Por que as artes marciais vêm conquistando praticantes da geração 60+
Fonte: iponews.com.br | Data: 10/10/2026 10:05:17
– Foto: Adam Crowley/Getty Images |

Diante do envelhecimento da popula��o e da busca por uma longevidade funcional, pr�ticas como aikid�, kung fu, jiu-j�tsu, tai chi e krav-mag� se consolidam como ferramentas terap�uticas e de socializa��o
G�lson Yoshioka
Aos 75 anos, a professora Fumie Nishida caminha, em seu espa�o, com a serenidade de quem parece medir o ambiente pela respira��o dos alunos. “O aikid� � a arte marcial da paz”, diz a sensei, que pratica a modalidade h� meio s�culo, no Nishida Dojo, na zona sul de S�o Paulo. O aikid� se baseia na neutraliza��o do conflito e no redirecionamento de energia para dissolver a agress�o antes que ela se concretize. Nessa luta, n�o h� vencedor – e todos aprendem.
No doj� dela, s�o v�rios os praticantes 60+, de faixas brancas iniciantes a professores faixas pretas, que treinam em turmas mistas. S�timo grau, ou “dan”, de faixa preta e uma das maiores autoridades de aikid� na Am�rica Latina, Nishida explica que essa arte marcial atrai um p�blico maduro e vai al�m da t�cnica: � um trabalho de lapida��o interna que exige precis�o e humildade, longe dos holofotes das disputas. “O ego � o maior obst�culo e, com o tempo, ele pode se tornar mais r�gido ou mais leve. O aikid� ajuda a dissolv�-lo”, diz.
O movimento observado no Nishida Dojo reflete uma tend�ncia crescente: a maior presen�a de pessoas acima de 60 anos nas academias de artes marciais. Diante do envelhecimento da popula��o e da busca por uma longevidade funcional, as artes marciais deixaram de ser exclusividade dos jovens e se consolidaram como ferramentas terap�uticas e de socializa��o para os 60+.
Essa ades�o ganha respaldo em alertas da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), que aponta as quedas como um dos maiores desafios do envelhecimento no pa�s, afetando cerca de 30% dos idosos a cada ano. � nesse cen�rio que os tatames podem atuar como aliados da sa�de p�blica e privada: alinhados �s diretrizes de envelhecimento ativo do Minist�rio da Sa�de, estudos indicam que o treino adaptado de artes marciais melhora significativamente o equil�brio din�mico e a consci�ncia corporal dos praticantes seniores.
Esse aprendizado t�cnico ajuda a diminuir o risco de acidentes e ensina o idoso a amortecer o impacto em caso de queda, al�m de estimular as fun��es cognitivas e a mem�ria por meio da execu��o dos movimentos.
Nos �ltimos anos, as academias de artes marciais tiveram um aumento consistente de alunos acima de 60 anos. Professores de aikid�, jiu-j�tsu, carat�, krav-mag� e tai chi relatam turmas mais cheias, procura maior por aulas adaptadas e um interesse crescente desse p�blico por pr�ticas que combinam sa�de, conviv�ncia e prop�sito. Embora n�o existam n�meros oficiais, todas as escolas ouvidas pela reportagem registram expans�o do grupo 60+, seja em aulas regulares, seja em turmas espec�ficas criadas para atender a essa demanda.
No Nishida Dojo, os treinos exigem n�o apenas precis�o, mas tamb�m humildade – e isso atrai um p�blico que j� n�o busca provar nada para ningu�m. � nesse ponto que a sensei costuma fazer uma distin��o importante sobre idade e risco. “�s vezes � mais perigoso para uma pessoa muito jovem. Ela pensa que pode fazer tudo e acaba se machucando ou machucando algu�m”, observa.
Nishida, que tem 1,53 metro de altura e 53 kg, refor�a que o aikid� � uma arte marcial que pode ser praticada por qualquer pessoa porque os movimentos n�o dependem da for�a bruta, e sim da paci�ncia e perseveran�a. Ela mesma, no entanto, teve de conviver com homens que se valiam mais da vantagem f�sica, o que a levou a “estudar muito mais do que os outros” em sua trajet�ria. “Sempre pesquisei para n�o usar a for�a, e sim a t�cnica”, diz.
Ela tamb�m destaca a aus�ncia da rivalidade como um diferencial. “Como n�o tem competi��o, ningu�m precisa ganhar de ningu�m”, afirma. Isso � um al�vio para quem passou a vida inteira em ambientes corporativos e competitivos.
� o caso do comerciante Armando Oliveira Pestana, de 67 anos, praticante de aikid�. Ap�s a perda da esposa, h� dois anos, ele buscou na modalidade um “prop�sito de vida”. “Na verdade, voc� n�o luta com ningu�m. Voc� harmoniza a for�a do seu oponente e deixa essa energia fluir”, conta.
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Fernando Monteiro da Silva trocou o taekwondo pelo jiu-j�tsu: “N�o tenho mais a flexibilidade de antes” – Foto: Gabriel Reis/Valor
Para muitos praticantes, as artes marciais representam uma oportunidade de descoberta tardia. Depois de anos dedicados ao trabalho e � fam�lia, eles encontram um espa�o para desenvolver aspectos f�sicos, t�cnicos e mentais que nunca haviam explorado com profundidade. O administrador Roberto Koichi Nakagome, de 61 anos, iniciou os treinos ap�s se aposentar no mercado financeiro. Como muitos de sua gera��o, dedicou d�cadas ao trabalho e � fam�lia antes de encontrar tempo para uma pr�tica regular.
“Sentia falta de usar habilidades manuais ou corporais, coisas que n�o desenvolvia no escrit�rio. Respeito muito quem quer competir, mas isso n�o � a minha prioridade hoje. Eu fa�o no meu pr�prio ritmo”, afirma.
Se o aikid� promete serenidade, modalidades tradicionalmente mais agressivas tamb�m passam por uma forte adapta��o para absorver essa demanda. No jiu-j�tsu, o professor Adriano Constantino, faixa preta sexto grau, observa uma mudan�a expressiva no perfil de seus alunos no Espa�o Dojo, no bairro Jardim Taquaral, e no Clube Paineiras, no Morumbi.
“No embalo da profissionaliza��o e da quebra de preconceitos da modalidade nos �ltimos dez anos, houve um aumento significativo do n�mero de alunos 60+ na minha rotina”, relata Constantino, que � formado em educa��o f�sica e fisioterapia.
Professor h� 31 anos, Constantino tem uma dezena alunos 60+ atualmente. Ao longo de sua carreira, foram dezenas de outros na mesma faixa et�ria, que enfrentaram o receio de n�o acompanhar, de cair e se machucar. Um de seus alunos seniores perdeu 15 quilos em 18 meses.
“O jiu-j�tsu � altamente adapt�vel e mais acess�vel que o jud� para idosos, porque a luta come�a no solo, reduzindo drasticamente o impacto f�sico das quedas”, explica.
Ele acrescenta que a evolu��o dos alunos mais velhos est� profundamente ligada ao hist�rico do desenvolvimento corporal. “Quem j� fez outras atividades f�sicas mais novo, mesmo que comece no jiu-j�tsu com 60 ou 70 anos, aprende muito mais r�pido. Antigamente, esse p�blico brincava muito mais na rua: jogava bola, pulava muro, subia em �rvore… Isso tudo reflete no jiu-j�tsu do aluno”, explica.
A migra��o de modalidades mais traum�ticas para pr�ticas de menor impacto � um padr�o comum entre os praticantes veteranos. O arquiteto Fernando Monteiro da Silva, de 64 anos, trocou o taekwondo pelo jiu-j�tsu justamente para evitar riscos maiores.
A gente foi feito para se movimentar, n�o para ficar parado no sof�”
– Sueli Venutti
“N�o tenho mais a flexibilidade de antes para dar tantos chutes elevados. J� sofri les�es quando jovem e hoje n�o participo de competi��es porque as chances de se machucar s�o muito maiores do que nos treinos”, diz.
No tatame, as prioridades de Silva tamb�m mudaram. Faixa roxa, ele n�o tem pressa de chegar � faixa marrom (uma antes da preta) e prefere concentrar sua energia na conviv�ncia e na amizade com os colegas da academia. Depois do �ltimo treino da semana, costuma se reunir com alguns deles para comer um churrasco, tomar uma cerveja e confraternizar no bar ao lado da academia.
Para outros praticantes, o principal atrativo das artes marciais est� na busca por novos desafios. � esse perfil que o professor Marcos Costa, da Cross Fight Pinheiros, encontra com frequ�ncia entre seus alunos mais velhos. H� 34 anos no mercado, o faixa preta quinto grau de carat� kyokushin argumenta que o fortalecimento f�sico � a base para a longevidade, sem deixar de lado o fator psicol�gico. “Eles j� conquistaram estabilidade na vida e, quando param de trabalhar, sentem falta de um desafio estruturado. A arte marcial preenche essa lacuna”, argumenta.
Ao longo da carreira, Costa viu esse processo se repetir diversas vezes. Um de seus alunos conquistou a faixa preta aos 74 anos, depois de quase tr�s d�cadas de treinamento. Outro, diagnosticado com Parkinson, precisou recome�ar do zero ap�s uma cirurgia, entretanto recuperou a coordena��o motora e voltou a avan�ar nas gradua��es.
Para o professor, hist�rias como essas ajudam a desmontar a percep��o de que as artes marciais s�o um ambiente exclusivo para jovens. “O que define o progresso n�o � a idade, mas a const�ncia. Quem continua treinando acaba evoluindo e pode chegar � faixa preta”, afirma.
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Fumie Nishida e Armando Oliveira Pestana: o aikid� ajuda a dissolver o ego, diz a professora – Foto: Gabriel Reis/Valor
Para garantir a integridade dos alunos seniores, t�cnicas de alto risco, como o “ashi-barai” (chute rasteiro nas pernas), s�o evitadas nos treinos. “A recupera��o �ssea e muscular nessa idade � muito mais lenta”, aponta Costa.
Em contrapartida, ele preserva rigorosamente a filosofia japonesa do “senpai-kohai” (respeito dos mais novos aos mais velhos). No tatame, a idade e a bagagem de vida contam tanto quanto a cor da faixa, garantindo que os 60+ ocupem um lugar de prest�gio e lideran�a intelectual no grupo.
A empres�ria Dinara Prestes Moreira, de 61 anos, levou o carat� muito al�m dos limites dos tatames – e das fronteiras brasileiras. Iniciou a modalidade ap�s a pandemia e, no ano passado, atuou por quatro meses como volunt�ria ensinando a modalidade para crian�as com defici�ncias visuais e auditivas em um orfanato no Vietn�.
“O meu sonho � um dia escrever um livro de carat� para crian�as especiais. Agora a minha meta �, no final do ano, ficar uns tr�s meses em T�quio, Okinawa ou Osaka, no Jap�o, para realmente aprender as t�cnicas e me aprimorar”, diz.
Influenciada pela trajet�ria do filho desde crian�a no carat�, pelos filmes de samurai e pela cultura japonesa, Moreira prefere se dedicar aos “katas” (sequ�ncias de movimento que simulam um combate) em vez do “kumite” (luta). Ap�s o in�cio na modalidade, ela notou uma melhora na concentra��o e at� em seus relacionamentos pessoais. “Sempre trabalhei muito, ent�o n�o era muito de socializar antes. Hoje sou mais paciente e receptiva com as pessoas”, conta.
A busca por seguran�a urbana tamb�m impulsiona a procura por modalidades focadas em cen�rios reais de estresse, como o krav-mag�. Na Academia Cemi, na Bela Vista, o professor Rodrigo Vergueiro Figueiredo adapta os conceitos da t�cnica israelense para a realidade da terceira idade, priorizando o autocontrole. “Se algu�m tentar roubar seus pertences, a instru��o � nunca reagir. O treino prepara para cen�rios extremos onde n�o h� outra op��o para preservar a integridade f�sica”, explica.
Segundo ele, a pr�tica trabalha dentro do princ�pio do realismo, desenvolvendo mem�ria muscular para momentos de alta tens�o e ensinando o aluno a compreender o ambiente ao seu redor. “Numa situa��o de rua, por exemplo, pode haver mais pessoas envolvidas do que aquelas que voc� v� � sua frente. Se for inevit�vel, o aluno pode executar um golpe na �rea sens�vel do agressor”, diz.
A inclus�o � tamanha que sua turma conta com um aluno octogen�rio que, ap�s ser rejeitado em outro centro esportivo por conta da idade, encontrou ali o espa�o para se desenvolver e hoje j� se prepara para o seu primeiro exame de gradua��o.
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Maria Ang�lica Reis Fran�a de Oliveira (esq.): “Fa�o [krav-mag�] para me defender dos meus medos” – Foto: Acervo pessoal
Essa busca por empoderamento tardio foi o que atraiu a dentista Maria Ang�lica Reis Fran�a de Oliveira, de 60 anos. Ignorando coment�rios desencorajadores de que seria “velha” ou “magra demais”, ela iniciou os treinos em 2021 e hoje treina cinco vezes por semana, dividindo-se entre as fun��es de aluna e monitora.
“Fa�o para me defender dos meus medos. Convivo com artrose nos punhos e sequelas de um c�ncer, mas o krav-mag� me trouxe reflexos r�pidos e autonomia. Eu j� tive problemas de ins�nia e de quedas, mas hoje tomo poucos rem�dios e n�o caio mais na rua”, afirma ela, que recentemente correu os 15 km da tradicional Corrida de S�o Silvestre.
Se o krav-mag� atende � urg�ncia das ruas, o tai chi chuan surge como o �pice da preven��o e do equil�brio interno. Na Academia de Kung Fu Zen Marcial, na Aclima��o, o professor Ye Xin comanda turmas presenciais e virtuais repletas de idosos em busca de suavidade. “Muitos fogem do ambiente de exibi��o e repeti��o mon�tona das academias de muscula��o”, afirma.
Se no kung fu ele evita acrobacias, adapta saltos e agachamentos e monitora quest�es de equil�brio, hist�rico card�aco e problemas de coluna, o tai chi, para os mais velhos, � acess�vel desde o in�cio. “� um trabalho completo, de pouco impacto e intensidade moderada. Fortalece pernas, coordena��o, respira��o e mem�ria de forma art�stica”, explica.
Xin percebe que o maior desafio para quem nunca treinou � a adapta��o f�sica: alongamento, for�a e mobilidade levam algumas semanas para responder. Por isso, recomenda turmas espec�ficas para 60+, que ajudam na motiva��o e criam v�nculos. “Eles conversam, marcam de treinar juntos e criam amizades”, relata.
A socializa��o, diz, � t�o importante quanto o movimento. “Muita gente de 70 e poucos anos fica muito tempo sozinha em casa. �s vezes cuidam de pais de 90 e se sentem pressionadas”, relata. Os efeitos aparecem r�pido, logo nos primeiros meses de pr�tica, segundo Xin.
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Dinara Prestes Moreira: “O meu sonho � um dia escrever um livro de carat� para crian�as especiais” – Foto: Acervo pessoal
Com 960 mil seguidores no Instagram e 185 mil inscritos em seu canal no YouTube, Xin aponta alguns dos ganhos com a pr�tica: melhora postural, al�vio de dores cr�nicas e est�mulo cerebral profundo, atuando diretamente como uma barreira preventiva contra doen�as neurodegenerativas como o Alzheimer.
Para a aposentada Sueli Venutti, de 72 anos, a pr�tica se tornou um divisor de �guas na gest�o do seu tempo e da sua sa�de mental. O tai chi a ensinou a n�o desperdi�ar horas com tarefas que nada lhe acrescentam. “�s vezes eu ia fazer alguma coisa que n�o era t�o interessante. Agora eu uso melhor o tempo livre para algo construtivo”, diz.
Ela descreve a arte marcial como uma medita��o em movimento, capaz de trabalhar a energia interna de uma forma que nenhuma outra atividade lhe ofereceu. Para ela, essa integra��o entre mente e corpo � o que diferencia o tai chi de pr�ticas como pilates ou muscula��o, que “focam s� nos m�sculos”.
J� com a ioga, os problemas apontados eram outros. “Eu tinha um pouco de pregui�a e falta de concentra��o. Ela exigia um tempo maior para entrar no estado mental da pr�tica, e isso me desmotivava. O tai chi, por ser fluido e imediato, me envolve desde o primeiro movimento”, explica.
Com o tempo, o tai chi deixou de ser apenas uma pr�tica e se tornou parte de sua identidade. “Eu fa�o de tudo para n�o relaxar e falar: hoje n�o vou fazer”, afirma. Ela aprendeu que a desist�ncia come�a em pequenas concess�es. “Um dia sem praticar vira dois, depois, uma semana, e quando a gente percebe, j� passou um ano”, conta.
Venutti resume o esp�rito que hoje move centenas de idosos: “Primeiro tem que perder a vergonha do novo e pensar na sa�de. A gente foi feito para se movimentar, n�o para ficar parado no sof�”.