Vitoriosos de 2024 sofrem revés em 2026: entenda o que mudou para as quedas de João Campos e Eduardo Paes
Fonte: terra.com.br | Data: 07/10/2026 05:03:48
Ex-prefeitos que venceram as capitais com votações expressivas encontraram cenários diferentes em 2026
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Maria Luiza Valeriano
João Campos (PSB) e Eduardo Paes (PSD) foram reeleitos como prefeitos em 2024
Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil e Tânia Rêgo/Agência Brasil
Dois dos prefeitos mais bem-sucedidos nas eleições municipais de 2024 tiveram um resultado muito diferente ao tentar dar o salto das prefeituras para os governos estaduais em 2026. João Campos (PSB), no Recife, e Eduardo Paes (PSD), no Rio de Janeiro, foram reeleitos com votações expressivas há dois anos, mas não repetiram o desempenho nas disputas estaduais no domingo, 4.
Em 2024, João Campos foi reeleito prefeito do Recife no primeiro turno com 78,12% dos votos válidos, ou 725.721 votos. Eduardo Paes também venceu no primeiro turno e recebeu 60,47%, com 1,86 milhão de votos.
Em 2026, João terminou a eleição para o governo de Pernambuco em segundo lugar, com 44,81%, atrás da governadora Raquel Lyra (PSD), que alcançou 53,27% e foi reeleita no primeiro turno.
A derrota foi fugiu do esperado, conforme a cientista política Fernanda Maria Negromonte. “Foi uma campanha de muita energia, muito engajamento, as pessoas tiveram muita gana para poder colocar João Campos como o candidato de oposição mais bem colocado nas pesquisas.”
No entanto, a cientista aponta para uma bagagem que prejudicou a campanha de Campos. “O partido de João, que é o PSB, já é um partido que tem sido rejeitado publicamente. João conseguiu, no início do primeiro mandato na PCR, construir uma imagem dele como figura política, o indivíduo João Campos, desassociada da imagem do PSB, o que foi bom pra ele e culminou na sua reeleição como prefeito”, disse. A nível estadual, Campos não conseguiu se desassociar do partido, além de concorrer com quem já está com a máquina pública.
Além disso, ao receber apoio do presidente Lula, a coligação de Campos teria se alienado de eleitores de outros grupos. “Raquel ficou com quem restou. A governadora Raquel conseguiu fazer uma costura dentro do grupo, com os prefeitos aliados, costura essa sob muitas camadas, até mesmo tendo algum tipo de benefício relacionado à sua isenção de posicionamento com relação às eleições do Governo Federal.”
Rio de Janeiro: DOUGLAS RUAS e EDUARDO PAES vão ao 2º turno para governador:

Paes teve 42,76% na disputa pelo governo do Rio e ficou atrás de Douglas Ruas (PL), que terminou com 49,27%. Neste caso, porém, a situação ainda não está definitivamente encerrada: os votos de Anthony Garotinho (Republicanos), que recebeu 3,17%, estão sob análise da Justiça Eleitoral. Garotinho teve sua candidatura indeferida e desistiu da corrida.
Mayra Goulart, professora do departamento de Ciência Política da UFRJ, aponta que a queda de apoio de Paes se dá por dois principais fatores: o posicionamento do candidato e domínio do bolsonarismo na direita brasileira.
“O Eduardo Paes se lançou como candidato que não era esquerda, embora tivesse uma ligação com o governo federal. Ele queria pegar esses votos de uma direita não bolsonarista e ele foi trucidado por causa disso. Ele teve apenas os votos da esquerda, essa é minha leitura, e a esquerda do Rio está com muita dificuldade de eleger um candidato majoritário.”
Do outro lado do espectro político, onde Paes teria mirado os votos, segundo a especialista, há um movimento claro. “O Rio de Janeiro explica muito sobre a eleição nacional. […] Mostra que não existe espaço na direita para nada que não seja o bolsonarismo.”
“O que me parece que é subdimensionado é a capacidade da direita de se enraizar, de aproveitar as redes clientelares do PL em todo o estado do Rio de Janeiro, mas sobretudo, de usar uma tecnologia de informação, através de influencers, grupos de WhastApp, na igreja, na academia, no local de trabalho… Todo esse caldo de cultura permite que eles informem esse leitor de maneira muito dissonante ao que os veículos de mídia tradicional fazem e, com isso, tornem aqueles candidatos que são apoiados nessas bolhas muito invulneráveis aos mais diversos escândalos”.
O mesmo se repetiu com outros candidatos, como Tião Bocalom (PSDB), David Almeida (Avante) e Cícero Lucena (MDB).
Em Rio Branco, Tião Bocalom havia sido reeleito prefeito em 2024 com 54,82% dos votos válidos. Dois anos depois, ao disputar o governo do Acre pelo PSDB, terminou em terceiro lugar, com 10,22%. Mailza Assis (PP) e Alan Rick (Republicanos) avançaram para o segundo turno.
Em Manaus, David Almeida havia conseguido a reeleição em 2024 com 54,59% dos votos válidos, no segundo turno, contra Capitão Alberto Neto (PL).
Em 2026, Almeida tentou chegar ao governo do Amazonas. Terminou o primeiro turno com 10,56%, em quarto lugar, com 218.366 votos válidos. Omar Aziz (PSD) e Maria do Carmo (PL) avançaram para o segundo turno.
Outro caso é o de Cícero Lucena. Reeleito prefeito de João Pessoa em 2024 com 63,91% dos votos válidos, ele deixou a prefeitura para disputar o governo da Paraíba em 2026.
Na eleição estadual, Lucena terminou em terceiro lugar, com 11,05%, atrás de Lucas Ribeiro (PP), eleito com 64,30%, e Efraim Filho (PL), que ficou com 24,18%.