Baixar Notícia
WhatsApp
Email

Quando o “super El Niño” encontra o Brasil: uma tragédia anunciada que insiste em se repetir

Fonte: diariodoestadogo.com.br | Data: 08/10/2026 13:57:59

🔗 Ler matéria original

O Brasil vive, em 2026, um dos momentos mais delicados de sua história climática recente. Segundo o boletim conjunto divulgado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e por diversos órgãos federais, a probabilidade de o atual El Niño atingir intensidade “muito forte” entre outubro e dezembro de 2026 é de 95%, podendo se tornar um dos eventos mais intensos desde 1950. Dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) mostram que a temperatura da superfície do mar no Pacífico equatorial centro-leste já ultrapassa 2°C acima da média, e alguns modelos indicam que esse número pode chegar a 2,5°C.

Mas o que realmente preocupa não é apenas a leitura das temperaturas oceânicas, e sim a forma como essa anomalia distante se transforma, em solo brasileiro, em sofrimento concreto. O El Niño nunca “cria” desastres sozinho: ele redistribui as probabilidades de eventos extremos, empurrando as chuvas para o Sul e impondo a seca ao Norte. Quando essas probabilidades se concretizam, o preço é pago em vidas, moradias e meios de subsistência.

A água do Sul: temporais, enchentes e desalojados

No Sul do Brasil, o El Niño significa mais chuva. Os modelos meteorológicos apontam, de forma consistente, para um cenário preocupante: Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná devem registrar precipitação acima da média histórica, com rios subindo e risco de enchentes crescendo rapidamente.

Esse alerta não é teórico. No início de maio de 2026, o Rio Grande do Sul enfrentou um episódio de chuvas extremas. A cidade de Rosário do Sul registrou 251 milímetros em 24 horas, cerca de três vezes a média histórica do mês. Só nesse município, 512 pessoas ficaram desalojadas; em todo o estado, ao menos 24 cidades relataram prejuízos, com quatro mortes e dois desaparecidos. Pontes foram destruídas, estradas interditadas e comunidades inteiras ficaram isoladas. E isso foi apenas um ensaio do que o El Niño ainda pode provocar.

Também em maio, Pernambuco e Paraíba, no Nordeste, enfrentaram chuvas recordes. Em algumas regiões da Paraíba, os volumes registraram o maior acumulado em 30 anos, com estradas e pontes destruídas. Ao menos oito pessoas morreram nos dois estados, milhares precisaram deixar suas casas e o governo paraibano decretou estado de calamidade pública. Por trás desses números, há famílias inteiras que perderam tudo na lama.

Leia também:
Desmatamento causado pelo agronegócio e El Niño: qual é a maior ameaça em 2026?
El Niño pode aumentar casos de chikungunya e dengue no Brasil
Supercélula em Alegrete: caçadores de tempestades identificam o fenômeno

O fogo do Norte: seca, fumaça e céu irrespirável

Em contraste cruel com o Sul, o Centro-Norte do Brasil vive outro tipo de tragédia. De acordo com análises do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN), durante o El Niño, grandes áreas do Norte, Nordeste e Centro-Oeste enfrentam menos chuva e temperaturas mais altas. Dados de setembro de 2026 já mostravam aumento no número de municípios em situação de seca extrema ou grave no Amazonas, em Roraima e no Acre, com os níveis dos rios Branco e Negro seguindo em queda.

Uma das consequências diretas da seca é o salto no risco de incêndios. INPE e CEMADEN alertam, em conjunto, para “risco mais elevado de fogo” na Amazônia e em estados do Centro-Oeste. A vegetação, submetida a calor contínuo e falta de água, torna-se altamente inflamável e, quando o fogo começa, a fumaça cobre as cidades e a qualidade do ar despenca. O Observatório de Clima e Saúde da Fiocruz já emitiu alerta: em áreas afetadas pela fumaça de queimadas, crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias precisam redobrar os cuidados e evitar exposição prolongada à poluição. Para esses grupos, respirar torna-se, por si só, um risco.

Há ainda uma ameaça mais profunda: a segurança hídrica. A queda no nível dos rios do Norte afeta navegação, abastecimento de comunidades e geração de energia hidrelétrica, usinas como Jirau, Santo Antônio, Belo Monte e Tucuruí sentem o impacto. Quando os rios secam, comunidades que dependem do transporte fluvial podem ficar isoladas e cidades que dependem da hidreletricidade podem enfrentar pressão energética. Seca nunca é apenas “falta de chuva”: é um gatilho de riscos sistêmicos.

Clima seco e quente – Foto: Agência Brasil

A fabricação do desastre: o clima nunca age sozinho

Para entender os desastres causados pelo El Niño no Brasil, é preciso ir além da narrativa simplista de “catástrofe natural”. O CEMADEN repete, em suas notas técnicas, um ponto central: o El Niño não causa desastres diretamente. Ele altera probabilidades, torna chuvas extremas ou secas prolongadas mais prováveis. Mas se um temporal se transforma em uma enchente com mortes depende de outra variável igualmente decisiva: a vulnerabilidade.

Muitas cidades brasileiras, sobretudo nas periferias metropolitanas e nas encostas, têm vastas áreas de ocupação irregular em morros, margens de rios e locais com drenagem precária. Quando a chuva forte chega, são esses moradores os primeiros a sentir o impacto. Deslizamentos, casas destruídas, estradas arrastadas, esses “desastres” acontecem porque a exposição e a fragilidade já existiam. O El Niño apenas puxou o gatilho.

Da mesma forma, a seca no Norte vira crise hídrica e crise de incêndios não só porque chove menos, mas porque o desmatamento reduz a capacidade da floresta de reter umidade, porque a infraestrutura não chega a comunidades remotas e porque a capacidade de combate ao fogo é insuficiente diante da imensidão da Amazônia.

Uma tragédia anunciada pode ser evitada?

Há um paradoxo incômodo nessa situação: a tragédia, em grande medida, foi prevista. O Brasil conta com um sistema razoavelmente sofisticado de monitoramento e alerta climático. INPE, INMET, CEMADEN e ANA publicam boletins mensais com previsões probabilísticas e análises de impacto por região. A Agência Nacional de Águas (ANA) lançou, em setembro de 2026, um Plano de Preparação para o El Niño, com ativação de salas de crise no Sul, gestão de alocação de água em reservatórios do Nordeste e monitoramento de níveis fluviais no Norte. O governo federal e as defesas civis estaduais também acionaram operações de resgate quando os temporais chegaram.

Mas há um abismo entre essas medidas e a necessidade real. O alerta pode avisar que a chuva vem, mas não constrói moradias seguras da noite para o dia. A sala de crise pode coordenar a liberação de reservatórios, mas não compensa décadas de atraso em infraestrutura. O resgate pode agir depois da tragédia, mas não devolve vidas já perdidas.

Mais importante: o nível “muito forte” do El Niño significa impactos muito além da experiência histórica. Os volumes de chuva e a duração das secas previstos pelos modelos podem ultrapassar a capacidade do sistema atual de prevenção. Quando o CEMADEN observa, com cautela, que “a incerteza das previsões aumenta rapidamente com o horizonte de tempo”, está transmitindo um recado inquietante: podemos estar diante de um evento que escapa aos referenciais que conhecemos.

Clima instável no Brasil devido ao El Ninõ- Foto: Reprodução/ Agência Brasil

O El Niño de 2026 escreve, no Brasil, uma crônica climática da desigualdade. As enchentes do Sul levam o patrimônio de quem tem pouco; as secas do Norte sufocam a vida de quem já vive no limite. E os grupos mais vulneráveis – moradores de favelas, pequenos agricultores, comunidades indígenas, ribeirinhos — estão sempre na linha de frente do impacto.

Não é a primeira vez que o Brasil vive um El Niño, nem será a última. Mas, com o aquecimento global elevando continuamente a temperatura de fundo, cada El Niño parte de um patamar mais alto e cada evento extremo carrega um peso maior. Há uma frase no boletim do INPE que soa fria, quase cruel em sua precisão: o evento atual “pode figurar entre os mais intensos desde 1950”.

Enquanto o oceano acumula calor no distante Pacífico equatorial, no solo brasileiro o destino já está sendo reescrito. A pergunta deixou de ser “o desastre vai acontecer?” e passou a ser “quanto estamos preparados para o pior?”.