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Chip da beleza’ promete emagrecimento e rejuvenescimento, mas médicos fazem alerta

Fonte: correio24horas.com.br | Data: 08/10/2026 05:47:03

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Carta assinada por 12 sociedades médicas questiona implantes hormonais manipulados e reforça que terapia hormonal deve ter indicação individualizada, acompanhamento e respaldo científico

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  • Perla Ribeiro

Publicado em 8 de outubro de 2026 às 05:20

Chip da beleza” promete emagrecimento e rejuvenescimento, mas médicos fazem alerta
Chip da beleza” promete emagrecimento e rejuvenescimento, mas médicos fazem alerta Crédito: Imagem gerada pela IA

A promessa de emagrecer, ganhar massa muscular, melhorar a libido, aumentar a disposição e até desacelerar o envelhecimento ajudou a colocar os chamados “chips da beleza” no centro de uma discussão que ganhou força durante o 20º Congresso Mundial de Menopausa, realizado no Rio de Janeiro. Doze sociedades médicas e científicas divulgaram a chamada Carta do Rio de Janeiro, na qual manifestaram preocupação com o uso de implantes hormonais manipulados, especialmente entre mulheres no climatério e na menopausa.

O documento questiona a utilização desses produtos para objetivos como perda de peso, ganho de massa muscular, aumento de energia, melhora do desempenho físico e antienvelhecimento. Segundo as entidades, faltam evidências clínicas de qualidade que comprovem esses benefícios e ainda existem lacunas sobre a segurança do uso em longo prazo.

1- Menstruação irregular
(Imagem: Peakstock | Shutterstock) por Imagem: Peakstock | Shutterstock

Para a médica Patrícia Menegusso, que atua na área de saúde da mulher, climatério e menopausa, o ponto central da discussão está em diferenciar tratamento médico de promessa comercial.“Uma mulher pode, sim, ter indicação para uma terapia hormonal. O problema começa quando uma solução é apresentada como se pudesse resolver diversos aspectos da vida de todas as mulheres. Tratamento médico não pode ser baseado em promessa. Ele precisa partir de uma avaliação individual, de uma indicação adequada e de acompanhamento”, afirma.

O problema não é falar sobre hormônios

O alerta das entidades médicas não significa que a terapia hormonal para a menopausa deva ser abandonada. A própria Carta do Rio de Janeiro faz essa distinção ao afirmar que a terapia hormonal, quando corretamente indicada e respeitando suas indicações e contraindicações, é um tratamento respaldado por evidências.

A preocupação está especificamente nos implantes hormonais manipulados e implantáveis que não passaram pelo mesmo processo de demonstração de eficácia, segurança, qualidade e controle exigido dos medicamentos registrados.“Precisamos evitar dois extremos. Um é dizer que todo hormônio é perigoso. O outro é acreditar que todo hormônio fará bem e que quanto mais hormônio, melhor. Nenhuma dessas afirmações representa uma medicina baseada em evidências”, explica Patrícia.

Quando a menopausa vira produto

O debate acontece justamente em um momento de expansão do mercado voltado à menopausa. Suplementos, aplicativos, produtos de bem-estar, terapias hormonais e diferentes soluções comerciais passaram a disputar a atenção de mulheres que procuram respostas para sintomas como cansaço, alterações do sono, ganho de peso, mudanças na libido e dificuldade de concentração.

Durante o Congresso Mundial de Menopausa, a própria comercialização da menopausa entrou em discussão. A endocrinologista Jen Gunter chamou atenção para o risco de o mercado passar a definir quais sintomas seriam tratados como parte da menopausa e quais soluções seriam apresentadas como necessárias.

Para Patrícia, ampliar o acesso à informação pode ser positivo, mas existe um limite quando inseguranças relacionadas ao envelhecimento feminino passam a ser utilizadas como oportunidade comercial.“É muito importante que a mulher tenha mais informação sobre a menopausa. Mas informação não pode ser confundida com propaganda. Quando alguém promete emagrecimento, rejuvenescimento, aumento de energia e melhora da libido por meio de uma única intervenção, é preciso perguntar: qual é a evidência para cada uma dessas promessas?”, questiona.

Testosterona não é sinônimo de juventude

A testosterona é outro ponto importante nessa discussão. Segundo o conteúdo apresentado, a Anvisa alertou em agosto deste ano que a reposição do hormônio não é uma necessidade universal para mulheres e que sua utilização deve depender de indicação clínica, considerando sintomas, exames, histórico de saúde e evidências científicas.

A Carta do Rio de Janeiro reforçou esse entendimento ao apontar que a única indicação para testosterona em mulheres respaldada por consensos internacionais é o transtorno do desejo sexual hipoativo em mulheres pós-menopáusicas cuidadosamente avaliadas, com doses capazes de manter concentrações dentro da faixa fisiológica feminina.

O documento não recomenda implantes, injeções ou outras preparações que produzam níveis supr fisiológicos.“Libido não é simplesmente uma questão de quantidade de testosterona. Desejo sexual envolve aspectos hormonais, físicos, emocionais, relacionais e contextuais. Por isso, uma avaliação adequada é muito mais importante do que procurar uma solução padronizada”, afirma Patrícia.

O que perguntar antes de começar um tratamento?

Diante de tantas promessas e opções disponíveis, a médica considera que fazer perguntas antes de iniciar qualquer tratamento pode ajudar a mulher a tomar uma decisão mais consciente.

Entre os pontos que devem ser esclarecidos estão:

  • Qual é a indicação desse tratamento?
  • Existem estudos de qualidade que comprovem esse benefício?
  • Quais são os riscos?
  • É um medicamento registrado?
  • A dose pode ser ajustada?
  • O tratamento pode ser interrompido facilmente caso apareça algum efeito adverso?
  • Quais alternativas existem?

“Uma paciente bem informada não é aquela que aceita ou recusa um tratamento automaticamente. É aquela que entende por que determinada conduta está sendo proposta, quais são seus benefícios, seus riscos e quais alternativas existem”, destaca.

Tratamento personalizado não significa tratamento sem evidência

A ideia de “tratamento personalizado” ganhou espaço na comunicação sobre menopausa, mas individualizar o cuidado não significa criar protocolos sem comprovação científica. Para Patrícia, personalização significa justamente levar em conta que cada mulher tem uma história e necessidades diferentes.

“Personalizar é olhar para a mulher que está diante de você. É considerar seus sintomas, sua história, seus fatores de risco, seus exames quando indicados, seu momento de vida e seus objetivos. Isso é muito diferente de oferecer a mesma solução para todas”, afirma. O novo posicionamento das entidades médicas amplia uma discussão que tende a ganhar ainda mais espaço à medida que a menopausa deixa de ser um assunto invisível.