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Luto, envelhecimento e arte: “Seja uma mala de rodinhas multidimensionais”, reflete a palestrante Ana Cláudia Arantes |

Fonte: abcmais.com | Data: 09/10/2026 18:27:00

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Tudo aquilo que é finito, uma hora, perde a luta contra o tempo. Discorrendo sobre a morte e o próprio envelhecimento, a escritora e palestrante Ana Cláudia Quintana Arantes compartilhou parte de suas visões e estudos durante evento no Teatro Feevale, onde levou a palestra “Faça a Sua Vida Valer a Pena” no começo deste mês. Ela conversou com a reportagem de ABCmais em um diálogo sobre traços de sua carreira. Confira a entrevista completa abaixo:

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"Faça a sua vida valer a pena"; palestra da professora, escritora e médica Ana Cláudia Quintana Arantes traz reflexões no Teatro Feevale | abc+

“Faça a sua vida valer a pena”; palestra da professora, escritora e médica Ana Cláudia Quintana Arantes traz reflexões no Teatro Feevale

Foto: Bruno Morais/GES-Especial

Qual a mensagem, a reflexão, que, em cada uma das produções, você tenta deixar mais clara para quem for receber?

“Cuidado. Enquanto você não se percebe envelhecendo, você está no lugar de quem pode cuidar. Você pode cuidar dos seus pais, avós, de um colega. Quando você está bem, você tem uma postura de disponibilidade, disposição para cuidar das pessoas que você percebe que vão se beneficiar daquilo que você sabe fazer. Quando você está vivenciando o processo de adoecimento, eu preciso te ensinar a aceitar ser cuidado, a importância de você se cuidar, preciso te ensinar que a pessoa legal no mundo é a que aceita ser cuidada. Então, já que você vai ser uma mala (para) alguém carregar, seja uma mala de rodinhas multidimensionais, levinha, de tungstênio, que as pessoas adoram desfilar com você por perto, porque você é uma pessoa que sabe receber cuidado.”

Dentro das suas atividades, tem uma publicação e uma pré-estreia para crianças, que também trata desse tema. Qual é essa (sua) face e por que é importante também tratar disso com crianças? 

“Na minha maternidade, eu era uma mãe que contava histórias. E, através das histórias que meus filhos gostavam, eu conseguia trazer o momento presente. As histórias traziam realidades para eles, que eles estavam vivendo. Eu percebi que, na minha carreira como médica, muitas vezes eu me deparava com crianças envolvidas no cuidado de familiares que eu estava cuidando. A integração dessas crianças na consciência do que está acontecendo pode fazer com que o luto delas seja mais… bonito. O que não significa que não seja triste. O que é que eu vejo? Muitas pessoas, tentando poupar as crianças, ‘hiperocupam’ a criança, (que) não tem tempo de brincar e nem de amar. Só que, depois que a pessoa morre, ninguém consegue poupar a criança da ausência. Ela vai achar que não foi boa o suficiente para merecer a atenção da pessoa que morreu.“

“Coloquei em prática isso no primeiro livro que eu escrevi para as crianças, ‘Onde Fica o Céu’, que fala da morte, nomeia a morte e traz, na experiência da criança, os processos, as etapas do processo de luto. Quando eu fui lançar o livro pelo Brasil, uma menina perguntou para mim: ‘Você vai continuar escrevendo para as crianças?’ Eu falei: ‘Eu quero muito continuar escrevendo. Você tem alguma sugestão para mim de livro?’ Na hora ela não quis falar. Depois, na fila do autógrafo, levei essa menina (e) falei para ela: ‘Me conta aqui, o que você quer que eu escreva no próximo livro?’ Aí ela fez assim: ‘Tem uma coisa que ninguém me responde: por que as pessoas ficam doentes? Eu demorei um ano para responder a essa pergunta. E agora a pergunta está respondida, para o próximo livro.”

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Ana Cláudia Arantes

Ana Cláudia Arantes

Bruno Morais/GES-Especial

"Faça a sua vida valer a pena"; palestra da professora, escritora e médica Ana Cláudia Quintana Arantes traz reflexões no Teatro Feevale

“Faça a sua vida valer a pena”; palestra da professora, escritora e médica Ana Cláudia Quintana Arantes traz reflexões no Teatro Feevale

Bruno Morais/GES-Especial

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As histórias se complementam? De que forma elas conversam entre si? 

“Se você pegar o ‘A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver’, se a gente for fazer uma comparação com fotografia, é como se você pegasse a foto do celular e colocasse no 0,5, é uma foto panorâmica, é um livro que cabe muita coisa do cenário da morte. O ‘Histórias Linda de Morrer’ são as histórias que compuseram a minha observação e toda a profundidade que eu fui buscar nos estudos acerca de cada morte para eu escrever ‘A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver’. Foram aquelas pessoas que me ensinaram a observar aquele panorama, aquela obra de arte mais ampla. Então, é como se cada pessoa ali fosse um pedaço daquele cenário. E eu trago histórias lindas. Depois, eu vou para o ‘Cuidar até o Fim’, que é como se você fizesse uma foto macro do período final da sua vida.”

“Então, no primeiro, conto toda a trajetória até o final. No segundo, conto as histórias com os maiores dilemas: ‘Você só ouviu 16 pessoas morrendo?’. Não, milhares, mas as histórias que eu escolhi são (as) que enunciam situações de dilemas em comum, (como) traição, abandono, egoísmo, e tem as duas últimas histórias que são dos meus pais, estão até separadinhas. As histórias estão em página preta, que é do meu mundo interno. Então, essas três nuances eu consigo fazer com que os leitores mudem de lugar para enxergar a mesma cena. (E) poesia, porque é minha Bíblia; minha prece de cada dia é uma poesia.”

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Sobre essa variedade de funções: médica, palestrante, professora, escritora, o que mais te demanda tempo hoje e por quê? 

“Em todas as minhas atividades, eu sou uma educadora. Porque quando eu estou diante de um paciente, de uma equipe, de alunos ou diante de um instrumento de comunicação, tenho a chance de tornar aquela pessoa que está me ouvindo capaz de entender aquilo que está acontecendo com ela na vida e o que está acontecendo com algum familiar dela ou alguma pessoa que ela vai cuidar, ou que ela vai presenciar o processo de adoecimento, de sofrimento, de morte depois do luto. Eu posso ensinar o paciente a lidar com todas as expectativas que as pessoas têm à volta dela. Às vezes a pergunta é sobre o médico, às vezes a pergunta é sobre os seus filhos, às vezes é sobre o companheiro, os pais, e aí estamos sempre querendo performar um bom desempenho diante das pessoas que a gente gosta. Mas, na hora de morrer, é você. Então, eu acho que educação é o principal.”

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"Faça a sua vida valer a pena"; palestra da professora, escritora e médica Ana Cláudia Quintana Arantes traz reflexões no Teatro Feevale | abc+

“Faça a sua vida valer a pena”; palestra da professora, escritora e médica Ana Cláudia Quintana Arantes traz reflexões no Teatro Feevale

Foto: Bruno Morais/GES-Especial

Em 2020, houve o lançamento de uma Lei Federal, com a qual você teve alguma participação. Poderia esclarecer um pouco do que aconteceu?

“Saiu um parecer do Conselho Regional de Medicina proibindo os médicos de permitirem uma videochamada das pessoas internadas na época da Covid para falar com a sua família. Eu me posicionei absolutamente contra isso, porque no cuidado é impossível você extirpar a família, mesmo numa situação de pandemia. Fui severamente punida pelo Conselho, recebi uma notificação extrajudicial para me retratar, me retratei, mas me coloquei à disposição para que algo pudesse ser feito diferente para ampliar a compreensão da equipe do Conselho a respeito disso. Fui procurada por uma deputada que tinha conhecimento de uma lei da videochamada. Tinham dois deputados que tinham feito um projeto de lei de videochamada, se eu aceitaria avaliar essas escritas para ver se elas se acoplavam naquele momento. Reescrevi o projeto de lei incluindo todas as pessoas internadas, não só para a despedida de Covid. E aí, em quatro meses, isso se tornou um projeto de lei, e aí a gente fez uma campanha nacional com a hashtag #precisodizerqueteamo. Isso foi colocado em pauta e foi votado por unanimidade na Câmara e no Senado. Quatro meses depois, era uma Lei Federal, e tem o nome Ana Cláudia Quintana”.

“Além da Escuridão”, o filme que tem uma contribuição sua. Poderia explicar um pouco disso, da tua contribuição, mas também de que forma você acha que uma obra cinematográfica pode ajudar as pessoas que vão assistir?

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“Fui procurada para fazer uma participação sobre a questão do luto, por que temos tanta dificuldade de lidar, como vai ser nossa jornada nesse processo de luto, (que) é parte da tua humanidade. Você vai passando por portais de transição na sua história como ser humano, e entre os portais mais importantes que te transformam mais, são aqueles relacionados a um processo de perda. Esse filme traz visões múltiplas. Por que a arte é tão perfeita? Porque tudo que é gravemente especialista é imperfeito.”

“A arte vem dessa inquietude, do mistério do que é a vida. Você vai dar uma cor, uma voz, um tom, um silêncio acerca daquilo que você ainda não compreende, mas fica muito mais fácil de você compreender se não for pela explicação lógica, se for pela expressão do movimento, da sensibilidade. Ele (espectador) é atingido em todas as percepções dele ao mesmo tempo. Significa que, em alguma delas, aquela pessoa vai mudar de lugar. Ela não vai conseguir mais ficar atrás da pilastra para ver a própria vida dela”.

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Por fim, poderia nos contar um pouco sobre a condução do encontro na Feevale, alguns dos tópicos abordados e a importância de tratar deste tema?

“A vida que vale a pena viver está acontecendo hoje, ela não vai acontecer no futuro. Estamos numa universidade onde todo mundo pisa no futuro; o que existe de perene talvez seja uma história comum. Trazer isso vai ser importante para que as pessoas possam ter mais segurança sobre o próprio futuro.”

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