Mostra de São Paulo vê o seu passado e abre-se ao mundo
Fonte: correiodopovo.com.br | Data: 11/10/2026 17:19:48
Chegar aos 50 anos como uma das mais importantes vitrines do cinema mundial é motivo suficiente para comemorar. A Mostra Internacional de Cinema em São Paulo chega à sua edição histórica, de 15 a 29 de outubro, com vocação de olhar para trás e abrir as portas para o mundo. São 380 títulos de 93 países, entre longas, curtas e séries, ocupando 57 salas, espaços culturais e CEUs da capital paulista. Cinco décadas significam memória e movimento.
A abertura, para convidados, acontece nesta quarta-feira, dia 14, na Sala São Paulo, com “Tigre de Papel”, de James Gray, exibido na competição de Cannes. O diretor norte-americano estará presente e, numa escolha que reforça o diálogo internacional da Mostra, também assina a arte do cartaz desta 50ª edição. Antes do longa, o público convidado verá “Sul de Teerã”, curta de Kleber Mendonça Filho, que também participa do evento. Fica explícito nestas escolhas que a mostra não reconhece fronteiras, mas reconhece autores.
E, se a abertura aponta para Cannes, a programação inteira parece desenhar um mapa impossível de resumir. Há Palma de Ouro, Leão de Ouro, Leão de Prata, filmes de cineastas consagrados e obras de realizadores que ainda estão construindo seu espaço. “Fjord”, de Cristian Mungiu, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, divide espaço com “Mulher Desconhecida”, de May el-Toukhy, premiado com o Leão de Ouro em Veneza, e “Amor Possível”, de Lee Chang-dong, vencedor do Grande Prêmio do Júri no mesmo festival. O indiano S.S. Rajamouli apresenta “RRR: Revolta, Rebelião, Revolução”, o iraniano Ali Asgari chega com “Um Pouco de Esperança”, Boots Riley apresenta “I Love Boosters”, e o sul-coreano Lee Chang-dong amplia o horizonte de uma programação que não parece interessada em escolher entre o popular, o autoral e o experimental.
É justamente essa variedade que faz da mostra uma espécie de atlas cinematográfico. Há ficção científica, documentário, animação, cinema político, filmes sobre música, memória, deslocamentos, guerras, identidade e relações humanas. Há até uma seleção de cinco curtas financiados pelo Displacement Film Fund, iniciativa associada à atriz Cate Blanchett e ao Fundo Hubert Bals, reunindo cineastas refugiados ou interessados em abordar experiências de deslocamento.
Mas há uma coincidência especialmente saborosa para quem acompanha o cinema brasileiro e o Festival de Cinema de Gramado. “Feito Pipa”, de Allan Deberton, está entre os filmes da mostra que integram a corrida ao Oscar de Melhor Filme Internacional. O longa, que estreou em Gramado e saiu do festival como um dos grandes destaques da edição, agora encontra em São Paulo uma vitrine internacional ainda maior. É um lembrete de que os festivais não existem isoladamente. Uma obra pode nascer em uma tela, ganhar força em outra e continuar voando.
E há outros títulos brasileiros que já passaram pelo palco gramadense, reafirmando essa ponte entre os grandes festivais nacionais. A presença de “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, de André Novais Oliveira, é outro exemplo de um cinema brasileiro que circula, se transforma e encontra novas plateias. A mostra também apresenta produções como “A Margem do Rio”, “Funk” e “Vicentina Pede Desculpas”, ampliando o retrato de um país que não cabe em uma única narrativa.
A celebração dos 50 anos também olha para trás, sem transformar o passado em peça de museu. O novo acervo reúne informações sobre mais de 12 mil filmes exibidos ao longo da história da Mostra. Há exposições, livros, retrospectivas e restaurações, entre elas “Vento Norte”, de Salomão Scliar, “Lá e Cá”, de Sandra Kogut, e “Janela da Alma”, de João Jardim e Walter Carvalho. Memória, aqui, não é nostalgia, é ferramenta para entender de onde veio o cinema e para onde ele pode ir.