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El Niño traz advertência ao setor elétrico

Fonte: oglobo.globo.com | Data: 09/10/2026 00:21:16

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A principal fonte renovável depende de um regime hidrológico cuja previsibilidade já não é a mesma do século passado

Torre de energia elétrica
Torre de energia elétrica — Foto: Domingos Peixoto – Agência O Globo

A matriz elétrica brasileira é uma das mais limpas do mundo. Em 2025, 86,8% da oferta de eletricidade originou-se em fontes renováveis, tendo a hidreletricidade como pilar, com 51,2%. Nossa maior vantagem não está só em produzir eletricidade renovável, mas na capacidade de os reservatórios armazenarem energia, regularizarem o sistema e oferecerem flexibilidade para integrar fontes variáveis como a solar e a eólica. Essa vantagem depende, porém, de um ativo cada vez menos previsível: a água.

A dependência seria menos preocupante se os rios respondessem aos padrões que vêm orientando o planejamento energético. Não é o que tem acontecido. As mudanças climáticas já alteram o regime hidrológico, reduzindo a vazão em bacias, aumentando a frequência de secas e tornando eventos extremos recorrentes. Entre 2024 e 2025, o Balanço Energético da Empresa de Pesquisa Energética mostra que a geração hidrelétrica recuou 4,8%. E a geração a gás natural cresceu 22,7%. Isso ilustra como a menor disponibilidade hídrica aumenta a dependência de fontes térmicas para preservar a confiabilidade do sistema.

Um dos desafios da transição energética, portanto, é preservar a matriz renovável, garantindo a resiliência da hidreletricidade num clima cada vez mais instável.

É nesse contexto que o Super El Niño merece atenção. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos estima em 81% a probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade “muito forte” entre outubro e dezembro e 97% de chance de persistir até 2027. No Brasil, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e o Instituto Nacional de Meteorologia alertam quanto a potenciais impactos sobre chuvas, vazões e geração de energia.

Tal intensidade evidencia uma vulnerabilidade estrutural: a principal fonte renovável depende de um regime hidrológico cuja previsibilidade já não é a mesma do século passado.

O El Niño adverte sobre o custo de não construirmos, hoje, a infraestrutura que permitirá ao sistema elétrico enfrentar os eventos climáticos das próximas décadas. Resiliência energética não se constrói na crise; constrói-se antes dela. Uma dessas medidas é reconhecer e incorporar as eólicas offshore ao planejamento energético não só como fonte renovável, mas como seguro hidrológico estratégico.

Estudo do Banco Mundial, de 2024, já identificava a complementaridade entre ventos marítimos e geração hidrelétrica. Outros estudos quantificaram o valor sistêmico dessa relação entre diferentes polos de geração offshore e as principais bacias hidrográficas do país: quando os rios registram menor volume de água, os ventos no mar são mais intensos.

Isso permite armazenar água para períodos críticos, aumentar a flexibilidade do Sistema Integrado Nacional e reduzir o despacho de termelétricas. A eólica offshore não substitui a hidreletricidade; ajuda a proteger seu principal ativo, a água. Esse talvez seja seu valor crucial para o Brasil.

Os efeitos do Super El Niño deveriam alertar que a verdadeira ameaça ao sistema elétrico não é um evento climático, mas a crescente vulnerabilidade de seu principal ativo estratégico diante das mudanças climáticas. Por décadas, os reservatórios foram um grande seguro. Essa vantagem exigirá novo nível de proteção. Ela pode estar justamente no vento que sopra sobre o mar.

*Julia Paletta é diretora da Ocean Energy Pathway no Brasil e doutoranda em planejamento energético na Coppe/UFRJ

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