Municípios preparam políticas públicas para pessoas idosas – Diário do Grande ABC
Fonte: dgabc.com.br | Data: 11/10/2026 09:00:00
A previsão de que o Grande ABC teria mais pessoas idosas (529.763) que crianças (455.800), de acordo com a Fundação Seade, conforme publicação do Diário em 2021, se confirmou e a projeção agora é realidade em cinco das sete cidades, com exceção de Diadema e Rio Grande da Serra. Entretanto, especialistas apontam que o poder público não se preparou para o cenário, tanto na região como em boa parte do País.
A professora de Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP (Universidade de São Paulo) Rosa Yuka Sato Chubaci diz que muitas iniciativas estão sendo tomadas, como criação de núcleos de convivência para a população idosa, grupos de incentivo à prática de atividades físicas e instituições de longa permanência. “Mas tudo isso não é suficiente ainda para o grande número de pessoas com mais de 60 anos, e a tendência é aumentar”, enfatiza.
A médica sanitarista e professora de Saúde Coletiva do Centro Universitário FMABC (Faculdade de Medicina do ABC), e ex-secretária de Saúde de Santo André (2005 – 2007), Vânia Barbosa do Nascimento, diz que espaços como Centros Dia, residências e instituições de longa permanência são essenciais para o cuidado dos idosos e precisam ser ampliados.
“Cuidar da saúde da pessoa idosa é uma forma de prevenir a sobrecarga no sistema de saúde e a família, que precisa de apoio do poder público. Não é somente para quando ficam doentes, porque muitas dessas pessoas não têm familiares próximos ou que tenham disponibilidade, já que precisam trabalhar”.
O crescimento da população idosa reflete o aumento da expectativa de vida e a queda da fecundidade. De acordo com Vânia, as pessoas têm menos filhos e vivem mais, graças ao maior acesso a medicamentos, vacinas e serviços de saúde, especialmente por meio do SUS (Sistema Único de Saúde).
O avanço da saúde e o desenvolvimento urbano contribuíram para o aumento do envelhecimento da população, mas, sem medidas para controlar a demanda, podem sobrecarregar o sistema. Em Santo André, o envelhecimento populacional é o principal fator de aumento da demanda hospitalar.
Segundo a Prefeitura, as internações de idosos em Santo André quase dobraram entre 2010 e 2024, passando de 8.500 para 16,2 mil por ano. Desse crescimento, 73% se deve ao aumento da população idosa na cidade.
“Sem mudança no modelo de cuidado, o custo adicional pode chegar a mais de R$ 100 milhões por ano em 2050, podendo atingir mais de R$ 400 milhões se a tendência recente de mais internações por idoso continuar”, informa a gestão municipal.
“A saúde municipal de Santo André está construindo uma resposta. O Projeto Santo André + Saudável, que engloba a linha de cuidado de envelhecimento e fortalecimento da Atenção Primária à Saúde na promoção da saúde”, afirma o Paço. A cidade andreense possui o Crisa (Centro de Referência do Idoso de Santo André), equipamento voltado ao estímulo da convivência, com oficinas e atividades para idosos.
São Bernardo ampliou, em 2025, o atendimento à terceira idade, antes restrita a cinco UBSs (Unidades Básicas de Saúde), para toda a rede, com profissionais especializados em saúde do idoso. “Em agosto, foi implantado o Projeto Envelhecer Bem, ampliando a identificação de idosos vulneráveis e direcionando cada paciente à atenção mais próxima no próprio território”, informa a Prefeitura.
O município conta com o Centro Dia para Pessoas Idosas, serviço de proteção social especial de média complexidade, e com a ILPI (Instituição de Longa Permanência para Idosos Grau III), primeira do País no modelo híbrido, para o atendimento de idosos com alto grau de comprometimento.
Os recursos destinados na LOA (Lei Orçamentária Anual) para assistência ao idoso cresceram e passaram de R$ 4 milhões, em 2021, para R$ 10 milhões, em 2026, aumento de 155%. As ações estão incorporadas ao planejamento municipal, incluindo o Plano Municipal de Saúde e o PPA 2026–2029, que consideram o envelhecimento populacional na definição das políticas públicas.
Em São Caetano, os atendimentos de saúde refletem essa tendência. Entre 2024 e 2025, os registros caíram de 167.133 para 163.212 entre pacientes de até 18 anos, enquanto, na população acima dos 60, aumentaram de 341.683 para 360.954.
Entre as iniciativas do município está a criação da UniMAIS (Universidade Aberta da Terceira Idade), atualmente com 250 alunos. Na educação, há cursos de idiomas e inclusão digital nos sete CISEs (Centros Integrados de Saúde e Educação da Terceira Idade).
Diadema ainda não atingiu a inversão demográfica. Porém, o envelhecimento já exige adaptação da rede. “O município vem se preparando com a ampliação do Viva + Diadema, fortalecimento da atenção domiciliar, acesso ampliado nas UBSs, bem como atividades de outras secretarias que estão sendo planejadas para os próximos anos.”
Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra não detalharam seus planos de atendimento à população idosa.
SÉRIE
Esta é a primeira reportagem da série Grande ABC 60+, que aborda os desafios e as transformações do envelhecimento populacional. Ao todo, serão quatro matérias, publicadas aos domingos.
A terceira idade ainda pode contribuir para a sociedade
O debate sobre soluções para lidar com o crescimento da população idosa não pode ser confundido com a ideia de que este seja um problema, conforme destaca a enfermeira e coordenadora da gerontologia do Centro Universitário da FMABC (Faculdade de Medicina do ABC), Ana Paula Guarnieri.
“As políticas públicas para a população idosa são, muitas vezes, vistas como assistencialismo. Entretanto, envelhecer é um presente da vida, e essas pessoas têm muito a contribuir com a sociedade, com sua experiência. Mas o preconceito segrega esses cidadãos e os desestimula a desenvolverem seus potenciais”, ressalta.
“O envelhecimento não precisa vir acompanhado de falta de saúde, não deveria ser assim, não é normal ter diabetes, colesterol e falta de mobilidade”, acrescenta.
A professora aposentada Sawako Tohi, 91 anos, construiu um estilo de vida baseado na cultura japonesa e colhe atualmente os frutos deste autocuidado. A moradora de São Caetano é voluntária em projeto da Prefeitura, desenvolvido há um mês, que promove visitas a Casas de Longa Permanência. Na última segunda-feira (5), a iniciativa ocorreu no Grupo Luz, no bairro Barcelona.
“Visito idosos com mais idade que eu, mas que não estão bem de saúde, por isso decidi. Conversamos porque eles são muito sozinhos e não têm com quem falar. Ouvir é muito importante. A atividade faz bem tanto para quem recebe quanto para quem se doa, me sinto muito gratificada”, define.
Sawako ressalta a importância de estimular pessoas idosas a serem produtivas, mesmo diante das limitações físicas e até cognitivas. “As famílias, para pouparem o idoso, com medo de ele se machucar, acabam não nos deixando fazer nada e nos sentimos sem utilidade. É importante deixar cozinhar, por exemplo, mesmo que queime a comida. Quem se acomoda e não se movimenta adoece, mas as pessoas têm esse pensamento de que não devemos fazer nada”, salienta.
A coordenadora da Comtid (Coordenadoria Municipal da Terceira Idade) de São Caetano, Lucila Lorenzini, destaca a importância da população mais velha na sociedade. “As pessoas estão envelhecendo com saúde e continuam produtivas. Não é porque envelheceram que não podem mais fazer trabalhos e estão impotentes. Pelo contrário, muitos ainda sustentam suas casas”, justifica. <TL>
Investimento na prevenção evita sobrecarga na saúde
Para os especialistas, a prevenção é fundamental a fim de evitar a sobrecarga do sistema de saúde diante do envelhecimento populacional. Investir em qualidade de vida vai além da prática de atividades físicas e da alimentação saudável: manter a mente ativa e cultivar relações sociais também são essenciais.

São Caetano, além dos sete Cises (Centros Integrados de Saúde e Educação da Terceira Idade), que oferecem 18 modalidades esportivas, oficinas e outras atividades para cerca de 11 mil idosos, possui a UniMAIS (Universidade Aberta da Terceira Idade).
O programa público e gratuito oferecido pela Prefeitura em parceria com a USCS (Universidade Municipal de São Caetano) promove a convivência e o aprendizado de pessoas idosas. A coordenadora da Comtid (Coordenadoria Municipal da Terceira Idade) de São Caetano, Lucila Lorenzini, acrescenta a importância da convivência, inclusive de intergerações, para um envelhecimento saudável.
“Fazemos, por meio do programa Conectando Gerações, atividades entre crianças e adolescentes e pessoas idosas. Os alunos da UniMAIS vão às escolas promover uma troca. Isso é importante porque essa população tem muitas experiências que precisam ser realmente aproveitadas.”
A médica sanitarista e professora de Saúde Coletiva do Centro Universitário FMABC (Faculdade de Medicina do ABC), Vânia Barbosa do Nascimento, ressalta que as relações sociais são fundamentais para um envelhecimento saudável, inclusive nas relações entre gerações.
“As pessoas idosas, se viverem apenas em grupos de sua faixa etária, acabam perdendo sua convivência social porque muitos perdem a vida no caminho. É importante reforçar amizades e criar vínculos com jovens e ter uma rede de apoio diversa”, explica.
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