Fraudes em seguros crescem em valor e sofisticação com avanço da inteligência artificial
Fonte: sindsegsc.org.br | Data: 09/10/2026 00:10:51

O setor de seguros está entre segmentos que entraram de vez no radar do crime organizado global. O mercado londrino está entre os exemplos dos que sofrem assédio das quadrilhas, marcado por operações mais sofisticadas, transnacionais e tecnologicamente avançadas, no entender do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC).
Em seu encontro anual de 2026, o ONODC assinalou que os criminosos conseguem atuar em múltiplas jurisdições em questão de segundos, frequentemente em velocidade superior à capacidade de resposta das autoridades. Acrescenta que, entre os modelos mais preocupantes, estão as chamadas “fábricas de golpes”, estruturas criminosas em larga escala que, em alguns casos, utilizam vítimas de tráfico humano como mão de obra para aplicar fraudes em massa. Ao lado disso, destaca-se o uso crescente da inteligência artificial pelos fraudadores. A tecnologia vem sendo utilizada para planejar campanhas mais eficazes, automatizar ataques e aumentar a capacidade de atingir milhões de pessoas em curto espaço de tempo, incluindo o mercado segurador.
“Fraude de seguros não é um crime sem vítimas”, diz especialista britânico
Especialistas concordam que as seguradoras se deparam com o aumento dos riscos cibernéticos e de fraude digital; procuram soluções de prevenção, monitoramento e inteligência antifraude; e convivem com exposição a golpes envolvendo identidade digital, sinistros fraudulentos e manipulação por IA. Também buscam cooperação mais estreita com bancos, plataformas tecnológicas e órgãos de segurança, e, por fim, são pressionadas a ampliar produtos e coberturas voltados a riscos emergentes associados a criminalidade digital. Resultado: as fraudes geram prejuízos anuais de bilhões de dólares para indivíduos, empresas, governos e instituições financeiras, incluindo-se aí seguradoras.
Seguradoras britânicas computam mais de 250 pedidos irregulares por dia
O executivo Mark Allen, chefe da Divisão de Fraudes e Crimes Financeiros da ABI (Associação de Seguradoras Britânicas) afirma que “a fraude de seguros não é um crime sem vítimas, e aqueles que a cometem aumentam o custo dos prêmios para os clientes honestos”. Segundo ele, as seguradoras britânicas detectam, em média, mais de 250 pedidos de indenizações irregulares. Apesar do número elevado, ele reconhece que as negativas provavelmente representam apenas a ponta do iceberg, apontando a crescente colaboração entre as forças policiais e o setor privado para aumentar a detecção de fraudes em seguros e levar os infratores à Justiça.
Dados recentes da ABI revelam que as seguradoras detectaram 1,34 bilhão de libras em reivindicações fraudulentas em 2025, o que representou um aumento de 14% em relação aos 1,18 bilhão detectados no ano imediatamente anterior. Embora o número de reclamações fraudulentas detectadas tenha caído ligeiramente (foram 93.900 casos – redução de 2,7% em relação a 2024), a ABI afirma o valor da atividade fraudulenta continuou a aumentar acentuadamente, ilustrando sua crescente escala e sofisticação. Tanto que o valor médio de uma reclamação fraudulenta atingiu 14, 3 mil libras esterlinas– o segundo nível mais alto já registrado, ficando logo abaixo do pico de 14, 6 mil registrados em 2022.
O relatório constata que o seguro automóvel continuou sendo a área onde as seguradoras identificaram o maior nível de fraude em sinistros, representando 55% de todos os casos detectados. Com 51.900 sinistros fraudulentos de automóveis, totalizando 625 milhões de libras esterlinas descobertos durante o ano, os números apontam para menos casos, porém mais dispendiosos, refletindo uma tendência para fraudes de maior gravidade.
O seguro de imóveis apresentou um padrão semelhante em relação ao ano de 2024. O número de sinistros fraudulentos detectados em 2025 caiu 6,2%, para 17,7 mil, enquanto o valor total aumentou 3,4%, para 201 milhões de libras – elevando o valor médio a um recorde de 11,4 mil libras.
Já o setor de viagens registrou aumento mais acentuado em volume. Os casos detectados subiram 85%, para 4.500, enquanto o valor aumentou 16%, para 8,6 milhões. Ao analisar os tipos de fraude que os golpistas tentam cometer, a perda exagerada continua sendo a mais comum, com 26.900 casos identificados. Isso ocorre quando alguém tenta deliberadamente aumentar o custo de uma indenização além do seu valor real.
A fraude por simulação de incidentes e perdas foi a que apresentou o maior aumento, com um crescimento de 30%, chegando a cerca de 5.600 casos. Esses golpes envolvem fraudadores que criam ou simulam incidentes, perdas ou circunstâncias deliberadamente para obter indenização.
Em 2024, as seguradoras impediram fraudes em pedidos de seguro no valor de 1,8 bilhão de libras. A fraude em pedidos de seguro ocorre quando informações são deliberadamente deturpadas ou omitidas para obter cobertura de seguro ou reduzir os prêmios. O número total de casos de fraude em pedidos de seguro detectados aumentou significativamente, com um crescimento de 24% em relação ao ano anterior.
Embora a taxa de fraudes em seguros detectadas tenha caído ligeiramente no ano passado, os dados mostram que os fraudadores estão visando indenizações muito maiores. À medida que tecnologias emergentes, como a IA, se tornam mais acessíveis, os fraudadores continuarão buscando novas maneiras de explorá-las.
Diretor do Departamento de Fraudes de Seguros (IFB), Úrsula Jallow, descreveu três dos casos de fraudes identificados. Um, no ramo Residencial, um fraudador apresentou diversas reivindicações falsas por supostos conjuntos de Lego roubados. Foi descoberto e condenado a 28 meses de prisão após uma investigação revelar que as reivindicações eram falsas. Em outro, um golpista orquestrou colisões de trânsito simuladas usando mulheres que conheceu online. A ideia era obter seguidas indenizações por acidentes de trânsito. A fraude foi também descoberta, e o golpista preso. Investigadores descobriram um esquema de fraude de seguro de viagem de 300.000 libras esterlinas, envolvendo múltiplas identidades falsas, documentos médicos falsificados e sites utilizados para sustentar pedidos fraudulentos de emergência médica.
Chefe do Departamento de Combate à Fraude em Seguros (IFED) da Polícia da Cidade de Londres, o inspetor-chefe Simon Klust, constata que os mais recentes da ABI mostram que o impacto econômico da fraude em seguros está crescendo à medida que os fraudadores continuam a aprimorar suas táticas e a explorar novas oportunidades. “A fraude em seguros é devastadora. Ela prejudica os consumidores honestos em momentos já difíceis. Por meio da nossa estratégia IFB Connected to Protect, estamos aproveitando todas as oportunidades para colaborar com nossos membros e parceiros dos setores público e privado para proteger mais pessoas. Ao utilizar tecnologia e inovação, fortalecer a detecção e o combate a fraudes e aumentar a conscientização pública sobre os sinais de golpes, estamos unidos para combater a fraude em todos os níveis”, concluiu.
O mercado britânico de seguros é o maior da Europa e o terceiro maior do mundo. O setor é altamente sofisticado e movimenta centenas de bilhões de dólares anualmente. Grande parte da força desse mercado vem da City de Londres, que funciona como o principal centro financeiro global para seguros corporativos complexos e resseguro. O pilar central desse ecossistema é o mercado do Lloyd´s de Londres, um mercado onde vários sindicatos se reúnem para subscrever grandes riscos globais.
Fonte: CNseg | Notícias do Seguro