhões em 2025, entre RP6, RP2 e restos a pagar, conforme nota técnica da Consultoria de Orçamento da Câmara. Emenda PIX, emenda de comissão, emenda de relator ressuscitada. Recursos sem projeto, sem licitação e sem rastreabilidade, liberados em troca de apoio ao Planalto.
O método é claro, o Executivo libera o recurso, o Legislativo vota o que interessa e o Judiciário blinda ambos. Quando a PF, conforme inquéritos da “Operação Sem Desconto” e da “Compliance Zero”, tentou avançar sobre descontos do INSS e fraudes do Banco Master e do BRB, surgiram decisões monocráticas do STF que suspenderam quebras de sigilo e ampliaram foro, conforme despachos dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes em 2025. Quando o Congresso, conforme a “PEC n. 8/2021” e o “PLP n. 210/2024”, tentou limitar decisões monocráticas, o STF reagiu com nota oficial em defesa do ativismo e o Planalto arquivou o debate.
Em 2024, segundo o STF e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), foram expedidas mais de 350 ordens de remoção de conteúdo e perfis em redes sociais por suposta desinformação, com fundamento no Inquérito n. 4.781, o inquérito das fake news, instaurado de ofício em 2019 e ainda vigente em 2026, sem sorteio de relator e sem prazo final. Em 2025, o Congresso, conforme votação da Câmara, aprovou aumento de 37% para o fundo eleitoral, para R$ 6,7 bilhões, e o STF, conforme a “ADI n. 7.228”, manteve o fundo. Em 2026, a Procuradoria-Geral da República (PGR), segundo nota da própria PGR, arquivou 68% dos inquéritos contra autoridades com foro privilegiado.
É a República de compadres. O Executivo compra com emenda, o Legislativo vende com voto e o Judiciário aluga o carimbo. Quem paga a conta, como sempre, é o aposentado lesado, o empresário expulso para o Paraguai e o jovem viciado no Tigrinho. Montaram um consórcio para que nada mude, ninguém seja punido e tudo continue como dantes no quartel de Abrantes, agora com toga, faixa presidencial e cartão de emenda.
Expulsa quem produz, taxa quem trabalha, dorme em suíte presidencial e mantém o pobre exatamente onde precisa que ele esteja: pobre, porém grato. Ampliou a Esplanada de 23 para 38 ministérios, chamou de reconstrução e reconstruiu a farra. É o socialismo caviar em estado puro.
Como advertiu G. K. Chesterton em Ortodoxia (1908), quando o homem deixa de adorar a Deus, passa a adorar qualquer coisa. No Brasil de hoje, adora o comprovante de hotel cinco estrelas, o carimbo de saída do investidor e o extrato do benefício.
O eleitor não poderá alegar falta de informação. Quando a urna se abrir, lembre-se do que escreveu Aleksandr Soljenítsin em Arquipélago Gulag: “Sabemos que mentem. Eles sabem que mentem. Eles sabem que nós sabemos que mentem. E, ainda assim, continuam mentindo.”
Soljenítsin advertiu sobre a mentira. Chesterton advertiu sobre a idolatria. Resta ao eleitor não se curvar nem a uma, nem a outra.
(*) é jornalista, professor Emérito de Língua Portuguesa, natural de Tefé-AM.