Agro vai enfrentar Super El Niño com cobertura mínima de seguro rural
Fonte: capitalreset.uol.com.br | Data: 01/10/2026 06:30:00
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou nesta quarta-feira (30) a lei que reforma o Marco Legal do Seguro Rural e blinda contra cortes e contingenciamentos os subsídios públicos destinados ao setor.
A legislação atende a uma demanda antiga do agronegócio, e vale para orçamentos futuros — a proteção aos recursos em 2027 depende de uma medida compensatória que o governo ainda não enviou ao Congresso.
Em 2026, apenas R$ 166,4 milhões do R$ 1 bilhão originalmente previsto para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) haviam sido pagos até a véspera da sanção.
A área segurada com recursos de subvenção tem encolhido ano após ano: de um recorde de 17,5% da área plantada em 2021 para 3,6% em 2025 (cerca de 3,3 milhões de hectares). É a mais baixa desde 2006, segundo o Observatório do Crédito e Seguro Rural da FGV Agro.
A cobertura total da ferramenta de proteção do produtor contra o risco climático, incluindo apólices com e sem subsídio, gira hoje entre 6% e 7% da área segurável do país, segundo Daniel Nascimento, presidente da comissão de seguro rural da Federação Nacional de Seguros Gerais (Fenseg).
A baixa proteção traz preocupações para a safra 2026/27, que já entra em campo sob um dos El Niños mais fortes já registrados.
A agência climática NOAA projeta mais de 90% de chance de intensidade muito forte do fenômeno entre novembro e janeiro, superando os recordes de 1997/98 e 2015/16. O período mais crítico coincide com o plantio da soja, entre setembro e dezembro. O Centro-Oeste e o Matopiba, que abrange áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, devem sofrer com escassez de chuvas.
Sem novas liberações de recursos, o Ministério da Agricultura e da Pecuária (Mapa) diz que a safra pode somar apenas 1,1 milhão de hectares segurados, o equivalente a 1,22% da área plantada — a menor cobertura já registrada. Uma minuta de ofício do ministério, ao qual o Reset teve acesso, afirma que a área segurada pode chegar a 3,4% caso os recursos pagos alcancem R$ 473 milhões, valor que o governo se comprometeu a liberar até o fim do ano.
O ministério pede que sobras do Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro), que socorre o produtor depois da perda, sejam redirecionadas ao PSR. Segundo a pasta, em dezembro de 2025, R$ 758,3 milhões que sobraram do Proagro foram remanejados via crédito suplementar para áreas não relacionadas ao setor agrícola, como saúde, FGTS e organismos internacionais.
O Projeto de Lei Orçamentária de 2027 sugere que a tensão deve continuar: segundo a Frente Parlamentar da Agropecuária, os R$ 1,2 bilhão propostos para o PSR dependem em 73,5% de fontes condicionadas, que exigem medida compensatória do governo.
Apenas R$ 318,5 milhões têm execução garantida. Uma simulação da FGV Agro estima que seriam necessários R$ 2,37 bilhões para recuperar o patamar de área segurada de 2021. Os recursos garantidos no orçamento cobrem 13,4% disso.
“Quando o PSR é subfinanciado, o risco não desaparece. Ele volta como inadimplência, renegociação, Proagro, socorro emergencial e pressão sobre o orçamento público”, resume Pedro Loyola, coordenador do observatório da FGV Agro.
Por que o setor não deslancha
Em mercados mais maduros como os Estados Unidos, a maior parte da área plantada tem seguro. No Brasil, há uma barreira histórica dupla: orçamento de subvenção imprevisível e concentração regional.
“A seguradora precisa ter o recurso para fazer o planejamento de vendas com previsibilidade”, diz Nascimento, da Fenseg.
Esse é o primeiro entrave que a nova lei tenta atacar: tornar a subvenção ao prêmio uma despesa obrigatória, sem possibilidade de bloqueio. Também integra o seguro às garantias de crédito rural, com juros e prazo mais favoráveis a quem tiver apólice, e abre caminho para operacionalizar o Fundo Catástrofe, criado em 2010 e nunca colocado em prática.
“Não vamos virar um mercado americano com 80% da área plantada assegurada, nem no médio prazo. Mas também não dá pra continuar sempre com 3% de cobertura e naquela incerteza”, diz.
A carteira do seguro rural está hoje concentrada em poucas culturas e regiões: soja e milho, principalmente no Sul, Sudeste e Mato Grosso do Sul, onde o hábito de contratar já está consolidado entre produtores. Nas regiões de fronteira agrícola como Matopiba, onde a proteção faria mais diferença, faltam histórico de dados para precificar o risco e cultura de compra do seguro.
O quadro atual tem raiz num ciclo que começou em 2021, ano de recordes simultâneos de subvenção, prêmio e área segurada: foram 14,2 milhões de hectares, o pico da série, garantidos por R$ 1,1 bilhão em subsídios.
No ano seguinte, a conta chegou: a sinistralidade do mercado disparou para 77%, com R$ 10,4 bilhões pagos em indenizações, o pior resultado técnico da história do setor. Naquele ano, fatores como a pandemia, a guerra na Ucrânia e eventos climáticos nos EUA travaram a vinda de capital do exterior ao Brasil e prejudicaram as resseguradoras, em sua maioria estrangeiras. “Machucou muito o mercado segurador”, resume Nascimento.
Depois do trauma de 2022, a sinistralidade caiu e chegou a 28,9% no primeiro semestre de 2026, o menor nível já registrado, segundo a Superintendência de Seguros Privados (Susep).
A arrecadação total do setor de seguro rural bateu recorde de R$ 14,2 bilhões em 2024, mesmo com a área em queda. Em 2025, recuou para R$ 12,9 bilhões, e a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) projeta uma nova queda de 5,8% em 2026.
A soja concentra boa parte da equação: sozinha, ela responde por cerca de dois terços da área que deixou de ser segurada desde 2021. Foram cerca de 900 mil hectares em 2025, após atingir 8 milhões naquele ano. Parte da explicação está na própria regra do PSR: a subvenção cobre 40% do prêmio para quase todas as culturas, mas apenas 20% para a soja.
O papel do El Niño
Nascimento diz que o El Niño já vem cobrando sinistros pontuais em culturas de inverno como canola, trigo e aveia, concentradas na região Sul. Um alerta, ainda que pesem pouco no total do setor.
As apólices de mercado seguem o calendário fixo do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), e quem perde a janela ideal de plantio fica sem seguro disponível, subvencionado ou não.
Para o mercado segurador, no entanto, o histórico mostra que o impacto do El Niño não é tão forte. “O que mais impactou o mercado nos últimos 20 anos é La Niña, pela concentração das perdas”, diz.
Segundo Nascimento, não houve reajuste de preço por causa do El Niño, mas as seguradoras ajustaram a oferta de apólices para que estados menos vulneráveis ao fenômeno compensem o risco de regiões mais atingidas.
Pelos dados do PSR, o mapa do seguro rural está concentrado justamente nas regiões que tendem a se beneficiar do fenômeno (Sul, Sudeste e MS), não nas mais expostas (Centro-Oeste e Matopiba).
Isso quer dizer que, neste ano, os produtores que potencialmente serão mais afetados pelo fenômeno climático são também os mais desassistidos pelo seguro rural.
“Não necessariamente quem mais quebra é quem mais adota seguro”, diz Enilson Nogueira, analista da consultoria Céleres. Há ecossistemas que induzem à contratação, como o cooperativismo do Paraná.
Mais do que o clima, são fatores financeiros que pesam na decisão de não contratar seguro, diz Nogueira. Nesta safra, os produtores enfrentam margens apertadas, dificuldade de obter crédito e custos de fertilizantes em alta.
Do lado das seguradoras, a Allianz Seguros diz que incorpora os cenários de El Niño e La Niña no monitoramento contínuo de risco por região.
“Os eventos climáticos têm reforçado a necessidade de mecanismos de proteção financeira no agronegócio. Independentemente de um fenômeno específico, períodos de maior volatilidade climática aumentam a percepção sobre a importância da gestão de riscos”, diz Mauricio Masferrer, diretor executivo de Negócios Corporativos da Allianz Seguros.
A companhia tem crescido no seguro rural mesmo com o mercado em retração: enquanto o setor recuou 11,3% no primeiro semestre de 2026, segundo a Susep, a Allianz cresceu 1% e é a segunda maior seguradora de cultivo do país, com 14,9% do mercado.
Alternativas
Seguradoras também têm buscado incorporar práticas agrícolas que minimizem riscos para reduzir o preço das apólices. Nesse sentido, a agricultura regenerativa surge como vantagem para produtores.
O movimento ainda é incipiente, baseado em programas piloto. A Brasilseg, empresa do Banco do Brasil e da Mapfre que lidera o segmento de seguro rural, faz parte desde o ano passado do consórcio Reg.IA. A iniciativa reúne 41 produtores que cultivam 54 mil hectares com técnicas de agricultura regenerativa, como plantio direto e uso de insumos orgânicos.
As práticas podem reduzir os riscos de perda em caso de eventos climáticos extremos em cerca de 60% na comparação com uma propriedade tradicional, segundo Paulo Hora, superintendente de resseguro e agro da Brasilseg.
Um gargalo para o modelo é a exigência de uma análise mais detalhada, com visita a campo. Os pilotos são usados para aperfeiçoar os processos, segundo Hora. “A tendência é que, na medida em que isso se consolide, os fluxos se simplifiquem”, diz. Outro entrave é o interesse do produtor — entre os associados do consórcio, ainda não houve nenhuma contratação.
A seguradora também participa de um piloto da Embrapa com o Mapa, que incorpora a qualidade do manejo do solo junto aos critérios do Zarc usados para avaliação de risco. Quanto melhor o nível de manejo do produtor, maior a subvenção da apólice.
A primeira edição foi realizada no ano passado com produtores de soja do Paraná. Para a safra de 2026/27, o programa foi expandido para outros três estados e passou a incluir o milho em dois deles.