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‘Gatos’ se espalham por serviços públicos essenciais

Fonte: oglobo.globo.com | Data: 14/10/2026 04:16:14

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Fraudes atingem água, luz, internet e gás de cozinha. Somente na eletricidade, a perda chegou ao maior patamar em 15 anos

Ligações clandestinas de energia são retiradas em poste perto da Central do Brasil, no Centro do Rio
Ligações clandestinas de energia são retiradas em poste perto da Central do Brasil, no Centro do Rio — Foto: Gabriel de Paiva/Agência O Globo

A pirataria no setor de serviços essenciais — como água, luz, internet e gás de cozinha (GLP) — atingiu um patamar no Brasil que impõe ao Estado o desafio de recuperar espaços nos quais o crime organizado exerce controle econômico e territorial.

As perdas de energia — consumida, mas não faturada por causa de furtos, fraudes em medidores, erros de leitura e falhas no faturamento — em 2025 atingiram o maior patamar dos últimos 15 anos: 45 terawatts-hora (TWh), correspondendo a 7,1% de toda a energia injetada no sistema ao longo do ano. Isso é suficiente para suprir o consumo nacional de eletricidade por quase um mês, segundo Ricardo Brandão, diretor de regulação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

O custo estimado com o desvio de energia chegou a R$ 11,5 bilhões. Desse total, R$ 7,9 bilhões são repassados ao consumidor, o que representou impacto de 3,1% na conta de luz:

—O restante foi absorvido pelas distribuidoras.

Mas o impacto não é apenas financeiro. No ano passado, foram registradas 650 mil interrupções no fornecimento de energia associadas ao crime de furto, com duração média de cinco horas, que afetaram mais de 3 milhões de consumidores. Além disso, as ligações clandestinas e fraudes podem sobrecarregar a rede, provocar danos à infraestrutura e comprometer a qualidade e a continuidade do abastecimento.

— O problema dos gatos deixou de ser pontual para assumir uma dimensão estrutural — diz Brandão.

O setor de gás de cozinha lida com duas modalidades de comércio ilegal: pontos de venda não autorizados pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustível (ANP) e as vendas em regiões dominadas pelo crime organizado.

No primeiro caso, há riscos para os consumidores e a vizinhança por causa da precariedade das condições de armazenamento de botijões, enquanto no segundo ocorre o monopólio de fornecimento a preços de duas a três vezes maiores do que os de outros estabelecimentos localizados em regiões próximas.

As empresas legalizadas não podem oferecer produtos em mercados onde o crime organizado impôs outra marca, afirma Sérgio Bandeira de Mello, presidente do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo (Sindigás):

— Como os botijões têm cores diferentes nas embalagens, é comum que os criminosos escolham uma cor para impedir que os consumidores comprem de outros locais.

As vendas no mercado legal chegaram a 7,7 milhões de toneladas de GLP em 2025, com faturamento superior a R$ 43 bilhões e o recolhimento de R$ 11 bilhões em impostos.

Os dados relativos ao setor de internet apontam a existência de 4,7 milhões de conexões fixas “invisíveis”, que não aparecem nos registros oficiais da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), com receita anual estimada entre R$ 4,9 bilhões e R$ 5,3 bilhões.

— Esse valor, contudo, não pode ser interpretado como prejuízo direto dos provedores regulares, pois nem todos os acessos classificados como ‘invisíveis’ pertencem a operadores clandestinos — esclarece Breno Vale, presidente da Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações (Abrint).

Proteção de dados

Alves explica que as empresas regulares estão submetidas às regras da Anatel relativas a atendimento, transparência, qualidade, ressarcimento por interrupções, proteção de dados e demais direitos dos usuários. A fiscalização e a efetivação dessas garantias ficam mais difíceis no mercado informal.

A área de saneamento também tem problemas. O índice de perda de água é de 39% da produção, considerando os dois tipos perdas: a física (vazamentos) e aparente (ligações clandestinas, fraudes e falhas de medição). Essa última representou um prejuízo de R$ 3,6 bilhões em 2024.

—É muito dinheiro indo para o ralo — constata Christianne Dias Ferreira, diretora-presidente da Associação Brasileira das Empresas de Saneamento (Abcon).

*Do Valor

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