Quatro passageiros israelenses que viajavam no voo 1073 da Flydubai, entre Dubai e Tel Aviv, avançaram desarmados contra um copiloto que esfaqueava o comandante dentro da cabine e conseguiram imobilizá-lo, abrindo caminho para que um segundo piloto reserva retomasse os controles e pousasse a aeronave em segurança na Arábia Saudita. Segundo apurou o InfoMoney com mais de uma dúzia de ocupantes, com relatos transmitidos a emissoras israelenses e com o depoimento do próprio comandante, a reação impediu que as 182 pessoas a bordo morressem.

O alerta partiu de uma mãe que aguardava a filha do lado de fora do banheiro, a poucos metros da porta da cabine de comando. Os gritos dela atravessaram o corredor e dispararam uma sequência de ações improvisadas que, minutos depois, deixaria a aeronave sob controle de outro tripulante. Gravemente ferido, o comandante foi quem conseguiu destrancar a porta por dentro e permitir a entrada dos passageiros.

O ruído que não pertencia ao voo

Tali Manes, de 46 anos, viajava na classe executiva ao lado do marido, Tzvika, e das duas filhas. Nina, de 5 anos — que completaria 6 em poucos dias —, precisou ir ao banheiro, e a mãe a esperava no corredor, logo atrás da cabine de comando e da cozinha de bordo. Foi quando ouviu um som que, segundo ela, não faz parte da rotina de uma viagem aérea: batidas fortes contra a porta blindada.

Nas proximidades estava sentado um piloto reserva, ainda uniformizado. Tali contou que o puxou pela mão e pediu que fosse verificar o que acontecia, porque o homem, distraído com o tablet, não havia entendido o pedido de imediato. A porta da cabine não estava trancada, detalhe que ela descreveu como a grande sorte daquele grupo. Ao se abrir, os dois se depararam com sangue espalhado pelo ambiente e com um dos pilotos golpeando o outro repetidamente com uma faca. A vítima caiu, e os ataques continuaram.

Ela então passou a gritar que o piloto estava sendo esfaqueado. O clamor funcionou como sinal para que outros passageiros deixassem os assentos e corressem na direção do perigo.

Quatro israelenses e uma reação sem armas

Quatro homens a bordo se tornaram o centro da contenção. Yaniv Hayoun, da fileira 11, era encanador e costumava acompanhar programas de televisão sobre investigações de acidentes aéreos. Asaf Rajuan, da fileira 7, trabalhava como planejador financeiro e havia escapado por pouco da morte no ano anterior, quando um míssil iraniano atingiu o prédio ao lado do seu apartamento.

Tzvika Manes, da fileira 1, executivo do setor bancário, voltava de duas semanas no Japão com a família, viagem organizada para atender ao desejo da filha de 11 anos por ocasião do bat mitzvá. Shota Musaev, da fileira 13, dentista, retornava da China com a esposa depois de sete dias de viagem. Foram eles que correram contra o copiloto, prestaram os primeiros socorros ao comandante e viabilizaram que um segundo piloto reserva assumisse o comando da aeronave.

A maioria dos ocupantes era de israelenses voltando para casa após passagens por diferentes países da Ásia e da África, rumo a uma nação em guerra. Alguns relataram ter sentido, no exterior, o peso do sentimento anti-Israel e do antissemitismo, a ponto de esconder colares com a Estrela de Davi ou dizer que vinham de outra nacionalidade. Ainda no aeroporto de Dubai, a filha mais velha de Tali, Daniella, ouviu uma reportagem de televisão sobre violência de colonos israelenses, ficou incomodada e se isolou num canto da sala de embarque.

A conexão em Dubai representava, para esse grupo, a chance de finalmente baixar a guarda: uma companhia aérea que manteve voos para Israel quando muitas outras suspenderam rotas, cercada de outros judeus, de outros falantes de hebraico.

O esforço final do comandante

O voo de três horas começou sem incidentes. Almog Itali, de 52 anos, que voltava do Japão com a mulher e dois filhos adolescentes, escolheu no entretenimento de bordo um filme de terror sobre as consequências de um acidente aéreo em uma ilha remota. Miryam Ochayon, de 24 anos, na fileira 6, voltava para casa depois de dez meses e meio viajando sozinha pela Ásia, da Mongólia às Filipinas, numa jornada que descreveu como rito de passagem após o serviço militar. Ela retornava também porque havia sido convocada para a reserva nas semanas seguintes e para participar, no domingo, da cerimônia em memória do irmão, o sargento Evyatar Ochayon Abukasis, morto em Kissufim, na fronteira com Gaza, em 7 de outubro de 2023.

Criada numa família ultraortodoxa em Jerusalém, Ochayon abandonou esse estilo de vida na adolescência. Mantinha o hábito de recitar a oração judaica dos viajantes antes da decolagem, mas, por algum motivo, não o fez quando o avião deixou Dubai pouco depois das 7h. Adormeceu com a cabeça apoiada na mesa à frente. A família Manes, nas duas primeiras fileiras, estava exausta após o voo noturno de volta de Tóquio, mas ainda digeria uma viagem especialmente bem-sucedida — Daniella montou uma apresentação no aplicativo Canva para convencer os pais a fazer o roteiro, com estações gastronômicas e lojas de Shibuya. Um café da manhã com torradas francesas foi servido cerca de uma hora após a decolagem, refeição que Tali Manes dormiu.

Dentro da cabine, o comandante Smit Machchhar, piloto com 17 anos de experiência, estava no chão, gravemente ferido e ainda sob ataque. Ele percebeu que a aeronave perdia altitude. Em relato feito ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, na sexta-feira, contou que, mesmo caído, sabia que precisava agir e que alcançou a porta envidando o que descreveu como um último esforço, dizendo a si mesmo que a porta estava ali e que não podia deixar todos morrerem. Foi esse gesto, executado por quem lutava pela própria vida, que permitiu a entrada dos passageiros e a salvação das 182 pessoas a bordo.