Médico acusado por Netinho de receitar anabolizantes já foi alvo de processo no Cremesp e não tem especialidade registrada no Conselho Federal de Medicina
Fonte: correio24horas.com.br | Data: 13/10/2026 13:04:48
Mohamad Barakat, que não possui especialidade registrada no CFM, foi investigado após reportagem sobre prescrição de hormônios; profissional também contestou acusações feitas pelo cantor
-
Fernanda Varela
Publicado em 13 de outubro de 2026 às 13:00

A morte do cantor Netinho, nesta terça-feira (13), aos 60 anos, trouxe novamente à tona uma polêmica envolvendo o médico Mohamad Ali Barakat, conhecido como Dr. Barakat. Em 2016, o artista acusou o profissional de ter prescrito e vendido anabolizantes e hormônios antes da grave crise de saúde que enfrentou em 2013. O médico contestou a associação entre o tratamento e as complicações sofridas pelo cantor.
Barakat também esteve no centro de outra controvérsia. Em abril de 2016, a revista Veja São Paulo revelou que ele era alvo de um processo ético-disciplinar no Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), aberto após uma investigação jornalística sobre a prescrição de anabolizantes e hormônios para fins estéticos.
Outro detalhe chama atenção em sua trajetória profissional. Embora publicações sobre sua carreira mencionem formação em oftalmologia e estudos relacionados à endocrinologia, metabologia e antienvelhecimento, Barakat aparece no cadastro do Conselho Federal de Medicina (CFM) como médico sem especialidade registrada.

A consulta ao registro CRM-SP 68874, realizada em outubro de 2026, mostra que sua situação profissional é regular. O cadastro informa que ele se formou em Medicina pela Faculdade de Medicina do ABC, em 1990, e obteve sua primeira inscrição em abril de 1991.
A ausência de especialidade registrada não significa que Barakat não seja médico ou que esteja impedido de exercer a profissão. Indica que não consta uma qualificação de especialista registrada no cadastro consultado.
Netinho fala sobre anabolizantes em rede social por Reprodução/Facebook
Quem é Mohamad Barakat?
Nascido no Líbano e naturalizado brasileiro, segundo informações biográficas publicadas sobre sua trajetória, Mohamad Barakat chegou ao Brasil ainda criança.
O médico é fundador do Instituto Dr. Barakat de Medicina Integrativa e afirma atuar há mais de três décadas na área da saúde. Em seu perfil profissional no LinkedIn, apresenta uma abordagem baseada em quatro pilares: alimentação e saúde intestinal, exercícios físicos, qualidade do sono e controle do estresse, além do equilíbrio entre corpo, mente e espírito.
Barakat também ficou conhecido por defender o conceito de “comida de verdade”, incentivando o consumo de alimentos menos processados e a redução de produtos industrializados.
Publicações sobre sua carreira o apresentam como profissional com formação em oftalmologia e estudos complementares relacionados aos hormônios e ao metabolismo. Entretanto, essas informações não equivalem necessariamente ao reconhecimento de uma especialidade médica pelo CFM.
Investigação jornalística levou a processo no Cremesp
Antes mesmo de ser identificado publicamente nas acusações de Netinho, Barakat havia sido citado em uma investigação da revista Veja São Paulo sobre médicos que prescreviam anabolizantes e hormônios para pessoas interessadas em mudanças físicas rápidas.
Na reportagem publicada em 2013, um jornalista se apresentou como paciente e procurou o consultório do médico, localizado na Avenida Brasil, em São Paulo.
Segundo a publicação, após aproximadamente 30 minutos de atendimento, Barakat indicou quatro medicamentos hormonais, incluindo GH, conhecido como hormônio do crescimento. A revista relatou que o produto poderia ser aplicado no próprio estabelecimento por uma enfermeira.
A investigação jornalística motivou a abertura de uma sindicância no Cremesp. Em 2016, o procedimento havia evoluído para um processo ético-disciplinar contra Barakat e outros dois profissionais da capital paulista.
Na época, a revista explicou que os processos poderiam resultar em sanções, incluindo a cassação do registro profissional em caso de condenação.
A abertura do procedimento, porém, não significa que o médico tenha sido condenado. A reportagem de abril de 2016 não apresentou um desfecho definitivo do caso, e não há, nas informações reunidas para esta matéria, confirmação sobre o resultado posterior.
Na consulta ao CFM realizada em outubro de 2026, Barakat aparece com registro profissional regular.
As acusações de Netinho
A controvérsia envolvendo o cantor ganhou força depois da grave internação de 2013. Netinho apresentou problemas abdominais e alterações no fígado, sofreu uma hemorragia e enfrentou complicações que colocaram sua vida em risco.
Após a recuperação, passou a falar publicamente sobre o uso de anabolizantes e hormônios durante um tratamento realizado antes de adoecer.
Em julho de 2016, Netinho identificou Mohamad Barakat como o médico responsável pelo acompanhamento. Segundo o artista, o profissional havia prescrito e vendido anabolizantes, insulina, hormônios e suplementos.
As acusações foram divulgadas em uma reportagem da Veja São Paulo. O cantor afirmou que havia procurado tratamento hormonal e que confiou nas orientações recebidas. Também declarou possuir receitas, exames e outros documentos relacionados ao atendimento.
Netinho associava o uso das substâncias às complicações de saúde que enfrentou posteriormente. Essa relação, entretanto, não pode ser considerada comprovada apenas com base nas declarações do artista.
O que disse Mohamad Barakat?
Barakat contestou a associação entre o tratamento realizado e os problemas de saúde enfrentados por Netinho em 2013.
Em resposta às acusações divulgadas em 2016, o médico confirmou que havia atendido o cantor anteriormente, mas destacou que existia um intervalo de anos entre o acompanhamento e a internação.
A divergência estava justamente na responsabilidade pelo quadro clínico. Enquanto Netinho questionava as prescrições recebidas, Barakat rejeitava a relação estabelecida pelo artista entre seu atendimento e as complicações posteriores.
É importante distinguir as acusações públicas de uma conclusão médica ou judicial. A existência de prescrições hormonais não comprova, isoladamente, que elas tenham provocado todos os problemas enfrentados pelo cantor. Da mesma forma, a abertura de um processo ético-disciplinar não representa uma condenação.
Netinho morreu nesta terça-feira (13), aos 60 anos, após enfrentar um linfoma não Hodgkin do tipo B, diagnosticado em 2025. Segundo sua equipe, a doença evoluiu para falência renal e disfunção múltipla de órgãos.
