Pausa na carreira pressiona a aposentadoria das mulheres
Fonte: spacemoney.com.br | Data: 07/10/2026 14:42:02
A decisão de interromper a trajetória profissional para cuidar de filhos pequenos ou de pais idosos costuma ser tratada como uma questão de rotina doméstica, mas o efeito se prolonga por décadas e atinge diretamente a capacidade de formação de patrimônio de quem assume essa tarefa. O alerta foi o eixo central de um encontro com mulheres realizado na terça-feira (6), em São Paulo, pela Manas Investem em parceria com a MAG Seguros, conforme apurou o InfoMoney.
Para Flávia Lanat, fundadora da Manas Investem, startup de educação financeira voltada ao público feminino, o primeiro passo é levar a discussão para dentro de casa. Segundo ela, os casais precisam avaliar em conjunto como equacionar o efeito que o afastamento provocará duas, três ou quatro décadas depois, no momento em que a mulher decidir deixar o mercado de trabalho de forma definitiva.
A defasagem que começa na poupança previdenciária
A conversa ganha peso em um cenário de disparidade salarial persistente. Relatório divulgado em abril de 2026 pelos ministérios do Trabalho e Emprego e das Mulheres aponta que a remuneração média feminina é 21,3% inferior à masculina. Na avaliação de Lanat, o planejamento do afastamento não pode se limitar a verificar se o orçamento doméstico cobre as contas do mês: é preciso definir como preservar a formação de patrimônio de quem ficará responsável pelo cuidado.
Os números da previdência privada aberta reforçam a assimetria. Levantamento da Susep, autarquia que fiscaliza o setor de seguros, mostra que o aporte médio é de R$ 13.187 entre mulheres e de R$ 17.218 entre homens — diferença de aproximadamente 30% favorável ao público masculino. O dado importa porque o patrimônio acumulado é justamente o que garante autonomia na velhice.
A longevidade acrescenta outra camada ao problema. Conforme o IBGE, com dados de 2024, uma mulher que completava 60 anos tinha expectativa de viver mais 24,2 anos, contra 20,8 anos adicionais para um homem na mesma idade. O público feminino, portanto, precisa sustentar-se por mais tempo — e frequentemente com menos recursos acumulados.
A conta do cuidado não sai apenas do bolso da mulher
Lanat destacou que gastos ligados à rotina familiar tendem a se concentrar no bolso feminino, como os presentes em festas infantis que a mãe acompanha. Quando despesas recorrentes saem sempre da mesma fonte, sobra menos espaço para poupar. A saída, segundo ela, passa por aprimorar o controle financeiro doméstico — um esforço que envolve a família inteira e não apenas a mulher.
O custo do cuidado também se manifesta sem qualquer demissão formal. A fundadora da Manas Investem citou situações em que mulheres recusam promoções para dar conta das obrigações familiares. O movimento amplia o debate: conciliar trabalho e cuidado exige olhar tanto para a renda atual quanto para as oportunidades de crescimento futuro. Ao declinar uma promoção, a profissional também abre mão de ganhar mais e de contribuir mais, observou.
Carice Weber, diretora executiva corporate da MAG Seguros, relatou durante o encontro que não pôde interromper a própria carreira para cuidar dos filhos porque precisava gerar renda em casa. A executiva defendeu que o planejamento combine formação de patrimônio e proteção de quem está poupando, levando em conta riscos como doenças, acidentes e morte prematura, capazes de comprometer os recursos destinados ao futuro e a segurança financeira da família.
Lanat acrescentou que o seguro funciona como instrumento de preservação dos recursos que estão sendo construídos para a aposentadoria. O papel do produto, contudo, depende das coberturas contratadas e das condições de cada apólice — o que exige entender quais situações dão direito à indenização antes de avaliar como ele se encaixa no planejamento.
Antes de qualquer pausa, discutir despesas, poupança e responsabilidades ajuda a tornar visível um custo que raramente aparece nas contas do mês. Para a fundadora da Manas Investem, o desafio é construir soluções em conjunto: alguém terá de cuidar dos filhos e dos pais idosos, mas a família precisa conversar sobre isso.