Caso Isabelle Caracristi: polícia conclui inquérito e namorado é indiciado por violência psicológica
Fonte: itatiaia.com.br | Data: 06/10/2026 18:16:48
A Polícia Civil do Ceará (PCCE) concluiu a investigação sobre a morte da estudante de Direito Isabelle Caracristi, de 22 anos, encontrada morta em 13 de setembro, em Fortaleza. O inquérito apontou que a jovem morreu após uma “precipitação voluntária” e não identificou elementos que indicassem que ela tenha sido assassinada. O namorado de Isabelle, João Munhoz Neto, de 34 anos, ainda assim foi indiciado pela polícia. O homem pode responder por violência psicológica e fraude processual.
O procedimento foi encaminhado ao Poder Judiciário na última quarta-feira (30). A conclusão ocorreu após a produção de 17 laudos pela Perícia Forense do Ceará (Pefoce), além da tomada de depoimentos e da análise de imagens e dispositivos eletrônicos.
De acordo com a PCCE, ao longo da apuração, 29 pessoas foram ouvidas, entre familiares, amigos, colegas de trabalho, moradores e funcionários do condomínio onde Isabelle morreu. A perícia também analisou cerca de 700 vídeos obtidos a partir de câmeras de segurança do local.
O que apontaram os laudos?
Entre os documentos produzidos estão laudos de necropsia, toxicologia, análise do local da morte, DNA, papiloscopia e exames de áudio e vídeo. Os exames concluíram que Isabelle morreu em consequência dos ferimentos provocados pela queda. O laudo cadavérico não apontou sinais de agressão física anteriores à precipitação, e o exame toxicológico não identificou substâncias que explicassem a morte.
A investigação, portanto, passou a separar duas questões: a dinâmica da morte e o comportamento de João durante o relacionamento com a estudante e depois do episódio da morte de Isabelle. É então que, considerando esse segundo aspecto, acontece o indiciamento do namorado por violência psicológica e fraude processual.
Relembre a morte de Isabelle
Isabelle Caracristi, de 22 anos, foi encontrada morta na noite de 13 de setembro, no pátio do condomínio onde morava com João, no bairro Aldeota, localizado em uma área nobre de Fortaleza. A estudante havia caído da área de cobertura do edifício, localizada no 23º andar. João não estava no apartamento no momento da queda. A versão apresentada por ele durante a investigação passou a ser confrontada com depoimentos, mensagens e imagens obtidas pelos investigadores.
Um dos pontos que chamou a atenção da polícia foi o relacionamento recente entre os dois. Isabelle havia começado a trabalhar como estagiária em uma empresa de correspondência jurídica na qual João exercia um cargo de chefia. O namoro entre eles começou pouco tempo depois.
Segundo relatos reunidos durante a apuração, a estudante teria demonstrado incômodo com a forma como o companheiro se comportava com ela. O então chefe dos dois relatou que Isabelle dizia se sentir sufocada e que João teria dificultado a atuação profissional dela de maneira independente. A jovem deixou o cargo de estágio em agosto deste ano.
Família relatou comportamento controlador
A investigação também reuniu relatos de familiares e pessoas próximas que apontaram um comportamento considerado controlador por parte de João. Mensagens e áudios enviados por Isabelle antes da morte foram incorporados à apuração. Segundo informações divulgadas durante a investigação, ela teria relatado a pessoas próximas que se sentia vigiada e sofria restrições dentro do relacionamento.
Um familiar também relatou à polícia que Isabelle havia manifestado preocupação com o comportamento do namorado e pedido que determinadas informações fossem entregues às autoridades caso algo acontecesse com ela. Esses elementos não mudaram a conclusão pericial sobre a forma como a morte ocorreu, mas passaram a integrar a investigação sobre a possível prática de violência psicológica.
Investigação também analisou comportamento após morte
A conduta de João depois da queda de Isabelle também entrou no radar dos investigadores. Segundo as investigações, após a morte da namorada, ele teria procurado o celular de Isabelle nas lixeiras do condomínio e pedido que familiares da jovem fossem impedidos de entrar no prédio.
A apuração também verificou a situação do apartamento onde o casal morava, que teria sido limpo e colocado à venda no dia seguinte à morte da estudante. Câmeras de segurança também foram analisadas para reconstruir os acontecimentos antes e depois da morte. Em uma das linhas investigativas, os policiais verificaram os deslocamentos de João na noite do episódio.
Imagens indicaram que ele esteve acompanhado da ex-mulher em uma missa e depois foi até a Rodoviária de Fortaleza, retornando posteriormente sozinho ao condomínio. A defesa de João nega as acusações e sustenta que ele não estava no apartamento quando Isabelle caiu.
Prisão e posterior soltura
João Munhoz foi preso preventivamente em 22 de setembro, nove dias depois da morte de Isabelle. A prisão ocorreu enquanto a Polícia Civil aprofundava a apuração sobre suspeitas de violência psicológica e possível indução ao suicídio. O celular dele também foi apreendido para análise.
A defesa classificou a prisão como uma medida de caráter midiático e negou que João tivesse praticado qualquer crime. A prisão, porém, durou apenas alguns dias. Na última quarta-feira (1°) a Justiça do Ceará revogou a prisão preventiva depois de o Ministério Público se manifestar favoravelmente à soltura.
João deixou o sistema prisional e passou a cumprir medidas cautelares. Entre elas estão o uso de tornozeleira eletrônica, proibição de deixar Fortaleza e de manter contato com familiares da vítima e testemunhas, além de recolhimento domiciliar noturno. A decisão ocorreu enquanto a investigação ainda estava em andamento. Agora, com a conclusão do inquérito, o procedimento foi encaminhado ao Judiciário.