Baixar Notícia
WhatsApp
Email

NICOLAU D’AUTRECOURT

Fonte: teologiacatolica.com.br | Data: 21/10/2026 15:46:50

🔗 Ler matéria original

NICOLAU D’AUTRECOURT, cujo nome é escrito diversamente Nicolas, Nicholaus, de Altricuria, Aurituria, Autricort, Autricuria, Ulricuria, — mestre parisiense do século XIV.

I. O problema de Nicolau d’Autrecourt. II. A polêmica contra Bernardo de Arezzo e a cédula Ve michi. III. O tratado: Exigit ordo. IV. Paradoxos lógicos e morais.

— O problema de Nicolau d’Autrecourt. I. 1° Elementos biográficos. Nicolau nasceu em Autrecourt, diocese de Verdun. J. Lappe, Nicolas von Autrecourt. sein Leben, seine Philosophie, seine Schriften, em Beiträge zur Geschichte der Philosophie des Mittelalters, t. VI, fasc. 2, 1908, p. 31*, l. 1 (indicado abaixo por L.). Estudante na Universidade de Paris, hóspede da Sorbonne entre 1320 e 1327, L., p. 1, n. 2, eis os graus que adquire: Magister in artibus, baccalarius et licenciatus in theologia et in legibus. Ibid., n. 3. Em 4 de março de 1338, recebe uma prebenda na catedral de Metz, ibid., n. 6, onde se torna deão do cabido em 6 de agosto de 1350. — L., p. 3.

2° Sua condenação. Nesse meio tempo (1346), Nicolau incorre na condenação que salvará seu nome do esquecimento. Já em 21 de novembro de 1340, Benedito XII pede ao bispo de Paris que envie a Avinhão, no prazo de um mês, Nicolau d’Autrecourt, entre outros, chamados a responder diante do papa por seu ensino. Após a morte de Benedito XII (25 de abril de 1342), seu sucessor Clemente VI (eleito em 19 de maio de 1342) retoma o caso, que nos é conhecido pela Discussio et reprobatio errorum magistri Nicolai…, publicada por Denifle, Chartularium universitatis Parisiensis, t. II a, Paris, 1891, n. 1124, e depois por Lappe. L., p. 31* sq.

À análise, esse documento apresenta primeiramente: 1. Uma prima cedula, que a Discussio depois designa por seu incipit, cedula « Ve michi », L., p. 36*, l. 31: dirigindo-se a Clemente VI, Nicolau se declara pronto a reprovar 32 proposições, das quais 27 são expressamente tomadas das cartas escritas por ele contra Bernardo de Arezzo, O. F. M.; 2. No texto seguinte, alia cedula, L., p. 35*, l. 10-33, Nicolau explica, a pedido de teólogos, qual motivo o inspirou em suas cartas contra Bernardo; 3. Na discussio, L., p. 35*, l. 34-p. 42*, l. 18, e na reprobatio, L., p. 42*, l. 19 sq., o cardeal Guilherme Curti, a quem o caso foi confiado, toma a palavra; a discussio retoma a cedula « Ve michi », L., p. 36*, l. 27 e p. 42*, l. 17, e nos traz dois grupos de proposições novas, primeiro 4 proposições confessadas por Nicolau, L., p. 36*, l. 32 sq., seguidas de 19 artigos, quorum aliquos simpliciter, et aliquos sub forma qua ponuntur se dixisse negavit, L., p. 37*, l. 17-19, cuja enumeração termina assim: omnes predicti articuli extracti fuerunt de libello qui incipit: Exigit, etc., L., p. 41*, l. 13-14; a seguir secuntur articuli missi de Parisius, artigos em número de 10, L., p. 41*, l. 15 sq. 4. O final do documento é ocupado pela reprobatio errorum; os escritos de Nicolau serão queimados em Paris, enquanto ele desaprovará sua doutrina, tudo isso publicamente; é destituído do grau de mestre em artes, declarado inapto ao magistério em teologia.

Denifle faz começar a discussão dos erros na cúria antes de 19 de junho de 1342; data a condenação de 1346, antes de 19 de maio, e o desaprovo solene de 25 de novembro de 1347. L., p. 46*, p. 47*, n. 15 e 25. Ele contesta que Nicolau, durante a discussão de seus erros, tenha fugido para junto de Luís da Baviera, L., p. 48*: ponto de vista que Lappe rejeita, p. 3*, mas que confirma Hofer, Studien über Wilhelm von Ockham, em Archivum franciscanum historicum, 1913, t. VI, p. 664-669.

3° Sua obra. A Discussio et reprobatio errorum doctrinale de Nicolau atesta ao menos a atividade: ensino na Faculdade de Artes, L., p. 42*, l. 10, comentário das Sentenças, livro I, L., p. 31*, l. 11-12, nove cartas contra Bernardo de Arezzo, teólogo da ordem dos menores, L., p. 35*, l. 13-15, um tratado que começa Exigit ordo execucionis, L., p. 41*, l. 13-14, p. 43*, l. 7-8, um comentário sobre a Política de Aristóteles e questões sobre o justo e o injusto. L., p. 40*, l. 20-30. Deixamos de lado as referências a sermões ou disputas.

De tudo isso, possuímos apenas: 1. A primeira carta a Bernardo de Arezzo; outra, que é a segunda, cf. prima cedula, L., p. 31*, l. 11-14, p. 32*, l. 1-11, às quais é preciso juntar a carta a Nicolau de um certo Gilles, que interveio na controvérsia depois dessas duas últimas cartas, e fragmentos da resposta de Nicolau a Gilles — tudo editado por Lappe, p. 2*-30*; 2. Um manuscrito do tratado Exigit ordo execusionis, Oxford, bibl. Bodleiana, Can. Misc., 43, fol. 1 r°-24 v° (= Bodl.); devemos a comunicação de uma fotografia desse texto capital à gentileza de Mons. Pelzer, scrittore da Vaticana, que a havia recebido de Oxford, a seu pedido, em dezembro de 1922.

Lappe menciona ainda, p. 4, depois de Denifle, uma questão inédita, Bibl. nat., lat. 6559, fol. 191: Questio de qua respondit Magister N. de Ultricuria, Utrum visio creature rationalis beatificabilis per Verbum possit intendi naturaliter. Reservamos a edição e o estudo dessa questão para um trabalho posterior. — Lappe atribui enfim a João de Mirecourt uma nota sobre a doutrina de Nicolau, tocante à causalidade, L., p. 4, n. 8, que se lê nos manuscritos Bibl. nat., lat. 16408, fol. 83 r°, e 16409, fol. 135 r°.

Essa nota, anterior a 1364 (Hauréau, Notice sur le n° 16409 des mss. lat. de la B. N., em Notices et extraits des mss. de la B. N. et autres bibliothèques, t. XXXIV b, Paris, 1895, p. 5 [319]), faz parte de um conjunto de dificuldades escolares, assim designado numa tábua do ms. 16408, fol. 123: multa collecta pro quolibetis suis, e os dois manuscritos trazem, sob o título: alique rationes difficiles hic colliguntur, ms. 16408, fol. 78 v°; ms. 16409, fol. 126 v°.

Após a questão: Utrum divina voluntas sit nostrae actionis regula directiva, fol. 82 r° e fol. 132 v°, aparece, sob o título: pro quolibetis, e mais abaixo, fol. 83 r°, e 134 v°, uma série de teses, entre as quais: unde quod nulla demonstratio seu inquisitio de effectibus, quibuscumque proveniunt, vel causis naturalibus, quos vel quales effectus producunt vel producent, est aliquo modo evidens sive certa: hoc satis deducit Autricort, et oppositum dicere esset divine libertati contradicere.

A conclusão liga a tese de Nicolau à afirmação da liberdade divina, que, segundo uma tese precedente, determina toda causalidade: causas ad suos effectus non determinat necessario et posset sic aliter determinare. Outra tese afirma: quod non est insistendum humanis inquisitionibus… quibus placuit vanitati philosophorum insistere. Não é inútil notar a que temas, para seus contemporâneos ou seus sucessores imediatos, se referiam as teses de Nicolau sobre a causalidade.

4° Questões de história doutrinal. O problema de Nicolau d’Autrecourt é, antes de tudo, para o historiador, devolver seu sentido às proposições condenadas em 1346, artigos separados, muitas vezes obscuros, paradoxais, por vezes até ininteligíveis. L., p. 5, n. 1. É preciso que uma unidade de pensamento apareça ali de novo, e que essa reconstrução se apoie seguramente nos textos de que dispomos.

Se o empreendimento tentou os historiadores, é porque encontravam em certas teses do «mestre Nicolau» uma ressonância estranhamente «moderna». Lappe vê nele um «teórico do conhecimento» que critica os conceitos fundamentais da metafísica, L., p. 8; para o P. Maréchal, Nicolau percorreu, «de um só fôlego, a distância que separa Occam de Hume». Le point de départ de la métaphysique, Bruges, Paris, 1923, caderno II, p. 118, não sem reconhecer, aliás, que tal aproximação exige sérias reservas; encontrar-se-á, sobre o mesmo ponto, uma feliz prudência em M. Gilson, La philosophie au Moyen Âge, Paris, 1922, t. II, p. 112.

Mas, seja ou não Nicolau d’Autrecourt o «Hume da Idade Média», ele nos traz talvez uma sugestiva experiência intelectual. Para bem apreender sua experiência, para medir-lhe o alcance, não basta ligar entre si as teses de Nicolau; é preciso ainda determinar o valor que ele dava a essas teses, o sentido que atribuía à sua ligação, e se, ao longo de toda a sua dialética, perseguia outro objetivo que não fosse o de realizar uma proeza de escola. — Maréchal, op. cit.

Nicolau, por outro lado, é classificado como discípulo de Occam: fez «os princípios filosóficos estabelecidos por Occam darem suas consequências mais extremas». Gilson, p. 110. É ainda contemporâneo de Tomás Bradwardine e de João de Mirecourt, condenado um ano depois dele: aqui, o historiador se afunda no desconhecido. Seria preciso considerar todo esse meio para compreender, em sua data e em todos os seus matizes, a condenação de Nicolau. Mas tudo isso excede nossos conhecimentos e interessa antes a um estudo geral do Nominalismo.

Mas, partindo da Discussio et reprobatio errorum, um primeiro trabalho é possível, e é o que empreendemos aqui: aproximar-nos, para o conjunto das proposições, do sentido que Nicolau lhes dava. Feita abstração dos articuli missi de Parisius (essas 10 proposições, que não têm nada de muito característico, não remetem a textos precisos que possam explicá-las), os artigos condenados formam duas massas: a primeira, cedula « Ve michi », relacionada com as cartas a Bernardo de Arezzo; a segunda, L., p. 36*-41*, relacionada com o tratado Exigit ordo.

As proposições do primeiro grupo têm um ar claramente crítico: non potest evidenter inferri…, non habemus certitudinem evidentie…, nescimus evidenter, etc. Nicolau submete ideias recebidas à prova da evidência. No segundo grupo, discernem-se dois temas principais: primeiro, o propósito, ou mesmo a missão de Nicolau, que vem despertar os homens do sono aristotélico; depois, a eternidade de todas as coisas, materiais e espirituais: as proposições têm aqui um aspecto dogmático, que surpreende. Maréchal, op. cit., p. 121.

Em função dos artigos que a eles se referem, pode-se tentar uma introdução ao tratado Exigit ordo. Restarão proposições inexplicadas, algumas aparentemente ininteligíveis: paradoxos lógicos e morais, que examinaremos por último.

Antes de passar às cartas a Bernardo e ao Exigit ordo, notemos que a doutrina desses textos se liga ao primeiro ensino de Nicolau como comentador das Sentenças: in primo principio quando legi Sententias et in epistola secunda et sexta… L., p. 31*, l. 11: conclusiones quas posuisti ut probabiles in tuo principio et quas es recitaturus in isto tractatu. Bodl., fol. 1 r°, col. B (Nicolau faz falar um de seus adversários).

II. A prova da evidência na polêmica contra Bernardo de Arezzo e a cédula « Ve michi ».

1° O primeiro princípio. 1. Uma decisão inicial. — Antes de disputarem juntos, Nicolau e Bernardo se põem de acordo sobre o primeiro princípio que Aristóteles formulou: impossibile est aliquid eidem rei inesse et non inesse. Eis sua discussão situada na luz natural, no grau mais estrito de evidência. L., p. 35*, l. 17-26.

Nicolau se mantém constantemente nesse grau, definido pelo princípio ao qual propõe esta outra fórmula: contradictoria non possunt simul esse vera. L., p. 6*, l. 33. Encontramos um lógico que raciocina sobre termos e proposições, ocupado apenas em não negar aquilo que ao mesmo tempo afirma (sobre as duas fórmulas do princípio, cf. L., p. 8, n. 1, e abaixo, 9°, 3).

2. Aparência e realidade. A primeira carta a Bernardo critica sua teoria do conhecimento intuitivo (no sentido do século XIV: ato de conhecer do qual decorre imediatamente o juízo de existência). Nicolau apresenta assim o que chamamos conhecimento intuitivo, claro ou perfeito, aquele pelo qual julgamos que uma coisa é; o conhecimento, paixão da alma, e a coisa conhecida são duas coisas; uma pode existir separada da outra, sem contradição, pela Onipotência divina; logo, esta inferência não vale: hoc videtur, ergo hoc est, L., p. 2*, l. 14, a menos que nos coloquemos expressamente na ordem natural, onde Deus não age só, mas por causas segundas.

Em todo caso, o juízo de existência deve decorrer do conhecimento intuitivo à maneira de uma consequência, logicamente, L., p. 3*, l. 4, l. 12: seria preciso, ao que parece, que toda certeza tomasse forma lógica.

Da doutrina de Bernardo, Nicolau deduz sem dificuldade as mais graves consequências cépticas: a) Considera primeiro o conhecimento das coisas exteriores: tudo o que nos aparece da existência de objetos exteriores. L., p. 2*, l. 19-26. Essa aparência e as próprias coisas são duas coisas distintas, como viu Gilles, L., p. 16*, l.

21, trata-se de passar de um ao outro: é já o problema da ligação das existências, que reencontraremos mais adiante. Entre o conhecimento e a coisa, já que não há identidade, não pode haver ligação evidente, L., p. 2*, l. 28-p. 3*, l. 1. A partir de um conhecimento distinto de seu objeto, não se pode ser logicamente certo da existência desse objeto.

É em vão que, para escapar a essa consequência, Bernardo se coloca na perspectiva de uma ordem natural, em que, a partir do conhecimento, se poderia concluir a existência de seu objeto: qualquer que seja a causa, Deus ou o objeto, o conhecimento, tomado em si, permanece uno e o mesmo; o mesmo antecedente não pode comportar outra consequência, L., p. 3*, l. 13-23; acredita-se, por outro lado, estar na ordem natural, onde Deus não faz milagre; mas não se sabe isso, tantum est creditum, e da fé nunca decorre uma evidência, L., p. 3*, l. 23-33; Aristóteles e os filósofos, enfim, não se ocupavam nem da ordem sobrenatural, nem da ordem natural; do simples conhecimento, concluíam a existência das coisas: do ponto de vista de Bernardo, eles não tinham disso certeza alguma. L., p. 4*, l. 1-6.

b) A mesma dúvida atinge nossos atos, o fato de que vemos, de que ouvimos. L., p. 4*, l. 22. Depois da existência das coisas que nos aparecem, Nicolau contesta a Bernardo o próprio fato de aparecer: evidentia vestri apparere, L., p. 5*, l. 7: nova incerteza, muito mais difícil de sustentar. L., p. 4*, l. 21. Não afirma Bernardo (como bom aristotélico) que o conhecimento de nossos atos nos é menos claro que o conhecimento das coisas? Ao duvidar das coisas, é preciso, portanto, a fortiori, duvidar de nossos atos. L., p. 4*, l. 24-34.

Bernardo sustenta ainda que actus rectus et reflexus non sunt idem: assim como meu ato de fé e o ato pelo qual tenho consciência dele são dois, do mesmo modo que a brancura e a visão da brancura. Da reflexão, distinta do ato, assim como do conhecimento intuitivo, distinto da coisa, decorrem as mesmas consequências cépticas. L., p. 5*, l. 14-20.

Nicolau, cuja dúvida é de bom grado irônica, L., p. 4*, l. 7-17, deduz com verve e rigor impiedosos o ceticismo absurdo, digno dos acadêmicos, que decorre da doutrina de Bernardo. L., p. 6*, l. 12-13. Para evitar todos esses absurdos, eu sustentei, declara ele, quod sum certus evidenter de objectis quinque sensuum et de actibus meis. L., p. 6*, l. 15-16. A esse propósito, M. Gilson pode escrever de Nicolau: «Falou-se de seu ceticismo, como se uma de suas preocupações dominantes não tivesse sido evitá-lo.» Op. cit., p. 120.

Evitar o ceticismo é, aqui, escapar à oposição aparência-realidade, que Nicolau já encontrava na doutrina de Bernardo: esse teólogo, que não sabe Deus capaz de realizar tudo o que não implica contradição, admite que ele possa assim produzir a representação na ausência da coisa. L., p. 3*, l. 9-12.

Ao tema aparência-realidade, podem-se ligar dois dos articuli missi de Parisius, L., p. 41*, l. 16; p. 42*, l. 10, e uma proposição da cedula « Ve michi », L., p. 34*, l. 10. Antes de propor uma interpretação disso, seria preciso examinar o problema tratado no Exigit ordo: an omne illud quod apparet esse verum sit verum, et omne illud quod apparet sit? Bodl., fol. 13 v, col. A. Remeteremos esse estudo a um trabalho posterior, junto com o exame detalhado do Exigit ordo.

3. Primazia do princípio. A toda certeza que se afirma, Nicolau opõe que aquilo que parece poderia muito bem não ser: de quo tu dicis esse certum, propono istam consequentiam: possibile est sine contradictione, quod exinde sequatur, quod apparebit sic esse et tamen non sic erit; igitur non es certus evidenter, quod sic sit, etc. L., p. 7*, l. 10-19.

Essa dúvida radical é uma dúvida de lógico: sine contradictione. Ela só fracassa nos casos em que afirmo apenas o que me aparece, dentro dos limites do princípio de identidade: eis bem, em toda certeza, o primeiro princípio; sua certeza se resolve na do princípio (cf. o 2º dos articuli missi de Parisius, L., p. 42*, l. 20).

Que significa exatamente essa primazia? Distinguiremos nela três aspectos. a) Nicolau não pretende de modo algum fazer sair, por dedução, todos os nossos conhecimentos do princípio. Gilson, op. cit., p. 115. b) «A fonte de nossos conhecimentos, escreve ainda M. Gilson, está na experiência…, o princípio de contradição não faz senão prolongar, através de uma série mais ou menos longa de intermediários, a evidência da intuição primeira.» O discurso, segundo Nicolau, não faz aparecer nada de novo: quecumque est res apparens apparens esse, consequenter discursui, est ante discursum. L., p. 27*, l. 1-2. Tudo o que afirmamos deve nos ser dado antes de todo raciocínio.

c) Tanto quanto esse resultado, é preciso notar o caminho que a ele conduz: Nicolau, como lógico, sem outro limite que a contradição; obrigando-se a resolver todo discurso em identidade, é conduzido a uma experiência bruta, a uma «intuição primeira»; essa intuição e o discurso que a enuncia analisando-a trazem as únicas certezas que são aceitáveis, em lógica estrita.

4. Corolários do princípio. Devendo toda certeza coincidir com a do princípio, a evidência não admite graus e se transmite sempre igual: isso aparece nos seis corolários do primeiro princípio, L., p. 7*, l. 28-p. 9*, l. 17, que se encontrarão no estudo de M. Gilson, op. cit., p. 111. Dois artigos da prima cedula se referem ao segundo e ao terceiro corolários.

2° Ligação das existências. Do princípio e de seus corolários, decorre, na segunda carta, que da existência de uma coisa não se pode concluir a de outra: ex eo quod aliqua res est cognita esse, non potest evidenter inferri, evidentia reducta in principium primum, in certitudinem principii, quod alia res sit. L., p. 9*, l. 16-19. Lappe, p. 11, n. 1, cita Kant: ‘wie soll ich es verstehen, dass, weil etwas ist, etwas anderes ist’; Kant descobria então que uma razão puramente lógica não pode ligar uma existência a outra; o ponto de vista de Nicolau não parece tão diferente: nosso conhecimento se decompõe em proposições e em termos, tantos sinais que a única exigência de não contradição une ou separa; sinais não se identificam, total ou parcialmente, senão por identidade dos significata; se consideramos duas coisas, cada uma das quais poderia existir à parte, e os termos (ou as proposições) cujo primeiro significa apenas que uma existe, e o segundo apenas a existência da outra, L., p. 25*, l. 30-32, entre esses termos (ou proposições) nunca haverá identidade, e, portanto, nenhuma ligação possível.

Cinco proposições da cedula « Ve michi », L., p. 31*, l. 11-p. 32*, l. 3; p. 33*, l. 7-9, afirmam a inevidência de tal vínculo. No pensamento de Nicolau, é um ponto fundamental: foi com essa tese que inaugurou sua leitura das Sentenças, L., p. 31*, l. 11; reencontramo-la nos quatro artigos que confessou diante de seus juízes. L., p. 37*, l. 10.

3° Substância. O problema da ligação das existências leva à questão da substância, que abre e fecha a segunda carta a Bernardo, e cuja tese capital é a seguinte: Nunquam Aristoteles habuit ab anima notitiam evidentem de aliqua substantia alia a sua, intelligendo substantiam quandam rem aliam ab objectis quinque sensuum et a formalibus experientiis nostris. L., p. 12*, l. 20-23.

Notar-se-á a exceção da alma, que Nicolau já marca na primeira carta: que é mais difícil duvidar de nossos atos do que das coisas (acima, 1°, 2, b); não haveria aqui alguma lembrança do primado agostiniano da experiência interna? Notar-se-á ainda: quandam rem aliam ab objectis quinque sensuum et a formalibus experientiis nostris: sejam todas as coisas dadas à intuição; a substância não está entre elas; sua existência deve ser concluída de outra existência; e isso é impossível.

Na falta de certeza, existe ao menos probabilidade em favor da existência de substâncias materiais? Mas a probabilidade supõe uma evidência que a precede: pus a mão no fogo e me queimei: essas coisas estavam juntas, simul, com evidência, evidenter; tenho desde então como provável que, se puser a mão no fogo, me queimarei; no caso da substância, é impossível raciocinar assim: nunca vi a substância junto com o acidente. Nicolau parece aqui ter tido medo de sua própria lógica. L., p. 13*, l. 4-5, cf. p. 17*, l. 23.

Gilles objeta a Nicolau que a mudança, transmutatio naturalis, implica um sujeito, o acidente uma substância. Sim, retoma Nicolau, se vocês concedem por definição o que têm de demonstrar, se chamam mudança a modificação de um sujeito, e acidente aquilo que existe em uma substância; dessa forma, se eu chamar «homem» o conjunto «homem e asno», seguir-se-á que «o asno está sempre com o homem», mas eu posso igualmente pôr o homem sem o asno: do mesmo modo, uma qualidade ou uma mudança, dadas aos meus sentidos, à parte de toda substância: a lógica nunca me forçará a uni-las. L., p. 28*-29*.

Nicolau dispõe enfim de um argumento teológico totalmente semelhante ao da primeira carta. Vejo uma pedra, madeira no mundo: Deus pode me dar essas aparências sem que em parte alguma haja uma substância que seja pedra ou madeira; se creio, contudo, que Deus não faz milagre, considerarei que existem tais substâncias; mas isso, eu o creio — não se trata de evidência. L., p. 13*-14*. Na base de tais argumentos, é preciso situar lógica e teologia: só é inconcebível o contraditório; toda coisa está submetida ao Deus Todo-Poderoso.

Três artigos da prima cedula se referem ao problema da substância. L., p. 32*, l. 9; p. 33*, l. 1 e l. 35.

4° Causalidade. Não temos mais as cartas V e VII, nas quais Nicolau tratava da causalidade. Mas 10 artigos da prima cedula, que a ela se referem, nos revelam a amplitude de sua crítica. Poder-se-ia distinguir dois graus na negação, por Nicolau, da causalidade então clássica:

1. A inevidência da causalidade natural apresentada sob diversas formas: não há evidência a) de que, aproximada a estopa, removido todo obstáculo, o fogo queime a estopa, L., p. 32*, l. 16; cf. p. 11*, l. 29-30; b) de que existam, ou possam existir, causas naturais, L., p. 32*, l. 27, efeitos naturais, ibid., l. 30; c) de que os seres outros que Deus sejam causas, ibid., l. 24, ou possam sê-lo, ibid., l. 21.

2. Inevidência da causalidade em geral, negação do princípio de causalidade: a) Posta a causa, não sabemos com evidência que o efeito se siga, ibid., l. 23; não pode haver demonstração do efeito pela causa. L., p. 33*, l. 3 (o que era, na Escola, o tipo perfeito da demonstração). b) Se uma coisa começa a ser, não é evidente que outra a preceda, L., p. 32*, l. 12; cf. p. 11*, l. 28-30; se uma coisa é produzida, não é evidente que exista outra que a produza, L., p. 34*, l. 4; não há contradição em dizer que toda coisa no mundo é produzida, ibid., l. 1.

Preferimos abandonar ao jogo das conjecturas a proposição: si aliqua res est producta, Deus est productus. L., p. 33*, l. 24.

Toda essa polêmica depende da dificuldade fundamental de ligar as existências: a Nicolau, que julga essa ligação impossível, Bernardo já opunha a evidência da causalidade natural, L., p. 11*, l. 25-30; do mesmo modo, Gilles, L., p. 19*, l. 1-3. Resposta de Nicolau: é como com as causas dos acidentes; o acidente implica a substância por definição arbitrária, ou então nunca a implicará; do mesmo modo, a causa não implica de outro modo sua ação. L., p. 29*, l. 3-18. Tanto quanto acidente e substância, causa e efeito não estão ligados sob pena de contradição.

5° Faculdades da alma. Um artigo da prima cedula (tirado da carta IX, perdida) nega a validade destas consequências: actus intelligendi est: ergo intellectus est; actus volendi est: igitur voluntas est. L., p. 33*, l. 7. Apenas duas observações: 1. Nossos textos não põem em dúvida a existência da alma; 2. Ignoramos qual doutrina das faculdades aqui se visa.

6° Finalidade. Pôr fins, como pôr causas, é ligar uma existência a outra.

Compreende-se que Nicolau conteste a evidência da finalidade. L., p. 33*, l. 18.

7° Perfeição. Segundo quatro proposições da cedula prima, não se pode atribuir às coisas, com evidência, um grau de perfeição, nobilitas. L., p. 33*, l. 10-17, l. 23-25. Esses artigos se referem à carta V, perdida. Lappe e Gilson tentaram reconstruir a doutrina que essas proposições exprimiriam. L., p. 17-18; Gilson, op. cit., p. 114 sq. Reteremos apenas o primeiro artigo, que parece fundamental: non potest evidenter ostendi nobilitas unius rei super aliam. L., p. 33*, l. 10.

Para a interpretação, algumas observações: 1. Nicolau não se proíbe de considerar a perfeição do dado real, L., p. 38*, l. 18-23; sendo esse o sentido lógico de evidenter, o artigo visa apenas a possibilidade de estabelecer uma hierarquia dos seres sob pena de contradição.

2. Um dos articuli missi de Parisius se formula assim: quecumque distinguuntur, summe distinguuntur, et equaliter distinguuntur. L., p. 41*, l. 29. Um pensamento cuja única lei é a não contradição, sempre igual a si mesmo, não conhece senão uma oposição: a-não a. b, c, d…, todo o resto, sendo igualmente não-a; assim as coisas não admitiriam senão uma distinção, sempre a mesma: como estabelecer graus em um mundo assim?

3. Esse mundo da estrita evidência não conhece nem substâncias nem acidentes, nem causas nem efeitos; todas as coisas se encontram nele no mesmo plano: onde buscar a razão de uma hierarquia? A negação dos graus de perfeição poderia ligar-se à negação dos princípios de causalidade e de substância.

Em apoio a essa interpretação, este texto do Exigit ordo: Et, si ponantur res esse eterne, ut supra, non apparebit qualiter nobilitas unius rei supra aliam possit probari; nam non probabitur ex efficientia, que attendatur respectu alicujus esse novi — ou seja, a causalidade é prova de perfeição —; de igual modo a substancialidade: secundum Aristotelem omnis substantia nobilior est quolibet accidente. Bodl., fol. 3v°, col. A.

Da inevidência fundamental da ligação das existências procede a inevidência das relações causa-efeito, substância-acidente, e, portanto, a impossibilidade de provar a excelência de um ser sobre outro a partir do primeiro princípio: não se poderia fundar a hierarquia do mundo peripatético.

8° Eternidade das coisas. Um artigo da prima cedula afirma que non potest evidenter ostendi, quin quelibet res sit eterna. L., p. 33*, l. 32. Encontramos a eternidade das coisas, tema essencial do Exigit ordo, que aqui não se apresenta sob forma dogmática, mas apenas crítica: a eternidade das coisas é a inevidência da mudança; este novo non potest evidenter ostendi está bem no seu lugar em nossa lista de inevidências: se parto de uma noção lógica da certeza (é o sentido de evidenter), sem dúvida nunca terei certeza de que existem substâncias, causas, fins, graus de perfeição, nem mesmo geração ou corrupção.

Em apoio a essa interpretação, o tratado Exigit ordo, Bodl., fol. 5 v°, col. B – fol. 6 v°, col. A: a questão De rerum eternitate se põe assim: an intellectus naturaliter possit dicere sicut conclusionem scitam ab eo, quod alique res absolute permanentes non sunt eterne, de quibus communiter dicitur quod generantur et corrumpuntur? Trata-se de concluir quod hec conclusio: « non omnes res sunt eterne » non sit scita a nobis.

Isso pode concluir-se de dois modos: 1. mostrando que todas as coisas são eternas; 2. mostrando que nos falta o meio de assegurar que algumas não o são: por exemplo, as qualidades sensíveis, onde mais ainda parece que sit transitio de non esse ad esse, et de esse ad non esse.

Pode-se ser capaz, observa Nicolau, de demonstrar o segundo ponto e não o primeiro; logicamente, o segundo caminho é o primeiro. Tomemos o exemplo das cores: a passagem do branco ao preto. Bodl., fol. 5 v°, col. B.

Eis nosso problema: com que direito passamos da negativa: albedo non est, à afirmativa: albedo est? Sendo admitida a evidência de albedo est, em que fundar a certeza de albedo non est? A evidência da mudança, reconduzida a transitio de esse ad non esse, reconduz-se à certeza de uma proposição negativa, illius propositionis negativae qua [intellectus] dicit rem, que prius fuit, non esse (ibid). Aqui um dilema: a certeza dessa proposição é, ou a evidência imediata de um princípio, ou a evidência mediata de uma conclusão; Nicolau vai fechar esses dois caminhos.

a) albedo non est não é um princípio. Aqui, novo dilema: um princípio é, ou propositio nota ex terminis, ou propositio nota per experientiam. Não estamos no primeiro caso: bastaria então que compreendêssemos os termos da proposição para lhe reconhecer a verdade, qualquer que fosse o estado de nossos sentidos, esset nota semper intellectis terminis. b. Quanto à experiência, ela se reduz a isto: que não vemos mais o branco: illud solum non experimur in nobis: experimur in nobis amplius… visionis qui inerat prius. Ibid.

b) Resta que nossa proposição seja concluída. A partir de quê? Reencontramos o dilema: propositio nota ex terminis aut per experientiam. a. É impossível fazer de albedo non est a conclusão de um silogismo cujas premissas se imporiam logo que seus termos fossem compreendidos: semper illis [terminis] intellectis intelligeretur talis propositio. b. É preciso recorrer à experiência, tirar nossa certeza ex actibus sensuum quos experimur in nobis. Mas do fato de vermos a brancura, concluir-se-ia antes sua existência do que sua não existência.

Resta o fato de que deixamos de vê-la. É nisso que se fundam até mesmo os que raciocinam assim: quia nigredo inest, ergo albedo non; de fato, quod intellectus dicat: adveniente nigredine tollitur albedo, hoc non est nisi quia vidit quod adveniente nigredine desinit apud sensum visus apparitio albedinis. Eis, portanto, nosso problema: do fato de uma coisa deixar de aparecer aos sentidos, pode-se concluir que ela já não é? Bodl., fol. 6 r°, col. A.

A inferência não vale; Nicolau o mostra de três maneiras, das quais eis a primeira: objeta uma certa constituição das formas naturais: forme naturales sunt ita divisibiles in minima quod seorsum non divisa a toto possent habere actionem suam, et ita, licet existentia in toto videantur, dispersa tamen et divisa seu segregata non videntur.

Por essa perspectiva atomista, escapa-se à conclusão de que o que já não aparece passou ao nada. Nicolau abre ainda duas outras possibilidades, e conclui que não se pode saber que uma coisa passe do ser ao não ser; afirma a seguir a eternidade de todas as coisas… Bodl., fol. 6 v, col. A. Mas, no estudo da cedula « Ve michi », nosso objetivo é esclarecer apenas o: non potest evidenter ostendi quin quelibet res sit eterna.

Assim Nicolau põe em forma a certeza da mudança: eis-nos diante de uma proposição; seja imediatamente, seja mediatamente, sua evidência deve nascer da significação de seus termos, ou de uma experiência; mas nossa proposição não poderia ser nota ex terminis, nem depender de tais proposições; e, por outro lado, a experiência de que se poderia concluí-la admite outras interpretações. Eis um juízo que não é simples enunciado de seus termos ou da experiência: ele não é evidente. Essa análise de lógico nos deixa na atmosfera das cartas a Bernardo de Arezzo. À inevidência da geração e da corrupção, pode-se ligar um dos articuli missi de Parisius. L., p. 41*, l. 27.

9° Sentido da controvérsia. — 1. Ceticismo, fenomenismo, experimentalismo? Propôs-se um ou outro desses termos para caracterizar a atitude de Nicolau, adversário de Bernardo.

a) ceticismo, primeiramente: M. Gilson disse quais reservas esse qualificativo exige, op. cit., p. 120; poderíamos precisá-lo mostrando que Nicolau se afirma o cético de Aristóteles, e de qual Aristóteles. b) Fenomenismo sugere que o pensamento se detém nas aparências sensíveis — qualidades sujeitas à alteração; mas fala-se aqui de coisas eternas. c) Em favor do experimentalismo: Nicolau quer que os homens deixem filósofo e comentador, que se voltem para as coisas: convenant res ad suum intellectum, L., p. 37*, l. 7-8; dessa intenção testemunham as proposições extraídas do Exigit ordo. Mas, antes, foi preciso considerar a doutrina de Aristóteles, suas obras inúteis: Vidit in dictis Aristotelis et commentatoris mille conclusiones determinatas. L., p. 37*, l. 20-21.

2. O adversário de Nicolau. O texto da Discussio errorum evoca uma conclusão de tom triunfal da segunda carta: ex his sequitur, non placeat mihi vel non placeat, sed rationi vigenti, quod Aristoteles in tota philosophia sua naturali et metaphisica vix habuit talem certitudinem de duabus conclusionibus et fortasse nec de una. L., p. 12*, l. 32; p. 13*, l. 1. O irmão Bernardo quase desaparece; eis Aristóteles em primeiro plano. Gilles o sentiu, L., p. 14*, l. 18-21; espanta-se de ver Nicolau admitir tanta ignorância em um filósofo tão grande. L., p. 22*, l. 21, e vem defendê-lo. L., p. 23*, l. 17-18… Mas Nicolau confessa seu propósito: volebam multipliciter concludere quod non Aristoteles habuit evidentem notitiam de substantiis. L., p. 25*, l. 10-12. Eis o sentido dessas cartas: uma polêmica contra Aristóteles, sua física e sua metafísica! Como se constrói a polêmica?

3. A dialética de Nicolau. É preciso que os argumentos incidam sobre o adversário. Nicolau podia crer que os seus incidiam: parte do primeiro princípio, reconhecido por seu filósofo, por discípulo e por todos. Sem dúvida, trata como equivalentes o princípio de identidade, que incide sobre o ser, e sua formulação lógica em regra de não contradição; toda certeza, para ele, deve revestir-se de forma lógica. Mas tem diante de si peripatéticos que se apegam precisamente à forma lógica do aristotelismo, que vivem, e quase morrem, propter sermones logicos. L., p. 37*, l. 29-30.

Em face de Nicolau, Gilles reivindica o fato de uma ordem natural: uma ordem em que há causas e substâncias outras que Deus, e também uma ordem das naturezas, no sentido de Aristóteles: princípios da geração, naturales transmutationes esse est mihi experimentaliter notum… notum certissime. L., p. 22*, l. 4-6. A evidência do movimento é o coração do aristotelismo. Cf. Gilson, Recherches sur la formation du système cartésien, em Revue d’histoire de la philosophie, 1929, p. 126 sq.

Ora, se se pode conceber o movimento à parte de todo o resto, diríamos como movimento puro, conhece-se melhor o movimento natural relacionando-o a uma substância e a uma causa; sua realidade não se esgota em um conjunto de coisas, de absolutos, ela é também relação. Pois a relação é ainda algo do real, relatio est res, L., p. 19*, l. 17, mas uma realidade cuja essência é voltar-se para o outro: esse relationis est ad aliud se habere. Ibid., l. 19. Eis a posição de Gilles: evidência do movimento, inteligível pela substância e pela causa, em um mundo em que a relação é uma realidade.

Mas Nicolau toma as coisas à parte, esta primeiro, em si e absolute, L., p. 30*, l. 20-21, aquela depois, outro absoluto; quando as coisas são duas, suas intelecções são separáveis, e uma nada pode acrescentar à perfeição da outra, non apparet quod una res perfectius intelligatur ex eo quod altera cognoscitur. L., p. 27*, l. 20-23.

Diante da diversidade das coisas, não dispomos, por hipótese, senão de uma luz natural logicamente definida pela não contradição: a inteligibilidade é a identidade; donde a impossibilidade, desse mesmo ponto de vista, de toda ligação de uma coisa com a outra; desse ponto de vista, não se encontram nem substâncias e acidentes, nem causas e efeitos, nem fins e meios, nem relação alguma desse gênero. O discurso é apenas análise da intuição, e a «intuição primeira», experiência bruta, ao nos dar várias coisas, as apresenta todas de uma vez, no mesmo plano, sem nenhuma preferência. Com: non est unde talis primitas esset ibi. L., p. 27*, l. 27. Com suas aparências sucessivas, a experiência não nos revela mudança real, nem corrupção de um que seja geração de outro.

Tendo posto no início a lógica aristotélica e seu primeiro princípio, Nicolau encontra as coisas da física e da metafísica aristotélicas; já não encontra evidência para os fins, causas, substâncias, para o movimento, em uma palavra, para a natureza peripatética. Assim o conflito de Nicolau com Gilles aparece como conflito de Aristóteles com Aristóteles, do ponto de vista da lógica: radicalmente, a natureza é incerta.

Nicolau realiza seu propósito, que é descobrir a incerteza do aristotelismo, ou, como diz brutalmente Gilles, a ignorância de Aristóteles.

4. Alcance dessa dialética. Podemos discernir o espírito que anima Nicolau em sua polêmica contra Bernardo? «O magister Nicholaus, diz o P. Maréchal, parece ter sido levado a teses extremas, muito menos pela preocupação de fundar uma filosofia nova do que por seu temperamento de dialético.» Op. cit., p. 120. Lappe pede que não se impute a Nicolau, como sendo sua própria doutrina, as consequências absurdas que ele pode tirar da doutrina adversa. L., p. 5*.

Por nossa parte, encontramos somente nas cartas e na cedula « Ve michi » uma prova a que são submetidas as noções fundamentais do peripatetismo. Qualquer que seja o sentido que se deva dar à expressão causa collationis, L., p. 1, n. 8, é certo que Nicolau apresenta sua obra como um exercício escolar que não compromete sua convicção: disputative, nihil asserendo pertinaciter. L., p. 31*, l. 3-4; p. 33*, l. 7-8; p. 34*, l. 16-17, 21-23. Ele precisa não ter tido outro propósito senão o de não faltar ao primeiro princípio, regra da discussão. L., p. 35*, l. 17-16.

Mas o resultado dessa dialética, constatado por Gilles, é fazer estourar a incerteza do aristotelismo, a ignorância de Aristóteles; e Nicolau reconhece ter-se proposto esse objetivo. Seria apenas para exercitar seu espírito, realizar uma proeza? Se há jogo, Nicolau parece bem ter-se deixado levar por seu jogo: já lembramos os artigos extraídos do Exigit ordo, nos quais, da inevidência do aristotelismo, Nicolau conclui que os homens devem abandonar o estudo de Aristóteles e do comentador.

Aqui se precisa a figura do Aristóteles medieval, o adversário de Nicolau: não são apenas teses metafísicas, às quais se poderiam opor outras teses; Aristóteles é uma formação do espírito, uma cultura (o aristotelismo medieval é antes de tudo uma formação dialética da inteligência, assim como o cartesianismo se definirá antes de tudo por uma preparação matemática à filosofia); o filósofo, que inventou a lógica, é o mestre do pensar; o século XIV é um século de lógicos; Aristóteles é a cultura lógica que os contemporâneos de Nicolau se esgotam a adquirir: multum admiratur quod aliqui student in Aristotele et commentatore usque ad etatem decrepitam, et propter eorum sermones logicos… L., p. 37*, l. 28-30.

Se perguntarmos a Nicolau que lição traz sua polêmica com Bernardo, eis sem dúvida a resposta: Aristóteles julgado pelo primeiro princípio, doutrina incerta, logo cultura inútil. Mas Nicolau não é menos lógico que seus adversários, é-o ainda mais: poder-se-ia vê-lo como um homem que vive em uma cultura, a leva ao extremo, e lhe prova o nada. Daí o aspecto de suas cartas: exercícios de escola que descobrem a vaidade da Escola. Uma breve introdução ao estudo do Exigit ordo confirmará ainda mais essa interpretação de Nicolau d’Autrecourt.

III. Introdução ao estudo do tratado « Exigit ordo… »

1° Os artigos da « Discussio errorum »: « de eternitate rerum ». Deixados de lado os articuli missi de Parisius, uma proposição que retoma o tema da prima cedula — a ligação das existências, L., p. 37*, l. 10 —, e dois artigos que remetemos aos paradoxos lógicos e morais, L., p. 37*, l. 14 e p. 40*, l. 26, os artigos da Discussio errorum se repartem em dois grupos: primeiro, quatro proposições, em que Nicolau nos fala de si mesmo e da missão que crê ser sua, contra Aristóteles, L., p. 36*, l. 35; p. 37*, l. 5, l. 20 e l. 26; todo o resto trata de eternitate rerum (tomamos essa expressão de nosso manuscrito, Bodl., fol. 2 r° e fol. 5 v°, notas marginais).

Ajudando-nos do Exigit ordo, examinemos esses artigos que Nicolau não confessou todos: quorum aliquos simpliciter et aliquos sub forma qua ponuntur se dixisse negavit. L., p. 37*, l. 18.

1. Quod res absolute permanentes sunt eterne… L., p. 37*, l. 35. Trata-se das substâncias e dos acidentes aos quais o aristotelismo comum atribui geração e corrupção: Nicolau recusa a passagem do nada ao ser, ou do ser ao nada. Pode-se relacionar essa proposição ao tractatus primus, Bodl., fol. 5 v°, col. B; é a resposta de Nicolau à questão que abre esse tratado: an intellectus naturaliter possit dicere sicut conclusionem scitam ab eo, quod alique res absolute permanentes non sunt eterne, de quibus communiter dicitur quod generantur et corrumpuntur…? (loc. cit.).

Sabemos que Nicolau mostra primeiro que, mesmo para as próprias qualidades sensíveis, não podemos ter certeza de que se corrompem. Assegura, depois, que, se é preciso tomar partido entre a não eternidade e a eternidade, é a segunda que se deve escolher, Bodl., fol. 6 r°, col. A: reencontraremos suas razões, que valem para todas as coisas que compõem o universo.

A perspectiva de eternidade estará completa quando se tiver tratado de actibus anime, de motu, de respectibus. Ora: a) actus anime nostre sunt eterni, L., p. 39*, l. 26, cf. abaixo, 11; b) considerando a realidade à parte do intelecto, motus non distinguitur a mobili: o móvel são os átomos, ingeráveis e incorruptíveis; c) do mesmo modo, respectus non distinguuntur ab extremis, os termos das relações são res absolute, coisas eternas. Assim, probabile est quod omnes res sunt eterne, Bodl., fol. 8 r°, col. A. Nossa proposição, quod res absolute permanentes…, nos coloca no princípio da redução de toda realidade a elementos ingeráveis e incorruptíveis.

2. Quod in rebus naturalibus non est nisi motus localis. L., p. 38*, l. 1. Nicolau reduz geração, corrupção, alteração a deslocamentos de átomos, corpora athomalia. Estamos ainda na primeira parte do tractatus primus já analisada: do fato de uma coisa ter cessado de aparecer, conclui-se, em aristotelismo, que ela deixou de ser. Há três maneiras de escapar a essa conclusão; Nicolau retém a primeira (primum intellectum qui probabilior est electus, Bodl., fol. 6 r°, col. B), que consiste em decompor em átomos, minima, as coisas sensíveis, Bodl., fol. 6 r°, col. A. Nossa proposição chega para concluir: Sic ergo in rebus naturae non est nisi motus localis, sed quando ad talem motum, etc. Bodl., fol. 6 v°, col. A. Nicolas indica em seguida que o que reúne os átomos em corpos é a ação de alguns, que retêm os outros sicut adamas ferrum, loc. cit. Sobre as fontes possíveis desse atomismo, cf. L., p. 29.

3. Quod lumen nichil aliud est, quam quedam corpora. L., p. 38*, — 11. A luz se reduz a corpos em 1. movimento. Após uma explicação mecanicista da geração, da corrupção, da alteração, é necessário a Nicolas, para responder a seus adversários, uma explicação mecanicista da luz posset dici quod ipsum Bodl., : Et que n’objecte lumen…, fol 6 v°, col. A. nem se lhe objeta sua instantaneidade, quod lumen generatur in instanti; pode-se responder que é apenas uma aparência in instanti quia quasi subito in tempore, do mesmo modo que : se propaga no tempo sem o som, que se é que isso pareça secundum doctrinam communem : medio tamen multiplicat se in successive… videtur fieri quasi subito; dos corpos que são a luz, Nicolas escreve quasi subito videntur se diffundere per totum médium, : loc. cit.

573 4. Quod universum est perfectissimum… et propter hoc oportet tam totum quam partes esse eterna nec transire — de non esse in esse, nec e converso. L., p. 38*, 18. A perfeição suprema do universo exige 1. a eternidade das coisas, — subtraídas à geração e à corrupção. Eis-nos na segunda parte do Tractatus primus: não somente não estamos certos da corrupção, mas as coisas a ela não estão sujeitas. Já o primeiro argumento procede deste princípio: illud est ponendum in universo ex quo major : ad apparet perfectio in universo, si positionem illius sequitur nulla impossibilitas. Como é melhor e não é impossível às coisas permanentes serem eternas, elas o são com efeito. Bodl., fol. 6 v°, col. A.

O terceiro argumento introduz a noção do Todo e de sua perfeição suprema: totum perfectissimum inclusionem omnis : per perfectionis et per exclusionem omnis imperfectionis, in quo nulla est difformitas. O próprio Aristóteles concede que o universo é um Todo perfeito. Mas a perfeição do todo exige a perfeição das partes: uma casa em ruínas faz uma cidade imperfeita, in deformitate civitatis videtur redundare ruina contingens circa domum aliquam illius civitatis; do mesmo modo, no universo: deformitas circa partem redundat : Melhor contingens in deformitatem totius. vale eternidade que não-eternidade; a perfeição do Todo, em si e em suas partes, é a eternidade. Bodl., fol. 6 v°, col. B. Geração e corrupção tornariam o universo imperfeito. É preciso referir-se aqui ao primeiro prólogo de nosso manuscrito, segunda parte, texto que examinaremos em breve. Bodl., fol. 2 r°, col. B; fol. 2 v°, col. A. Ver abaixo 7.

5. Quod quicquid est in universo — est melius ipsum quam non ipsum. L., p. 38*, 24. Qualquer aspecto 1. do universo que se considere, — é melhor que seja assim do que de outro modo. Isso decorre da consideração do Todo e de sua perfeição. Consideremos as partes do universo: uma pode ser imperfeita em comparação com outra; mas nenhuma, tomada absolutamente, é imperfeita, de uma imperfeição tal que seria melhor que ela não existisse, nihil est in universo quod sit simpliciter inperfectum quin sit ipsum melius non esse. É preciso, com efeito, tomar o bem como medida das coisas, constituere in universo bonum pro mensura, para dar a razão, reddere causam quare, pela qual isso é assim, e não o contrário, dizer que é melhor, melius est hoc esse quam suum oppositum. Bodl., fol. 6 v°, col. B. Voltaremos a falar desse princípio do melhor, abaixo 7.

6. Quod duo individua ejusdem speciei, cum veniunt ad sensum et intellectum ut eadem — res omnino, sunt eadem omnino. L., p. 38, 1. 26. Eis duas brancuras: aqui, a de Pedro, lá, a de João; uma e outra me são dadas como branco; devo considerá-las como uma mesma — brancura, a despeito da dualidade de lugares e de sujeitos. Depois de ter deduzido da perfeição do universo a eternidade de suas partes, Nicolas encontra uma objeção: o que faz a perfeição do universo não são os indivíduos, mas as espécies; ora, estas são eternas, mas aqueles podem nascer e morrer. A essa visão aristotélica do mundo, Nicolas opõe um dilema: o que entendeis por espécies? conceitos ou realidades? Se se trata de simples conceitos, exteriores à natureza das coisas, as espécies não podem fazer a perfeição do universo. É preciso, pois, entender por espécies uma realidade: aliquid unum omnino de se, realiter inexistens omnibus individuis ipsius speciei. Na perspectiva comum, essa realidade específica é individuada « por diferenças sobreacrescentadas », per differentias individuales superadditas. Mas Nicolas não tem necessidade dessas diferenças: as coisas de mesma espécie chegam ao sentido e ao intelecto, in prima ejus comprehensione, distinguidas apenas por seus lugares: ita quod intellectus non distingueret nisi esset diversitas — situs. Bodl., fol. 6 v, col. B; fol. 7 r°, col. A.

Reencontramos aqui um ponto de vista da primeira parte do primus Tractatus, onde nossa proposição se lê quase textualmente: trata-se de mostrar que não há corrupção das qualidades sensíveis; chegamos a isso pela terceira via: desaparece uma coisa colorida; vejo a mesma cor sobre outro objeto; a cor não é, pois, corrompida, se é a mesma. Objeção: não há senão semelhança, não identidade, simile et idem specie, sed idem numéro. Nicolas: a espécie é absolutamente una: a rebus que veniunt apud sensum eadem omnino, et intellectum ut ita quod… intellectus non ponit distinctionem, non debes negare aliquem gradum ydemptitatis… A diversidade decorre unicamente — da posição no espaço. Bodl., fol. G r°, col. B. Nossa proposição coloca as qualidades sensíveis numa perspectiva platônica, onde, subtraídas à corrupção, seus sujeitos e seus lugares lhes são exteriores: a brancura se torna uma brancura separada, albedo separata, Bodl., fol. 6 r°, col. B; a brancura não se corrompe, ela cessa de se comunicar a um sujeito, num lugar: non corrumpitur…, sed solum discommunicatur Bodl., fol. 7 r°, col. A.

Quod bonorum . malorum 7. premiatio 31.— et punitio per hoc fit… L., p. 38*, 1. Nicolas propõe, em função de seu atomismo, duas maneiras de conceber que os bons sejam recompensados e os maus sejam punidos M. Gilson dá uma análise completa dessa : —Nós com proposição, op. cit., p. 118-119. deixamos, este artigo, o Tractatus primus pela secunda pars primi prologi. Trata-se de provar a eternidade das coisas a partir da perfeição do universo. Nicolas põe como uma necessidade de ordem, uma exigência de justiça, que os bons sejam recompensados e os maus punidos: illa conclusio videtur verior secundum quam potest salvari reprimacio bonorum et punicio malorum. Ora, do ponto de vista aristotélico, o homem que morre passa ao nada, e não pode receber nem recompensa nem pena secundum positionem Aristotelis de corrupcione rerum non potest salvari, quia, cum unusquisque homo transiat ad non esse simpliciter quantum ad omne sibi proprium, non videtur intelligibile quod unus participet plus de bono quam alius. Ao contrário, do ponto de vista da eternidade das coisas, Nicolas propõe a dupla explicação — que nosso artigo reteve. Bodl., fol. 2 v°, col. B. Remetemos para mais tarde o exame do artifício de que Nicolas aqui se serve para escapar à heresia; é a excusatio vulpina que se segue, na Discussio e no tratado. L., p. 39*, 1. 8; Bodl., fol. 2 v°, col. B.

Nota sobre o princípio do melhor no primeiro — prólogo, primeira parte, do « Exigit ordo… ». O texto De reprimatione bonorum et punitione malorum é precedido de uma exposição dos princípios que permitem deduzir da perfeição do universo a eternidade de suas partes. A propósito do argumento que lemos no primus tractatus: omne totum perfectum, (cf. supra, 4) e da objeção que lhe foi feita: quod particularia non sunt de perfectione universi, (cf. supra, G), Nicolas nos revela os princípios de sua argumentação. Essa declaratio principiorum nos dá quatro princípios. — Bodl., fol. 2 r°, col. A.

a) Primeiro princípio. Quod bonum est apud intellectum pro mensura in quantificando entia, et universaliter in determinando dispositiones contingentes in eis, ut accipiat (?) quod entia universi sunt rectissime disposita, et quod sic res sunt sicut bonum est — eas esse, et sic non sunt sicut malum esset eas esse. Essa proposição se impõe, uma vez consideradas as coisas da arte e as da natureza: inspecto eo quod contingit in rebus naturae et in rebus artis. .75

a. Primeiramente as coisas da arte: o bem é, para o artista, uma medida que rege seu trabalho; assim o arquiteto: sic domus sicut existimat bonum esse eam : comm fit fieri. O bem, eis o fato. E é preciso que não seja: si non esset bonum, non appareret dispositio sub qua deberet fieri domus, quia malum positio deberet fieri sive negatio boni est infinita, et ideo, qua ratione fieret secundum unam dispositionem, eadem ratione secundum aliam, vel modis infinitis, vel nullo modo. Sem a consideração do bem, é impossível dar razão do trabalho do arquiteto, de uma construção única realizada entre todas as construções possíveis.

b. Medida das coisas na arte, o bem é medida também na natureza. E isso, aqui ainda, se prova de dois modos: pelos fatos, ex quadam inductione; e a partir da ideia de causa, propositio ex causa. Os fatos são exemplos de finalidade, por vezes dignos de Bernardin de Saint-Pierre: Non videmus quorum : quod lapides amabilitas videtur esse ut ex eis fiant monumenta homini, non sunt sursum in celo… Equus non est magnus usque ad celum tunc homo non ; posset ascendere supra eum. Dentes anteriores hominis sunt magis acuti ad diuidendum cibum, etc. Depois dos fatos, o raciocínio: apparet propositio ex causa supra : quia malum ut in rebus artis, : est infinitum, et negatio boni; unde tunc non esset intelligibile quare magis fierent sub una dispositione quam sub alia, nec sciremus e quibus haberemus terminare quesita naturaliter que oriuntur in nobis super consideratione dispositionis circa entitatem rerum in quantitate et qualitate. Só o bem dá o porquê — da disposição das coisas no universo. Assim, do mesmo ponto de vista, abraça-se a arte e a natureza: sicut ergo artifex convenientissimam : que intendit dispositionem effectus, est sibi placentissima, sic existimandum [est] quod entia universi sunt sub illa dispositione que esset — magis placens intellectui recto. Bodl., fol. 2 r°, col. B.

Observaremos primeiramente que Nicolas não teme ligar perfeição e finalidade. Em seguida, que ele compara a natureza a uma obra de arte, à obra de um arquiteto. Por fim, recordaremos o argumento do primus tractatus: illud est ponendum in universo ex quo apparet : major perfectio in uniuerso… (supra 4); essa proposição inicial se provava assim: non est existimandum quod : aliqua perfectio possibilis desit in universo : quia, qua ratione una, eadem et due, et tres, et infinite infinities, et ita non esset terminus… Bodl., fol. 6 v°, col. A. Acabamos de citar um argumento totalmente semelhante, mas mais claro: quia malum sive negatio boni est qua : secundum unam infinita, et ideo, ratione fieret dispositionem, eadem ratione secundum aliam vel modis infinitis… O bem aparece como o caso único entre uma infinidade de outros casos: o bem, segundo Nicolas, é o melhor. Só ele, determinando as coisas, encerra nossa busca. Nicolas d’Autrecourt pressente aqui Leibniz: ele apela ao princípio do melhor, princípio de razão.

b) Segundo princípio. Quod entia universi sunt connexa ad invicem, ita quod quodammodo unum videtur [esse] propter alterum. — Bodl., fol. 2 r°, col. B.

c) Terceiro princípio. Nihil est quin sit bonum toti multitudini entium ipsum esse. Bodl., fol. 2 v°, col. B. —

d) Quarto princípio. —- Quod universum est semper equaliter perfectum. Nicolas estabelece esse princípio do mesmo modo que o primeiro: quia si declinatio ad : fieret aliquem gradum inperfectionis posset fieri ad gradum minorem, etc.. Bodl., fol. 2 v°, col. B; para não se perder no indefinido, é preciso ater-se ao bem, ao melhor.

Nicolas não se dá por inventor desses princípios: istis principiis philosophi usi sunt. Ele vai servir-se deles para mostrar a eternidade de toda coisa: quibus [principiis declaratione eorum sic facta, volo uti ad ] ut probabilibus ostendendum — quod hec res particularis que nunc est semper sit, negação da geração e da corrupção. Eis o primeiro modo — de argumentar: por que isso existe? quia bonum ipsum : secundum primum est esse, principium suppositum est ad bonum totius multitudinis entium, ; quia universum est totum connexum secundum secundum et tertium principium et universum est ; semper perfectum secundum quartum principium. Necessário à perfeição do Todo, perfeição — sempre igual, impossível que uma coisa não exista. Outra maneira de argumentar: se o princípio do melhor rege toda a existência no Universo, nada existe em vão; logo, nada pode ser retirado sem desordem. Nossos princípios regem as coisas não somente em geral, por espécies, mas ainda em particular, por indivíduos: ex suprapositum quod nullum : principiis videtur in universo. nec in particulari nec in universali, possit esse frustra. O Todo é semelhante a um edifício perfeitamente construído [domus] rectissime disposita in qua nullum : diminutum esset superfluum, nec ; o que é necessário, nada mais, nada menos: não se pode retirar nada sem romper a harmonia do conjunto: nullum : videtur posse removeri quin ex hoc contingat difformitas in toto. BodL, fol. 2 v, col. A.

No argumento que se segue, — Nicolas mostra que da eternidade — de todas as coisas omne ens possibile semper esse procede a plenitude do bem, a perfeição acabada: sequitur : semper totale complementum boni : erit; o que satisfaz perfeitamente o espírito: ipsum esse semper apud : unde est in placentia intellectum, et in nobis accidit displicentia .cum credimus transivisse rem ad non esse. BodL, fol. 2 v°, col. A. A ideia de corrupção choca a inteligência.

8. Quod esse corruptible includit repugnantiam et contradictionem. Um ser sujeito à corrupção, isso — repugna ao pensamento, isso implica contradição. Tomado em sua simplicidade, em sentido forte, o artigo sugere que ser corruptível é fazer uma contradição nos termos. Não é esse o sentido que dá a passagem do prólogo, onde se lê: quoniam ens corruptible includit repugnantiam : BodL, et contradictionem. fol. 3 r°, col. A. Isso vem depois da declaratio principiorum e do argumento de reprobatione bonorum et punitione malorum; logo depois da excusatio vulpina, novo argumento: rursus quidem ad principale sic omnis : : conclusio si est scibilis, formata in terminis entis, est scibilis per conceptus entis, vel eorum que ens convertuntur ; sed hec conclusio : non omnes res sunt eterne, est formata in terminis entis et non scibilis per tales conceptus; ergo non est scibilis, et per consequens non potes dicere istam conclusionem esse demonstratam a perypatheticis. BodL, fol. 2 v°, col. B, ou ainda: Seja a tese de Aristóteles: não todas as coisas são eternas, há — uma dos seres que passam do ser ao não-ser; eis uma proposição em termos — de ser; para a conhecer, ou demonstrá-la, seria preciso — recordemos a polêmica contra Bernard — reduzi-la a seus termos, fazer ver nela um simples desenvolvimento da noção de ser. Mas isso é impossível: non est scibilis per conception entis, : magis quia ex conceptu entis videretur concludi eternitas quam deficientia et conceptibilitas. BodL, fol. 2 v°, col. B., fol. 3 r°, col. A. Sabemos ao menos, dir-se-á, a possibilidade de seres corruptíveis: não há — contradição em ser, depois não ser: quia non quod : nunc est repugnantia in conceptibus aliquid sit et postea non sit. Nicolas afirma que há repugnância nisso, e mesmo contradição, recordando seus princípios de finalidade: -.quoniam ens corruptible includit repugnantiam et contradictionem, scilicet ut dicatur : ens pars totius semper equaliter perfecti, corruptibile. BodL, fol. 3 v°, col. A. O pensamento recusa o ser corruptível, não em si, isoladamente, mas como parte do Todo, que deve ser perfeito.

O tractatus primus confirma essa interpretação; depois de ter multiplicado os argumentos pela eternidade das coisas, Nicolas escreve: Has igitur rationes induxi ut : Certum quod probabiles ad conclusionem. est conclusio hec non potest probari per explicationem conceptuum terminorum conclusionis, que média dicuntur cause formales, ita quod sciens per talia dicitur scire per causam formalem; et explices quantumcumque vis, de conceptibus explicitis non concludes affirmativam nec negativam; ergo in hujus rei consideratione oportuit me recurrere ad causam finalem et ostendere quod melius est dicere res eternas et quod perfectio major attribuitur sic dicendo uniuerso, et cum illud non sit impossibile, dicendum est saltem ei magis assentiendum quam opposito. Bodl., fol. 7 r°, col. B. Assim: 1° a considerar apenas os termos — « coisas », «eternidade», não se tirará disso nem que as coisas são eternas, nem que não o são (Nicolas concede apenas, no prólogo, que se tiraria disso antes a eternidade); 2° a análise da noção de ser não bastando, é preciso recorrer à consideração do bem, da finalidade, da perfeição do Todo: desse ponto de vista somente, a corrupção de um ser — parece repugnante, contraditória. Mas não se trata de contradição interna a um conceito, de repugnância à pura lógica; o princípio de identidade não é o único em jogo, como na polêmica com Bernard; intervém também o princípio do melhor.

9. Quod isti conclusioni, quod res permanentes sunt eterne, magis est assentiendum quam opposito; et si aliqui dicant eum ex hoc negare pro se, non dicit quod (wohl negare fidem, ostenditur quod, nach A) hoc non possunt dicere nisi mentiendo. L., p. 39*, 1. 18. (A designa a edição das Sentences, Basileia, 1488, segundo a qual Lappe corrige o texto de Denifle): reproduzimos o texto inteiro desse artigo, obscuro em sua segunda frase, que Lappe teve de corrigir; propomos relacioná-lo — ao tractatus primus, Bodl., fol. 7 col. A e B. Primeiramente, a primeira r°, frase: o manuscrito assim nota a tese da eternidade: — : probabilis ;— probabilior rationibus conclusionis opposito (ibid. A) ei magis assentiendum quam opposito pro- A; babilior opposito (ibid B), tese de Nicolas que se prova mais merece sobretudo nosso assentimento. E eis uma explicação de probabilior: si enim habeant rationes qui tenent conclusiones oppositas, dicant eas et faciant super hiis comparationem amatores veritatis, et credo quod cuilibet non magis affectato ad unam partem quam ad aliam apparebit gradus probabilitatis excedens in hiis rationibus (ibid. A); as teses opostas se fazem valer, sofrem a prova da discussão, diante de um espírito não prevenido, que avalia.

Nicolas julgou depois de experiência, sentindo sua força: sic loquor quia aliorum ad : in libris conclusiones occultas (oppositas?) paucas vidi rationes ad quas nescirem probabiles dure responsiones. Et si dicant quod ego nego principia per se nota, mirabile est qualiter sic falsa notorie expri- — munt que non nisi mentiendo dicere possunt (ib. A). Aqui aparece nossa segunda frase: et si aliqui dicant eum : ex hoc negare per se nota, (em vez de pro se, non), quod non : Et dicit hoc possunt dicere nisi mentiendo. E eis a explicação que nos reconduz à primeira parte do tractatus primus (cf. supra, 1): ostensum [est] supra : quod non quod, succedente nigredine; dicere albedo sit, nec est principium notum ex terminis, nec est aliquid quod primo experiamur in nobis; ibid., A dupla inevidência — da corrupção.

10. Quod supposita redeunt eodem numéro per reditum corporum — supracelestium ad eundem situm, L., p. 39*, 1. 23. Ainda no tractatus primus; depois da prova da eternidade das coisas, Nicolas desenvolve DICT. DE THÉOL. CATH. as consequências: ruína do aristotelismo, dificuldades tradicionais desvanecidas, — e por fim o que nosso artigo reteve: Item secundum dicta faciliter potest apparere : quorum motibus qualiter posset dici : si corpora celestia, ista inferiora assequuntur. aliquando revertantur ad eundem situm in quo nunc sunt, dici potest quod idem suppositum quod nunc est aliquando erit; nam secundum positam conclusionem omnia corpora athomalia ex quibus res componuntur remanent, et ita, congregatione facta, idem erit suppositum in numero quod erat prius. Bodl., fol. 7 v°, col. A. Os corpos, de que Aristóteles faz substâncias, supposita, resultam da reunião dos átomos; mas o movimento dos astros comanda todo o resto: se os astros voltam algum dia à sua posição presente, do mesmo modo os átomos; e eis reconstituídos os mesmos corpos: supposita eadem : redeunt numéro. Cf. Gilson, op. cit., p. 119.

11. Quod actus anime nostre sunt eterni. Sed quod aliquando intelligamus, 26.— aliquando non, hoc pro tanto est quia… L.,p. 39*, 1. É a primeira de quatro proposições de actibus anime; poderíamos expor aqui toda a psicologia de Nicolas, curioso atomismo espiritual. Cf. Bodl., 7 v°, col. B congregatio fol. : talium entium attomatium spiritualium ; e em nossa proposição: per motum spiritualem. L., p. 39*, 33. : 1. Consideremos apenas a maneira como aparece no tractatus primus um breve de actibus anime: de actibus anime nostre… certe modicam notitiam habemus in tantum quod nullum est quesitum de eis quod possit terminari inter doctores, unde diffinitionem que débet esse médium in predicata demonstrando non habemus certam, ut puta que sit cognitio. Bodl., fol. 7 v°, : col. A-B. Permanecemos na ordem da dialética; aqui ainda impossível provar pela causa formal, desenvolvendo a evidência de uma definição; ater-se-á ao provável: potest sustineri probabiliter… quod anime : sunt fondera actus nostre eterni ; e apoia-se na consideração, já feita, da causa final: omne : totum perfectum requirit suas partes… Bodl., fol. 7 v°, col. B Quod aliquando intelligamus, quod aliquando non : o problema é ainda compreender que se passa de uma contraditória a outra; é para resolvê-lo que o aristotelismo aplica a noção de movimento — geração e corrupção — à atividade do espírito: si intelligere poneretur ens corruptibile, hoc esset pro : quo homo quandoque quandoque tanto intelligit et non. Bodl., fol. 7 v°, col. B. O problema da intelecção é a própria questão do movimento, onde Nicolas adota esta posição: est transitus de contradictorio : cujuscumque in contradictorium sine mutatione reali intrinsece. L., p. 41*, 27. A ligação desses problemas, I. imposta pelo aristotelismo, parece corrente na Escola (cf. por ex. Durandi de S. Porciano, O. P. Quaestio de natura cognitionis, éd. Koch, Munster, 1929, p. 33 sq.). Eis, aliás, a transposição do atomismo do material ao espiritual: Sicut suo modo in : saltem istis materialibus in quibus nihil est noinim, de entibus absolutis permanentibus, est tamen ista res aliquando presens alicui cui prius non erat presens per motum localem, sic ibi, scilicet in anima nostra, per motum spiritualem et redditur — ista res intelligibilis… Bodl., fol. 7 v, col. B. Nosso artigo termina assim: Et per istam positionem… cessat totus tertius : De anima. liber Aristotelis L., p. 39*, 1. 33; Bodl., fol. 7 v» col. B depois da destruição da física, : a da psicologia.

12. Quod intellectio eadem que nunc est presens michi — erit postea presens alteri supposita, L., p. 39*, 1. 30. Essa proposição se Bodl., fol. 7 v°, col. B posset lit : dici quod inlellectio… -Nicolas nos indica logo como lhe veio a ideia de que a intelecção poderia ser eterna: in juventute, cum primo audivi librum tertium Anima, : supposita opinione commenta- de occurrit mihi, XT 19 loris de intellectu, scilicet quod sit unus in numéro omnibus hominibus, facile est sustinere quod intelligere potest dici esse eternum, quia secundum cum, licet unus intellectus sit respectu Socratis et Platonis, —-Para tamen non semper Socrates intelligit quando Plato. Averróis, o intelecto é comum; todos os homens, todavia, não pensam a mesma coisa ao mesmo tempo; é que, em cada um, conhecer depende também do fantasma. Do mesmo modo, para Nicolas, a intelecção de um objeto é coisa eterna; no entanto, eu não a tenho sempre; eu a tenho se ela se adapta à imagem presente: quando est conformis : actualiter fantasmati actu existenti in cogitativa ; eis o outro caso: licet intellectio sit in intellectu, non tamen quia : non intelligit, est conformis fantasmati suo. Bodl, fol. 7 v°, col. B. A intelecção parece um átomo espiritual que uma imagem atrai e retém na consciência: não nos iludimos de esclarecer essas ideias, ao menos nesta introdução que visa mais as coisas que nossos atos.

13. Quod potentie — nihil recipiunt ab objectis… L., p. m*, 1. Nosso manuscrito trata igualmente de 1. actibus anime, no primeiro prólogo, de onde é extraído este artigo: Bodl., 3 A e seguinte, fol. v°, col. o col. B.

t. Quod sicut vilia vadunt ad centrum et ad terram, 1 ad animas nobiles veniunt nobilia exemplaria. L., p. 40*, 1. 8.

15. Quod si poneret generationem, non poneret subjectum, sed solum ordinem ipsius cause post non esse, puta hoc ens est et prius non fuit.

Vel si aliquem modum intelligerem, hoc esset respectus fundatus in ente, nec sub alio intellectu concederet communem opinionem — philosophorum : ex nichilo nichil fit. L.,p. 40*, 1. 16. — Lembremo-nos aqui que as cartas a Bernardo de Arezzo sustentavam ser concebível uma mudança sem sujeito. Ainda no prólogo, Bodl., fol. 4 r°, col. B, Nicolas polemiza contra a matéria primeira que Averróis nos propõe, depois de Aristóteles, como substrato da geração. Desde que se tenham as coisas por eternas, o problema deixa de se pôr. Mas admitamos mesmo geração e corrupção: não há necessidade de conceder a matéria primeira: supposito quod ponerem generationem et corruptionem in rebus, ut homines ponunt communiter, ad hoc non ponerem materiam primam.

Eis, os três momentos que se podem distinguir em nosso artigo: a) Nicolas põe a transmutação, mas a compreende assim: non intelligo aliud nisi hoc ens est et prius non fuit, nec ibi intelligo aliam rem a non esse et esse; b) se junta ao nada e ao ser um terceiro termo, não será um sujeito da transmutação: vel si aliquid, intelligerem respectum fundatum in ente; c) o princípio: ex nihilo nihil fit significa esta ordem da natureza: quando unum ens generatur aliud corrumpitur et ita nihil generatur quin precesserit aliquid. Assim o ser sucede ao ser. Mas não há matéria dos seres, sujeito da geração.

16. Dixit in quadam disputatione, quod quia desiderium naturale non est frustra, ideo quod quicquid desideramus aliquando adipiscemur. Unde quicunque appetit ire ad Nostram Dominam aliquando ibit. L., p. 40*, 1.22. Não encontramos em nosso manuscrito tal fantasia dialética; encontramos apenas isto, Bodl., fol. 4 v°, col. A. Nicolas provava que as coisas são eternas a partir do desejo de eternidade que anima naturalmente os homens: arguebatur quod desiderium naturale hominum quod est ad eternitatem (trata-se de eternidade pessoal: eternitatem sui quilibet homo appetit, Bodl., fol. 7 r°, col. B) non est frustra. A esse argumento, opõem-se os malogros da finalidade, quod multa sunt frustra : são vãos, por exemplo, os desejos que nascem em nós de ir a lugares aonde nunca iremos.

Nicolas responde por sua doutrina da finalidade, que toma duas vezes toda coisa: 1° em si mesma, ita quod quelibet res habet… propriam bonitatem; 2° sua relação com outras, ita quod unum ens est propter aliud. Seja pois esta coisa que é nosso desejo: mesmo não realizado, ele tem sempre a primeira razão de ser, remanet ratio prima secundum quam erat sub intentione nature. Se nunca devesse ser realizado, o desejo não teria a segunda razão de ser que, de perto em perto, liga cada realidade ao conjunto: si ad rem nunquam sequeretur id propter quod est secundario videretur inconveniens. Mas um desejo é também uma coisa eterna: illud desiderium naturale est res que semper erit; ele poderá realizar-se algum dia; e eis a resposta que Nicolas propõe, com o próprio exemplo de nosso artigo: istud desiderium est aliqua res ad quam aliquando sequetur motus ad Nostram Dominam. O desejo que aparece em mim se realizará, isso não quer dizer, em nosso manuscrito, que seja eu quem o realizará: dictum est quod desiderium naturale est aliquando presens alicui supposito quod ibit ad Nostram Dominam. Cf. n. 12.

Eis, portanto, 16 artigos da Discussio errorum que tiram sua origem de dois textos de eternitate rerum de nosso manuscrito, um, primus tractatus, outro, secundo pars primi prologi. No resto do prólogo, o autor nos apresenta sua obra.

2° Apresentação de sua obra por Nicolas d’Autrecourt.

1. A missão de Nicolas (prima pars primi prologi, Bodl., fol. 1 r°, col. A e B). — O tratado Exigit ordo (exatamente, Satis exigit ordo execucionis…) começa por um duplo prólogo, o segundo dividido em duas partes: reencontram-se na primeira os elementos das outras proposições, capitais, da Discussio errorum. L.,p. 36*, 1. 35; p. 37*, 20 e 26. Analisemos esse texto, cujas articulações o próprio autor marcou, loc. cit., col. A : primo, secundo…, tertio…, quarto, ymo inter cetera…, redeundo unde sermo prius… Nicolas, primeiramente, não nos esconde a importância de seu propósito; por isso, para que a razão causal legítima de tão grande propósito não permaneça oculta, ne légitima ratio causalis tanti propositi lateat, ele vai nos dizer como veio a estimar bom escrever ele próprio este tratado, a julgar que adiá-lo ainda seria desagradar a Deus. O primeiro artigo da Discussio reteve esse traço, e fala mesmo de inspiração: videtur quod divinam : dicere senserit inspirationem. L., p. 36*, 1. 35-p. 37, 1. 4. O que se segue mostrará bem que Nicolas se descobriu uma missão; ele vai nos dizê-la. Eis seus pensamentos em ordem: a) Primo inspexi doctrinam Aristotilis et ejus commentatoris Averroys et vidi quod mille conclusiones… Cf. L., p. 37*, 1. 20-25: às teses aristotélicas, Nicolas não pode sempre opor demonstrações que decidam em sentido oposto; ele dispõe sempre de argumentos que fazem aparecer tão prováveis as conclusões adversas: verum est quod non inveni rationes demonstratives ad opposita in omnibus, sed occurerunt rationes alique per quas mihi visum fuit quod ita probabiliter possent teneri conclusiones opposite sicut proposite ab eis. Primeiro momento decisivo: prova dialética do aristotelismo.

b) É o estudo de Aristóteles, no entanto, e do comentador que ocupa as inteligências, vidas inteiras: Vidi secundo quod in eorum doctrina studebant aliqui per viginti vel triginta annos usque ad etatem decrepitam. Cf. L., p. 37*, 1. 28-29.

c) O exame do aristotelismo permitiu medir qual conhecimento ele trazia. Para adquirir um igual, não é preciso tanto tempo. Apparuit tertio quod notitia que potest haberi de rebus secundum apparentia naturalia tanto gradu quanto isti videantur habuisse posset haberi in brevi tempore. Cf. L., p. 37*, 1. 26-27.

d) O tempo que um mundo aristotélico consagra à lógica está perdido para a moral. Consideravi quarto qualiter omnes propter logicos sermones Aristotilis et Averroys deserebant res morales et curam boni communis. Cf. L., p. 37*, 1. 29-30. Os homens se desgastam inutilmente sobre os textos de Aristóteles, esquecem sua verdadeira finalidade. É preciso despertá-los de seu sono. Citemos já a frase de belo porte, onde M. Gilson discerne « o tom do Renascimento », loc. cit., p. 122: Sed cum suam : insurrexit amicus veritatis et fecit sonare tubam ut dormientes a somno excitaret… Mas então, Nicolas encontra os teólogos.

c) Ymo inter cetera… vidi… quod aliqui reverendi patres, quorum capita jam albescant canicie… por estes venerandos homens, Nicolas sente espontaneamente respeito; mas quando se levanta « o amigo da verdade », eles partem em guerra contra ele: quasi armati ad prelium eum : 33- capitale ia irruerunt. Cf. L., p. 37*, 1. 34. Será a caridade que os anima? A invídia, o desejo de vã gloria não os detêm menos que os outros homens: omnibus nubiis quibus involvuntur : quod homines sic apparent subjecti in nullo nisi in pejus vita eorum vita vulgi differens esse videtur. E, nessa diatribe, Nicolas pretende permanecer moralista, não cair no ataque pessoal: Sic dixisse in generali non nocet contra quos loquor. gladio lingua mea si in speciali detraxerim eis. Aliás, esses defeitos dos teólogos não deixam de ter relação com as disputas nascidas de seu aristotelismo (cf. infra).

I) Terminado esse incidente, Nicolas retoma o curso de seus pensamentos: Redeundo unde sermo prius, cum quod : sic vidi, de rebus per apparentia naturalia quasi nulla certitudo potest metiri, et quod brevi tempore id quod potest haberi habebitur si homines sic immediate intellectum suum convertant ad res sicut fecerant ad intellectum hominum Aristotilis et commentatoris Averroys… Cf. L., p. 37*, 1. 5-8, et 1. 26-27. Pode-se estimar em nada a certeza que nos trazem as « aparências naturais » (da polêmica contra Bernard, retira-se a impressão de que todo o aristotelismo nada pode acrescentar aos dados da experiência bruta); a que se pode ter, tê-la-emos, em pouco tempo, se a pedirmos às próprias coisas, sem passar pelos livros. Mas os homens não devem apegar-se muito a isso: desapegados das « aparências naturais », voltar-se-ão para as coisas da moral e se apegarão à lei cristã: cum etiam apparuit quod homines modicum : debeat adherere apparentibus naturalibus, apud me hoc venit judicium quod si hoc cognoscerent bene nati communitatis pollitice converterent se ad res morales et adhererent firmiter legi sacre, legi christiane que inter omnes honestissimum modum vivendi complexa est, loc. cit., col. A-B.

Buscas vãs não perturbariam mais as almas: non haberent materiam quod : elationis, considerantes sic ex puris naturalibus parvam certitudinem possent habere de rebus, mundarent corda sua… Visão de futuro dos homens: libertos do aristotelismo, ocupados apenas em difundir a lei divina: apparerent divini quidam homines non tempus : consumerent qui totam vitam in logicis sermonibus vel in distinguendo propositiones obscuras Aristotilis, sed intellectum divine legis manifestarent populo… Pode-se evocar aqui Descartes, outro adversário do aristotelismo, que se distinguirá, puro especulativo, daqueles que Deus estabeleceu para soberanos sobre seus povos, ou ainda a quem deu graça e zelo bastantes para ser profetas. « Discurso do método. Sexta Parte. » Contra o aristotelismo, Nicolas d’Autrecourt, antes lógico, descobre-se profeta: « Ele aborda o que toca aos costumes »; « ele se apresenta como reformador »; depois dos artigos de eternitate rerum, lemos isto: fecit, ut dicitur, proclamari quod : legeret librum pollitice Aristotilis sub hac forma : « quicumque voluerit audire librum pollitice Aristotilis una cum quibusdam questionibus de quo disceptatur de justo et injusto per quas… poterat novas leges condere, conditas, si que sint corrigende, corrigere, veniet ad talem locum… L., p. 40*, 1. 26-31.

g) Tendo-nos confiado seus pensamentos, exposto seus motivos, Nicolas pode concluir: Iste est finis, ista est intentio mea. Com essa consideração do futuro: sed tam divinum quod : me [hoc] mihi apparet finaliter per vel per alium debitum sortietur effectum. Seguem-se depois uma breve súplica à autoridade: Supplico humiliter Reverendis sub quorum : Patribus alis protegimur… ut sinant hoc opus peragi, e uma protestação de fé e de submissão à Igreja, que reencontraremos. Loc. cit., col. B., cf. infra, 4.

2. O direito à inovação (secunda pars primi — prologi, Bodl, fol. 1 r°, col. B-fol. 2 r°, col. B). Nicolas d’Autrecourt é um inovador, em ruptura consciente com sua época, com a tradição secular da Escola. Ele vai responder às objeções de princípio que se opõem às inovações doutrinais: Sua resposta ocupa a primeira metade da secunda — pars primi la prologi (a segunda metade é o De eternitate rerum que já utilizamos, Bodl., fol. 2 r°, col. B- fol 5 r°, col. B, e que, — logicamente, se colocaria depois do tractatus primus). Nicolas faz falar seus adversários sobre suas conclusões, conclusiones quas posuisti ut probabiles in tuo principio et quas es recitaturus in isto tractatu, dos quais eles medem todo o alcance: que [conclusiones] sunt contradictorie conclusionibus approbatis in communitate longo tempore…, nam sunt contradictorie Aristotili et commentatori Averroys. Bodl., B. A considerar essas inovações, pode-se fol. 1 r°, col. concluir ou à presunção do autor, ou à falsidade das próprias teses. Nicolas vai fazer justiça dessa dupla objeção.

Da resposta que ele dá à primeira, reteremos duas regras que definem os casos em que se pode inovar sem presunção. Primeira regra: seja um homem a quem, para certa ordem de pesquisas, venham espontaneamente, quasi naturaliter et ex se, não recebidos ab alio, todos os conceitos que a comunidade humana jamais teve sobre esse assunto, e alguns outros além, que trazem mais; dispondo de mais conceitos, isto é, de mais termos, ele pode tirar daí mais princípios, e princípios novos, conclusões novas, opostas mesmo às conclusões recebidas. Nicolas marca com vigor a consciência que esse homem possuiria de seu direito a inovar: cum hoc scit… quod omnes illos conceptus : quos alii formaverunt, ipse format et multos alios per quos magis… attingit res, tunc videt quod est quasi tota illa multitudo in virtute quantum ad quesita circa que format tot conceptus ut tota multitudo, et ultra quantum ad alios conceptus, est quasi alius homo in gradu excedenti.

Assim, o homem de bem, que vê a multidão buscar somente as riquezas e prefere o exercício da virtude, não ignora que: o quanto sabe mais do que a multidão, e por isso se distingue, potest scire quod est egregius, positus extra gregem vulgi. Bodl., fol. 1 r°, col. B.-fol. 1 v, col. A. Observar-se-á o caráter espontâneo, pessoal, do pensamento que se opõe às opiniões recebidas, quasi naturaliter et ex se, non receptive ab alio. Nicolas não usa dessa primeira regra para se justificar: hac regula me non quoniam non me : omnes exonero dico habere conceptus — aliorum super querendis infra. Bodl., fol. 1 v°, col. B.

Segunda regra, que justifica Nicolas: aquele a quem vêm, sobre algum objeto de especulação, pensamentos opostos aos da comunidade, que depois os discute com homens sensatos e permanece convencido depois de muito tempo, esse pode e deve descobrir seu pensamento; não é culpado de presunção. Bodl., fol. 1 v°, col. B. Deixando de lado o primeiro argumento, que reprova ao inovador estimar demasiado suas capacidades, passemos ao segundo; suas teses são falsas porque contradizem a opinião comum.

Nicolas responde por uma viva oposição da evidência com a autoridade: tale medium arguendi non est natum : de facere evidentiam de conclusione. A autoridade, nem mesmo a de Deus, substitui a evidência. Nicolas nos o representa falando de cores a um cego: Si Deus : diceret ceco : « albedo est color pulcherrimus colorum et sciret cecus quod esset Deus, non lumen esset ista », res evidens sibi, quia careret propriis conceptibus terminorum, licet assentiret huic complexo sicut vero. É evidente a proposição que se impõe pela simples análise de seus termos ou da experiência, sem recurso a nada mais. A evidência é que não sejamos cegos que creem nas cores, é que a coisa nos apareça, ela mesma: nunc in speculativis non ipsum : querimus nisi scire ut res veniat in apparentia apud animam. Nicolas distingue radicalmente a ordem especulativa, onde a evidência é senhora, e a ordem prática, domínio das leis e dos argumentos de autoridade: non est sicut in observantiis legalibus ubi queritur non cognitio sed opus; et ideo ibi talibus argumentis utitur legislator ut homines inducat ad assensum, nam scit quod, assensu posito, sequitur opus. Sed hic non querimus nisi evidentiam, et ideo non videtur quod dignum sit uti talibus argumentis sed queramus veritatem quesitorum in propositionibus per se notis et in experientiis, Bodl., fol. 2 r°, col. A. A evidência que, no discurso, significa identidade, significa primeiro, na intuição, presença do objeto ao espírito.

3. Evidência e tradição da Escola (secundus prologus, Bodl., fol. 5r°, col. B-fol.6 v°, col.B). — O segundo prólogo nos mostra Nicolas considerando aqueles de seus contemporâneos que querem fazer obra de filósofo: qui secundum : inquisitores veritatis apparentia naturalia se dicunt…, quorum professionis esset per actus quos in nobis experimur et per principia per se nota ex terminis in via discursus ad diversas conclusiones procedere. Bodl., fol. 5 r°, col. B. A filosofia parte daquilo que nos aparece naturalmente, da evidência: seja da experiência, seja dos princípios; dali, o discurso caminha até as conclusões. Mas os filósofos deste tempo apoiam-se apenas sobre as conclusões que leem em Aristóteles e Averróis: eorum ad : in suis inquisitionibus finalis resolutio erat conclusiones et dicta Aristotilis et ejus commentatoris Averroys, et eis utebantur ut principiis. A tal ponto que, com aquele que recusa as conclusões aristotélicas, não se discute, tal como se tivesse espírito falso: estimabant irrationabile arguere contra negantem : eorum conclusiones [Aristotilis et Averroys], quasi arguere contra talem esset arguere contra orbatum intellectum. Bodl., fol. 5 v°, col. A. A submissão ao Filósofo e a rectidão de espírito são tudo uma só coisa.

Mas Nicolas traz observações mais precisas. Primeiro exemplo: a atitude dos mestres da Universidade de Paris diante daqueles que sustentam a indistinção da quantidade e da substância material (tese ocamista): a majoribus istorum [doctorum hujus : quod universitatis audivi contra tales [qui asserebant ] quod non ut probabile substantia naturalis et quantitas distinguerentur realiter] non erat dignum arguere quoniam principia negabant per se nota. A distinção da substância e da quantidade seria um princípio. Mas onde tomar a evidência desse princípio? em seus termos? na experiência? quia intellectis terminis natum est statim venire — ad intellectum, vel est aliquid quod experimur in nobis quorum neutrum potest dici, quia : vel de tali complexione non esset tunc questio — vel si esset, facilis multum esset ejus solutio. Ora Aristóteles, seu Aristóteles, eorum magister, quem ita de prope insequi volunt, reconhece nas relações entre substância e quantidade uma das questões mais difíceis: eam enumerat inter questiones difficillimas in tertio metaphisice sue, prope principium. Resta, pois, que nossos filósofos colocam ali um princípio, porque há uma opinião de Aristóteles: illi reputabant esse principium quia dictum ab Aristotile. E sem dúvida, fazem-no em outros lugares também: Et si hoc reputaverunt esse principium quod non est principium, ut apparet manifeste per Aristotilem quem omnino insequuntur, ita non est longe a verisimilitudine quin in aliis uniformiter se habeant, ut precipue argumenta non habentes, ut semper usi Aristotilis conclusionibus tanquam principiis, dicunt quod homines negant principia ubi homo asserit conclusiones veras licet a consuetis remotas. Bodl., fol. 5 v, col. A. Assim vão nossos filósofos que seguem a opinião, tal como a multidão: sic ambulabant cum vulgo, Bodl., : mudar Hec quicumque fol. 5 r°, col. B. É preciso isso: ergo dimittet et anime sue persuadere curet quod verus philosophus viam vulgi deserens non débet accipere., aliqua pro principia eo quod famosa sint. Bodl. fol. 5 v, col. B. Fiel ao seu ideal, Nicolas recusou tomar por princípios os preconceitos comuns, e se classificou entre aqueles que põem em questão as ideias recebidas, qui nituntur transmutare famosa et elucidare de novo conclusiones occultas. Bodl., fol. 1 r°, col. B.

Outra observação: eis filósofos todos ocupados em explicar Aristóteles, replent quaternos et processus formant longos in verba Aristotilis exponendo.

De que servem essas explicações de textos, se é preciso ceder a uma evidência? si precise verba Aristotilis accipiant esse vera propter rationem evidentem, eis superfluum omnino videtur sic considerationem dimittere rerum et se ad verba hominis convertere. Bodl., fol. 5 v°, col. A. Lembremos a expressão ut res veniat apparentia apud animam, Bodl. fol. 2 r°, col. A; cf. supra, 2. Podemos compreender o si sic: homines immediate intellectum suum convertant ad res, Bodl., fol. 1 r°, col. A; o que se exprime ali é a necessidade de evidência. Trata-se de rejeitar os textos que nos falam do objeto, para ir ao próprio objeto, presente ao espírito. A evidência pode, aliás, vir dos simples conceitos, principia per se nota ex terminis, ou da experiência, actus quos in nobis experimur. Bodl., fol. 5 r°, col. B.

Terceiro exemplo: para os mestres que, em matérias controversas, se contentam, como única resposta às objeções, em alegar um texto de Aristóteles ou de seu comentador. Bodl., fol. 5 r°, col. A-col. B. Conclusão: Nicolau vai atacar esses erros e essas ilusões, num pensamento de simples caridade, caritatis zelo ductus…, non amore gloriae, sed quia credo quod per inquisitionem ex principiis regnabit veritas in anima et amplius non erit locus falsitati. Bodl., fol. 5 v°, col. B. Partir dos princípios é reconduzir tudo à evidência: na fisionomia de Nicolau de Autrecourt, tanto quanto a preocupação moral, a necessidade de evidência é um traço essencial.

— 4. O teste do aristotelismo. Nicolau vai, portanto, argumentar contra os que tomam por princípios as conclusões de Aristóteles; mostrará que essas conclusões, que eles não põem em dúvida, eles de modo algum as sabem: proposui… conclusiones… ostendere eis nullo modo fore scitas. Bodl., fol. 5 v°, col. B. Isso nos recorda a demonstração da ignorância de Aristóteles, na polêmica contra Bernardo de Arezzo. E quando Nicolau nos avisa que vai proceder non determinando sed dubitando, lembramo-nos do «modo disputativo» e da «causa collationis». Cf. C. Michalski, Le criticisme et le scepticisme dans la philosophie du XIVe siècle, Cracovie, 1926, p. 27-30.

No fim da prima pars primi prologi, já líamos: Protestor quod nunc in isto tractatu, nec in aliis, quod aliquid volo dicere sit contra articulos fidei, vel contra determinationem Ecclesiae, vel contra articulos quorum oppositi condemnati sunt Parisius, etc., sed solum volo inquirere, circumscripta omni lege positiva, qualis certitudo possit haberi de rebus et an processus Aristotilis fuerint demonstrativi. Bodl., fol. 1 r°, col. B. Notemos bem: «circumscripta omni lege positiva» referir-se-á apenas a essa evidência que Nicolau opõe a toda legislação exterior; cf. supra, 3.

Assim, como as cartas a Bernardo e a Gilles, o tratado Exigit ordo não seria senão um teste do aristotelismo. Sua própria finalidade é a que nos revela seu Incipit: ad videndum an sermones peripateticorum fuerint demonstrativi. Bodl., fol. 1 r°, col. A. Tomando nosso tratado pelo que ele se apresenta ser, não buscaremos nele a construção de uma filosofia nova.

Como, aliás, conciliar um propósito dogmático com a posição cética das cartas a Bernardo e a Gilles, com a declaração de Nicolau: quod de rebus per apparentia naturalia quasi nulla certitudo potest haberi, L., p. 37*, l. 5-6, com sua esperança de ver os homens se consagrarem apenas à moral: si hoc cognoscerent… converterent se ad res morales. Bodl., fol. 1 r°, col. A-col. B.?

Eis a nossa interpretação, liberta das discussões da Escola: trata-se unicamente de desviar a humanidade cristã da Escola, mostrando que os textos de Aristóteles não satisfazem nossa necessidade de evidência; ela se dedicará a cumprir a lei, donde o teste do aristotelismo, tanto na polêmica com Bernardo como no Exigit ordo. Resta explicar, deste ponto de vista, a diferença de tom entre as proposições extraídas desses dois textos: o aspecto cético dos artigos da cédula «Ve mihi», o aspecto dogmático dos extraídos do Exigit ordo.

Observaremos simplesmente que, se a frequência da palavra evidenter caracteriza as cartas e a Prima cedula, o emprego do termo probabile pode bem definir a maneira do Tratado. A diferença estaria nestas fórmulas: dico quod non potest evidenter ostendi…, dico quod secundum ista apparentia naturalia que nunc participamus, conclusio opposita est probabilior. Bodl., fol. 7 r°, col. B. A propósito do primeiro princípio, já vimos o significado de evidenter; precisemos o sentido de probabile.

a) Para chegar ao probabile, é preciso colocar frente a frente duas teses opostas, fazer combater as razões que as sustentam, e apreciar: si… habeant rationes qui tenent conclusiones oppositas, dicant eas et faciant super hiis comparationem amatores veritatis, et credo quod cuilibet non magis affectato ad unam partem quam ad aliam apparebit gradus probabilitatis excedens in hiis rationibus. Bodl., fol. 7 r°, col. A. Em suma: o desafio, o torneio, o juiz.

b) Comparada a outra, uma tese é probabilior em razão dos argumentos que foram fornecidos: há aí uma questão de fato, questão de tempo. Tendo Nicolau de Autrecourt apresentado suas razões, um espírito reto não pode mais conceder a corrupção como coisa certa: In hoc enim sit finis primi capituli, quod homo bene natus, si non respiciat, ductus aliquo motu male distrahente, dicet quod homines hujus temporis non possunt dicere sub certo se scire quod aliqua res transierit de esse ad non esse. Bodl., fol. 6 v°, col. A. A mesma consideração de tempo aparece na excusatio vulpina: nam etsi appareant [ista de reprobatione bonorum] probabiliora longe, mihi videtur, positis ab Aristotile, tamen, sicut multo tempore visa sunt esse probabilia dicta Aristotilis, quorum probabilitas nunc forsan diminuetur, sic veniet unus qui tollet probabilitatem ab istis. Bodl., fol. 2 r°, col. B; L., p. 39*, l. 9.

c) Uma tese pode ser probabilior conclusione opposita e não ser verdadeira. É o próprio pensamento de Aristóteles: etiam secundum Aristotilem nihil prohibet quedam quibusdam falsa esse probabiliora veris. Bodl., fol. 2 r°, col. A. d) Há, portanto, um uso da razão que não conduz a resultados definitivos, sem relação necessária com a verdade: a fé não é comprometida por esse exercício dialético. Depois de mostrar a quais mudanças está sujeito o probabile, Nicolau acrescenta na excusatio vulpina: adhereamus quoque legi Christi nunquam et credamus quod contingit reprobatio bonorum et punitio malorum, nisi per illum modum qui est expressus in illa lege sacra. Bodl., fol. 2 v°, col. B. L., p. 39*, l. 13. Noutro lugar: Scio vero quod veritas est et fides catholica tenet quod non omnes res sunt eterne, nec huic rei videor contradicere, quia solum dico quod ista conclusio secundum apparentia naturalia quibus nunc participamus est probabilior opposita. Bodl., fol. 7 r°, col. B.

O Sr. Gilson nos mostra «um Nicolau de Autrecourt bastante próximo do averroísmo quanto ao problema das relações entre a razão e a fé», op. cit., p. 119: em ambos os casos, o historiador encontra mestres em artes que exercem sua razão sem a ordenar, como os teólogos, a um objeto que a ultrapassa.

e) O evidenter da Prima cedula se define pelo princípio de identidade; os probabilia do Exigit ordo, na discussio errorum retenus, apoiam-se principalmente no princípio do melhor e, por duas vezes, a propósito das res absolute permanentes e dos actus animae, Nicolau nos explica por que recorre à finalidade. Bodl., fol. 7 r°, col. B, e fol. 7 v°, col. A-B.

Diante de uma proposição que nega ou que afirma a eternidade das coisas, a experiência não decide, nem a demonstração que se faz per causam formalem, per diffinitionem certam, per explicationem conceptuum terminorum; não temos princípios (sejam principia nota per experientiam, sejam principia per se nota ex terminis) dos quais o discurso possa tirar, per explicationem, por via de identidade, uma conclusão: quod omnes res sunt eternae, ou quod non omnes res sunt eternae. Uma demonstração que transmita a evidência é aqui impossível, já que, de início, não há evidência. Aristóteles não a tem; Nicolau tampouco; ele está na situação que ele mesmo descreve na prima pars primi prologi: contra as pretendidas demonstrações de Aristóteles, ele não dispõe de demonstrações, mas de dialética; e sua dialética prevalece.

Visto que as próprias coisas não nos mostram sua eternidade ou sua «corruptibilidade», é preciso tomar um desvio; não podendo raciocinar per causam formalem, Nicolau raciocinará per causam finalem, invocando o princípio do melhor. Esse princípio nos parece, depois de Leibniz, princípio de razão, de necessidade. Mas, para Nicolau, dele se deduzem apenas probabilia; o que lhe permite salvar sua fé. Se não esquecermos a noção de evidência, tal como se afirma nas cartas a Bernardo e na prima cedula, conceberemos que essa posição não é ilógica.

Se a evidência estrita vai sempre apenas do mesmo ao mesmo, nunca haverá demonstração per causam finalem, nem evidência do princípio do melhor, loquendo de gradu evidentiae qui est in lumine naturali strictissimus. L., p. 35*, l. 22. Concordar-se-á que os exemplos de finalidade não deviam, para Nicolau, demonstrar o princípio do melhor. Ele apresenta, por outro lado, esse princípio como uma propositio ex causa, a única explicação; mas isso não ultrapassa a pura análise lógica, buscar uma razão para as coisas?

Nossos probabilia fundam-se principalmente num princípio do melhor, ao passo que a evidência dos princípios e das demonstrações se reduz ao princípio de identidade. A distinção se sustenta na medida em que o primeiro princípio e a evidência estrita residem unicamente na identidade, à qual de modo algum se reduz o melhor, na medida em que a racionalidade tem dois graus, dos quais o menos estrito não compromete a verdade, não obriga o real.

Assim Nicolau impõe ao aristotelismo uma prova em dois graus: 1° Uma prova de evidência, apoiada no princípio de identidade, que nos revela que Aristóteles não sabe o que ensina; assim, nas cartas a Bernardo e a Gilles; aí está o aspecto crítico da prima cedula. 2° Uma prova dialética, principalmente apoiada no princípio do melhor, que opõe às conclusões de Aristóteles teses antagônicas, que ela faz aparecer como probabiliora: é o Exigit ordo; os artigos que dele se extraíram têm uma aparência dogmática.

Será essa a nossa conclusão, nossa hipótese: os artigos condenados de Nicolau referem-se a uma obra essencialmente polêmica, a um teste do aristotelismo. Se têm, aqui ou ali, aparência de modernidade, é porque Nicolau encontra e utiliza encadeamentos de ideias que outros, mais tarde, reencontrarão para outros fins: teses sobre o princípio do melhor, sobre a inevidência lógica do vínculo causal. A modernidade estaria, antes, na necessidade de evidência, opondo-se à tradição escolástica.

A conclusão de Nicolau é a inevidência, a própria inverossimilhança do aristotelismo. Mas Nicolau não parece trazer nem um método especulativo, nem uma filosofia nova, em sentido dogmático. Sua obra parece significar unicamente: incerteza da doutrina aristotélica, vaidade da cultura escolar; vendo isso, a elite se consagrará a cumprir e a fazer cumprir a lei cristã. Tal foi, a nosso ver, a posição do mestre condenado em 1346.

— IV. Paradoxos lógicos e morais. Classificamos sob este título algumas proposições extraídas de textos que não possuímos, que revelam o modo de pensar de Nicolau e que, sem dúvida, se esclarecerão quando seu meio doutrinal for melhor conhecido.

1° L., p. 31*, l. 8: quod hec propositio: homo est animal, non est necessaria secundum fidem, non attendens pro tunc connexionem necessariam predictorum terminorum;

2° L., p. 31*, l. 14; p. 41*, l. 22; cf. p. 41*, l. 24: quod Deus et creatura non sunt aliquid. Proposição reprovada em 29 de dezembro de 1340: quod nullus asserat, quoniam «Socrates et Plato», vel «Deus et creatura nichil sunt», absque distinctione vel expositione, quia illa verba prima facie male sonant, et quia talis propositio unum sensum habet falsum, videlicet si negatio in hac dictione «nichil» implicita intelligeretur cadere non solum super ens singulariter, sed et supra entia pluraliter. Denifle, Chartul. Univ. Paris., t. II a, p. 506-507; L., p. 47*, n. 7;

3° L., p. 34*, l. 12; p. 37*, l.

15: quod contradictoria ad idem invicem significant; propositiones: «Deus est», «Deus non est», penitus idem significant. Tema retomado por Pedro d’Ailly, que escreve a esse propósito, sobre Nicolau, quod multa fuerunt condemnata contra eum causa invidiae. Prantl, Geschichte der Logik im Abendlande, t. IV, Leipzig, 1870, p. 112, n. 470;

4° L., p. 40*, l. 33; p. 41*, l. 31; p. 42*, l. 1 e l. 12, paradoxos morais cujo estudo de João de Mirecourt permitiria esclarecer, ao menos, uma parte.

Os textos publicados e os estudos essenciais (Lappe, Gilson) já foram citados em nosso estudo. Encontrar-se-á uma lista completa em Ueberweg-Geyer, Grundriss der Geschichte der Philosophie, t. II, 11e édition, 1923, p. 783. Esperamos que a essa lista se possa juntar em breve a edição do tratado Exigit ordo, preparada por A. Birkenmayer, que renovará nosso conhecimento sobre Nicolau de Autrecourt.

P. Vignaux.

A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor