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Eurasia explica porque o mundo quer investir no Brasil

Fonte: correio24horas.com.br | Data: 09/10/2026 05:19:20

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Grandes potências olham com desejo para segurança energética e alimentar, mas juros e ruídos institucionais assustam internamente

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  • Donaldson Gomes

Publicado em 9 de outubro de 2026 às 05:00


Encontro reúne profissionais de governança corporativa Crédito: Hara Fotografia

Quem vê o Brasil de longe, enxerga no país uma ótima alternativa para investimentos de médio e longo prazo. Já por aqui, quem tem poder de decisão vê nos juros altos, contas públicas descontroladas, corrupção e ruídos institucionais cada vez mais altos como travas para quem quer colocar dinheiro por aqui. Segundo Christopher Garman, diretor executivo para as Américas na Eurasia Group, garante que o Brasil está no centro das atenções dos principais centros financeiros da Europa, Ásia e Estados Unidos.

Para Christopher Garman, a “postura revisionista” da Rússia, a “percepção de pessoas em todo o mundo de que o sistema político está quebrado” e a rivalidade entre os EUA e a China são indicativos de quebra da ordem tradicional, que está levando as grandes potências e investidores internacionais a priorizar segurança alimentar, energética e mineral – três recursos que o Brasil tem em abundância.

“Quando a gente conversa com executivos e investidores no Brasil, por outro lado, vemos um profundo ceticismo causado pelo custo do dinheiro e a paralisia política”, afirmou durante a palestra “O Brasil na nova desordem geopolítica”, no segundo e último dia do 27º Congresso do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), nesta quinta-feira (dia 08), em São Paulo.

O momento atual do mundo é de uma histórica transformação geopolítica, aponta Christopher Garman. “Estamos diante de um ambiente de conflitos geopolíticos inéditos, onde o Brasil está muito bem posicionado. Faz muito tempo que não vejo tanta gente lá fora perguntando pelo país”, diz. “O que temos é um Brasil totalmente bem posicionado lá fora, mas um pessimismo muito grande aqui dentro. Eu estou otimista de que se fizermos lições de casa, os ventos favoráveis serão mais fortes”, aposta.

“O Brasil é um país de contrastes, é comum dizer isso. Temos robustez institucional e uma democracia barulhenta. A corrupção aparece porque temos investigações independentes”, afirma. “Se tiver um freio na formação de cargas fiscais, o potencial de investimentos estrangeiros pode crescer bastante. Existe interesse do capital de longo prazo, particularmente em infraestrutura. Ásia e Europa estão olhando muito para cá, principalmente por conta da relação com os Estados Unidos fragilizada”, diz.

Internamente, existe muita desconfiança da população em relação às instituições. Para 76% dos brasileiros, a economia do país é manipulada a favor dos ricos e poderosos, contra a média global de 68% observada internacionalmente. “Nesse último ano, quando eu rodo aqui no Brasil, eu vou para conselhos de empresa, e eu relato esse otimismo relativo em relação ao Brasil e a resposta que eu tenho e muitos nossos clientes e empresas é: ‘Garman, a gente respeita você, você faz um trabalho sério, a gente sabe, mas em que mundo você vive? Nós estamos vendo um pessimismo enorme. Estamos com juros reais, com custos de capital sufocando as empresas’”, conta.

Dados apresentados pelo diretor da Eurasia com base indicam que grandes setores da opinião pública acreditam que o sistema geopolítico global está quebrado. Em pesquisas realizadas das 35 maiores economias do mundo, 64% acreditam que o país precisa de um líder forte disposto a quebrar as regras para 47%, se necessário. É neste cenário que grandes potências sentem-se autorizadas a entrar em conflitos como o da Rússia com a Ucrânia, ou o dos Estados Unidos com o Irã.

“Estamos vendo a destruição do centro político em todo o mundo. O centro político na Europa pode ser o próximo a ruir”, aponta.

A Eurasia aponta que o impasse no Oriente Médio, que impacta o fluxo de petróleo pelo Estreito de Hormuz deve prosseguir até, pelo menos, meados do próximo ano. A consultoria indica 55% de chance de impasse entre os EUA e o Irã, 35% de chance de uma escalada e apenas 10% de possibilidade de um acordo limitado.

“Teerã tinha convicção que Trump precisava de um acordo antes das eleições. Trump saiu muito frustrado porque não quer um acordo pífio e que não conseguiu concessões alcançadas por Obama, mas a sua reação foi sair da mesa de negociação, voltar a escalar, colocar o bloqueio naval e estrangular o Irã”, descreve. “Nossa visão é que o conflito entrará no ano que vem”. O impacto mais direto é que o petróleo deve seguir oscilando entre os US$ 90 e US$ 110 por mais algum tempo, o que reforça a perspectiva de aumento dos juros americanos.

Nas eleições, os republicanos caminham para uma derrota na Câmara (90%) e no Senado (60%), projeta a consultoria. “Isto sugere que na segunda metade, o governo terá mais restrição de atuação. Ele não pretende fazer nenhuma reforma, mas será investigado e atuará sob pressão. Não acreditamos que o congresso vai restringir a atuação externa e a política tarifária, mas a capacidade de novas medidas chegou ao seu auge”, acredita.

Em relação à China, a expectativa em médio e longo prazo é que os EUA mantenham-se distante, mas com um acirramento cada vez menor nas relações. “Estes dois países vão tentar depender cada vez menos um dos outros”, avalia.

“Trump vai se voltar cada vez mais para a América Latina e o hemisfério Norte. O que estamos ouvindo é que passada a crise no Oriente Médio, vão redobrar a atenção aqui”, acredita.

O tripé de potenciais que colocam o Brasil em evidência passam pela capacidade do agronegócio de produzir alimentos, a geração de energia renovável e também as reservas de terras raras. “As terras raras não são nenhum pré-sal em termos de valor, mas em termos geopolíticos dá bastante poder de negociação”, pondera.

O embaixador Rubens Barbosa, Presidente do Grupo Interesse Nacional, lembrou que o Brasil se destaca na produção e exportação de commodities, mas não tem participação compatível no comércio internacional e na inovação. “Temos 23% das reservas de terras raras, mas respondemos por menos de 1% da produção de insumos globais das indústrias de defesa e de energia limpa”, compara.

Rubens Barbosa acredita que o país precisa se preocupar com a sua inserção externa. “As várias vantagens que o Brasil tem no cenário internacional dependem de como vamos reagir a este novo mundo”, pondera, explicando que o multilateralismo perdeu espaço para decisões bilaterais e até unilaterais. “Estamos diante de uma ruptura internacional, é preciso que os governantes entendam o que está acontecendo”, diz.