Quem é que não sabe votar? Ceará encerra ciclo de Tiririca após 16 anos na Câmara
Fonte: diariodopara.com.br | Data: 09/10/2026 16:48:17
Há ironias que chegam prontas, dispensando até o trabalho do humorista. Tiririca nasceu no Ceará, construiu a carreira artística levando para o Brasil a irreverência nordestina, elegeu-se quatro vezes deputado federal por São Paulo e, quando decidiu disputar uma cadeira pela terra natal, recebeu apenas 5.523 votos.
Depois de quase 16 anos consecutivos na Câmara dos Deputados, o palhaço que virou fenômeno eleitoral descobriu que o voto de protesto também tem prazo de validade.
Em 2010, Tiririca desembarcou na política com o slogan “pior do que tá não fica” e recebeu 1.353.820 votos em São Paulo, tornando-se o deputado federal mais votado do país. Em 2014, ainda conquistou expressivos 1.016.796 votos. A partir daí, a popularidade despencou: foram 453.855 votos em 2018 e 71.754 em 2022. Em quatro eleições, somou quase 2,9 milhões de votos dos paulistas. No Ceará, em 2026, alcançou apenas 0,4% da votação obtida na estreia.
A atuação parlamentar de Tiririca
Não se trata de diminuir a profissão de Tiririca. O circo faz parte da cultura popular brasileira, forma gerações de artistas e merece respeito e políticas públicas. A questão não é ele ter sido palhaço antes de entrar para a política. A questão é o que fez, como parlamentar, com os quatro mandatos que recebeu.
Quase 16 anos e nenhuma lei de autoria exclusiva
A afirmação de que Tiririca “nunca aprovou nenhum projeto” exige uma precisão importante. Ele conseguiu fazer propostas avançarem e serem aprovadas na Câmara. O que não se identifica, ao final de quase 16 anos, é projeto de lei de sua autoria exclusiva transformado definitivamente em lei federal.
Em seus dois primeiros mandatos, Tiririca apresentou 14 projetos de lei, a maioria ligada às atividades circenses. Um deles, apresentado em 2013, pretendia incluir expressamente as artes e as atividades de circo entre as manifestações culturais beneficiadas pela Lei Rouanet. O texto foi aprovado pela Câmara em 2017, seguiu para o Senado, mas acabou arquivado em dezembro de 2022.
Outro projeto, apresentado em 2019, cria a Política Nacional de Apoio ao Circo. A proposta foi aprovada pela Câmara somente no fim de 2025 e enviada ao Senado, onde continuava aguardando despacho. Portanto, também não havia virado lei.
É justo reconhecer que Tiririca teve boa frequência, especialmente nos primeiros mandatos, e participou das votações realizadas pela Casa. Mas assiduidade é obrigação, não obra parlamentar. Ao longo de toda a passagem pelo Congresso, fez apenas seis discursos no plenário. Durante anos, foi um deputado presente fisicamente, mas quase invisível no debate nacional. A cadeira estava ocupada. A voz, raramente.
O voto nordestino e o preconceito
A derrota de Tiririca no Ceará ocorre justamente quando o eleitor nordestino volta a ser atacado por setores da extrema direita. Depois que Lula venceu nos nove estados da região, com 21,49 milhões de votos — 63,77% dos votos válidos —, ressurgiu nas redes sociais o velho discurso de que “o povo do Nordeste não sabe votar”.
Levantamento da Ativaweb DataLab identificou 32,8 milhões de menções e compartilhamentos relacionados ao voto nordestino nas 72 horas seguintes ao primeiro turno. Desse total, 82,2%, o equivalente a cerca de 27 milhões de manifestações, tinham tom crítico ou pejorativo contra a região., o que significa que essas milhões de manifestações não são “análises políticas” e podem ser enquadradas como preconceito regional, social e, muitas vezes, racial disfarçado de inconformismo eleitoral.
Curiosamente, ninguém dizia que o eleitor de São Paulo “não sabia votar” quando entregou quatro mandatos consecutivos a um candidato cuja principal credencial eleitoral era a fama na televisão. Ninguém responsabilizou todo o Sudeste pelos quase 2,9 milhões de votos acumulados por Tiririca naquele estado.
Mas, quando o Nordeste escolhe um presidente identificado com políticas de combate à pobreza, acesso à universidade, segurança alimentar e ampliação do atendimento público de saúde, aparecem os fiscais do voto alheio para chamar a região de ignorante. A régua muda conforme a região onde moram os eleitores..
Políticas públicas que transformam vidas
Eis o contraponto necessário: o que demonstra maior consciência política? Eleger durante quatro mandatos um artista de atuação parlamentar discreta, que fez seis discursos e não conseguiu transformar projeto próprio em lei, ou apoiar um presidente associado a políticas públicas que alcançam milhões de brasileiros?
O Bolsa Família foi lançado em 2003 e instituído em lei em 2004, durante o primeiro governo Lula, reunindo ações de transferência de renda e vinculando o benefício ao acompanhamento de saúde e educação. O Ipea o descreveu como uma experiência de inclusão social em massa.
O Programa Universidade para Todos, o ProUni, foi criado no governo Lula para conceder bolsas integrais e parciais em instituições privadas de ensino superior. Para milhares de jovens pobres, muitos deles os primeiros de suas famílias a chegar à universidade, a política representou uma mudança concreta de destino.
O Fies merece uma correção histórica: foi criado em 1999, antes de Lula, mas passou por mudanças importantes e teve o acesso ampliado nos governos petistas, especialmente a partir da reformulação de 2010.
Mais recentemente, o Gás do Povo criou a modalidade de recarga gratuita do botijão de 13 quilos para famílias de baixa renda inscritas no Cadastro Único. O programa foi instituído por medida provisória em 2025 e transformado em lei em fevereiro de 2026.
Na saúde, as carretas do Agora Tem Especialistas passaram a oferecer mamografias, ultrassonografias, exames de imagem, consultas e cirurgias em regiões onde o acesso era limitado. Até setembro de 2026, as 120 unidades móveis já haviam realizado mais de 1 milhão de procedimentos e atendido cerca de 410 mil pessoas.
Essas políticas podem — e devem — ser fiscalizadas, criticadas e aperfeiçoadas. Nenhum programa público está acima da cobrança. Mas elas existem, possuem beneficiários, orçamento, regras e resultados que podem ser medidos.
Não são slogans. São comida na mesa, gás no fogão, bolsa na universidade, financiamento estudantil, mamografia, diagnóstico e tratamento.
A consciência política do eleitor nordestino
Em meio ao confronto com agressões diretas ao povo nordestino torna-se legítimo confrontar os resultados políticos apresentados por cada trajetória. De um lado, quase 16 anos de mandato parlamentar, enorme capital eleitoral, atuação pública discreta e nenhuma lei federal originada de projeto individual do deputado. Do outro, um projeto de governo identificado, desde 2003, com políticas de transferência de renda, acesso à educação, segurança alimentar e atendimento pelo SUS.
O eleitor nordestino não precisa de autorização de comentaristas, influenciadores ou políticos da extrema direita para escolher o projeto que considera mais próximo de sua realidade.
Quem conhece a fome entende o valor da renda mínima. Quem já cozinhou com lenha por falta de dinheiro sabe o peso de um botijão de gás. Quem nunca teve um médico especialista na própria cidade compreende a importância de uma unidade móvel de saúde. Quem foi o primeiro da família a entrar numa universidade não trata ProUni ou Fies como “esmola”.
O Ceará não rejeitou a arte circense nem a história de vida de Tiririca. Rejeitou a concessão de um quinto mandato a um político que, depois de tantos anos, tinha pouco a apresentar além da própria celebridade.
Antes de repetir que “o Nordeste não sabe votar”, talvez alguns políticos devam observar com mais atenção o recado das urnas. O povo nordestino sabe votar, sabe comparar e, sobretudo, sabe quando a piada já durou tempo demais.