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“Sabia que esse personagem tinha que ser meu”: José Loreto sonhava viver Chorão há oito anos

Fonte: gq.globo.com | Data: 18/10/2026 18:47:43

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Premiado por interpretar o vocalista do Charlie Brown Jr., ator apresenta cinebiografia na Mostra de SP

José Loreto vive Chorão em cinebiografa
José Loreto vive Chorão em cinebiografa — Foto: Amanda Lavorato

Enquanto se preparava para interpretar o músico Chorão no cinema, o ator José Loreto, 42, passou a frequentar os parques Villa-Lobos e Ibirapuera, em São Paulo, para andar de skate. A notícia de que viveria o vocalista do Charlie Brown Jr., morto em março de 2013, aos 42 anos, já havia se espalhado, e o ator começou a perceber a curiosidade de quem compartilhava as pistas com ele. “Os skatistas tudo me olhando como se tivesse vendo uma alma viva”, recorda Loreto, que desejava interpretar o músico havia oito anos. Neste domingo (18), o resultado dessa preparação chega à 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, com a exibição de Se Não Eu, Quem Vai Fazer Você Feliz?, filme que lhe rendeu o Kikito de Melhor Ator no Festival de Gramado, em agosto.

Com exibição no CineSesc, o longa, dirigido por Felipe Novaes e Hugo Prata, acompanha a trajetória de Chorão, incluindo sua relação com a esposa Graziela Gonçalves, o skate e a música. Loreto conta que está ansioso para rever o filme, desta vez com mais tranquilidade do que na primeira exibição, em Gramado. “Fiquei com um hiperfoco em cenas de preocupação. Ai, meu Deus, como é que ficou e tal. Agora, mais relaxado e sentirei a vibração dessa plateia paulistana”.

José Loreto vive Chorão em cinebiografa — Foto: Amanda Lavorato
José Loreto vive Chorão em cinebiografa — Foto: Amanda Lavorato

Em entrevista à GQ Brasil, o ator conta que, mergulhou na rotina do personagem. Além do skate, passou a tocar violão, ouvir as músicas do Charlie Brown Jr. e buscar pessoas com histórias sobre o cantor. A preparação incluiu o acompanhamento de Fátima Toledo, a orientação dos diretores e um trabalho musical com Felipe Abib. “Vivia acordando e dormindo e passeando o dia inteiro como Chorão por muito tempo”, lembra. “Andando de skate, tocando violão, ouvindo o som, me informando e falando com todas as pessoas que sabiam alguma coisa dele”, conta.

O músico interpretado pelo ator — Foto: Reprodução
O músico interpretado pelo ator — Foto: Reprodução

Segundo Loreto, a pesquisa revelou aspectos da vida pessoal do cantor que ele desconhecia, sobretudo experiências relacionadas a perdas familiares. “Descobri dores que não imaginava. Acho que ninguém imagina que vão poder ter essa empatia para com ele a partir do filme”, comenta. Loreto menciona a separação dos pais, doenças na família e mortes de pessoas próximas como parte das experiências que buscou compreender durante a construção do personagem.

A intensidade de Chorão também representou um desafio para o ator, que procurou ir além da reprodução de gestos e trejeitos conhecidos do público. Para isso, diz ter recorrido às próprias experiências pessoais para estabelecer conexões emocionais. “Não tentava imitar. Esquecia que era um personagem real enquanto tava filmando, sabe? Estava fazendo o meu Chorão”, diz. Coincidentemente, por eu ter bebido tanto da fonte, fiquei muito parecido”.

José Loreto vive Chorão em cinebiografia — Foto: Amanda Lavorato
José Loreto vive Chorão em cinebiografia — Foto: Amanda Lavorato

A dedicação foi reconhecida no 54º Festival de Cinema de Gramado, em agosto deste ano, quando Loreto dividiu o Kikito de Melhor Ator com Christian Malheiros, premiado por Justino – Nos Bastidores do Reino. Na ocasião, a cinebiografia foi apresentada com o título Chorão: Só os Loucos Sabem. Loreto afirma que o reconhecimento ainda é difícil de assimilar. Mais do que a premiação, ele destaca a reação do público durante a sessão, marcada, segundo seu relato, por momentos de emoção, lágrimas e pessoas cantando.

Para ele, o prêmio representou uma confirmação de que havia seguido o caminho certo ao insistir em um personagem que desejava interpretar havia anos. “É confiar na sua intuição. Sabia que esse personagem tinha que ser meu há muitos anos”, comenta. “Há oito anos já tava apontando de querer fazer ele”, emenda. A expectativa agora é pela recepção em São Paulo, cidade que, ao lado de Santos, fez parte da trajetória do vocalista. Loreto afirma que a procura pelos ingressos reforça a dimensão do interesse pela história de Chorão.

José Loreto vive Chorão em cinebiografa — Foto: Amanda Lavorato
José Loreto vive Chorão em cinebiografa — Foto: Amanda Lavorato

Novela das 9

A estreia na Mostra acontece em um período de intensa atividade profissional para Loreto. Além do trabalho no cinema, o ator está no ar na novela das nove, Quem Ama Cuida, da TV Globo, em que interpreta Iuri, segurança da vilã Pilar, vivida por Isabel Teixeira. O personagem, que se apresenta como aliado de Pilar enquanto atua como informante, tem provocado reações do público. Loreto conta que é frequentemente abordado nas ruas por espectadores interessados nos desdobramentos da trama, especialmente na relação entre Iuri e a vilã.

O ator vive Iuri em quem "Ama Ama Cuida" — Foto: Reprodução
O ator vive Iuri em quem “Ama Ama Cuida” — Foto: Reprodução

Segundo ele, parte dos comentários vem de espectadores que admiram Pilar, mas alertam Iuri sobre as intenções da personagem. “É muito engraçado como eles torcem pra vilã e torcem distorcendo, né? Eles amam o trabalho da Isabel Teixeira, da Pilar, e falam: ‘Ah, não dá mole pra aquela mulher’”. Loreto destaca a complexidade de interpretar um personagem que precisa assumir comportamentos diferentes diante das pessoas com quem convive na história. “Uma pessoa dentro da outra. Finge ser uma coisa pra Pilar, um falastrão, mas ele é um outro cara, um informante”, observa Complexo e delicioso”.

A rotina de gravações também contrasta com o processo de preparação para o cinema. Enquanto o trabalho como Chorão exigiu um mergulho prolongado na história de uma pessoa real, na televisão o ator acompanha o desenvolvimento de uma narrativa que chega ao público pouco tempo depois de ser gravada. “Nunca me senti tão preparado pra poder surfar essa onda do Iuri. Não é fácil”, resume.

José Loreto vive Chorão em cinebiografa — Foto: Amanda Lavorato
José Loreto vive Chorão em cinebiografa — Foto: Amanda Lavorato

Atuação premiada

O reconhecimento profissional também chegou pelo teatro. Loreto está entre os indicados ao Prêmio Bibi Ferreira de 2026 na categoria Melhor Ator em Musicais, pela interpretação de Max Overseas em Ópera do Malandro, espetáculo de Chico Buarque dirigido por Jorge Farjalla. A indicação foi anunciada em setembro.

O ator conta que nunca havia protagonizado um musical profissionalmente e que, durante muito tempo, não imaginou seguir por esse caminho. A relação com a obra, no entanto, começou ainda na formação como ator, quando estudou a Ópera dos Três Vinténs, peça do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, com músicas do compositor alemão Kurt Weill. Estreada em Berlim, em 1928, a montagem serviu de inspiração para Ópera do Malandro, musical de Chico Buarque, lançado nos palcos brasileiros em 1978. “Jamais faria um musical, a não ser que fosse a Ópera do Malandro”.

José Loreto vive Chorão em cinebiografia — Foto: Amanda Lavorato
José Loreto vive Chorão em cinebiografia — Foto: Amanda Lavorato

Loreto diz que encontrou na montagem uma oportunidade de trabalhar com canções que já faziam parte de suas referências pessoais. Para ele, a obra de Chico Buarque se diferencia por combinar música e dramaturgia, dando espaço a cenas de humor, reflexão e emoção. “O Chico escreve histórias musicadas, né? São situações de dores e amor”, cita.

O ator conta que recebeu apoio do elenco e da equipe para desenvolver as habilidades necessárias e encontrar sua própria interpretação do personagem. “Me joguei. Fui ousado, entrei num time que sabe fazer isso há muito tempo. Procurei evoluir o mais rápido possível”, relata. “Foi um marco na minha carreira fazer essa peça, absolutamente”.

Ao olhar para a sequência de projetos, Loreto identifica um período de maior segurança profissional. Para ele, a experiência acumulada tornou possível aceitar personagens e produções que antes poderiam intimidá-lo. “É o ano da maturidade. Isso traz a colheita de quem plantou instintivamente coisas legais”, pontua. “Seguro de que posso mais. Ter personagens mais complexos, obras que antigamente me intimidaram. Tenho prazer em fazer algo que me provoque um desconforto”.

José Loreto vive Chorão em cinebiografia — Foto: Amanda Lavorato
José Loreto vive Chorão em cinebiografia — Foto: Amanda Lavorato

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