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Análise | À medida que as big techs dominam Hollywood, as histórias ficam mais sombrias

Fonte: estadao.com.br | Data: 21/10/2026 18:15:57

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Confira o teaser de ‘The Social Reckoning’, sequência de ‘A Rede Social’, com Jeremy Strong

Roteirista do filme original, Aaron Sorkin dirigirá novo capítulo da polêmica história de Mark Zuckerberg. Crédito: Sony Pictures Entertainment via YouTube/Reprodução

É difícil lembrar disso, mas antes do lançamento de A Rede Social, em 2010, o ceticismo era geral. Quem iria querer assistir a um filme sobre um site?

A resposta foi: todo mundo. O longa foi um grande sucesso de bilheteria e venceu três Oscars, incluindo o de Melhor Roteiro Adaptado para Aaron Sorkin. Nos anos seguintes, figurou consistentemente entre os melhores filmes da década, alcançando a 10ª posição na lista do The New York Times sobre as melhores produções do século 21.

Algo naquele filme sobre um site — e, mais importante, sobre a psicologia de seu fundador — ressoou com quase todo o público. Pode-se dizer até que a obra inaugurou um novo gênero: o filme de fundadores de tecnologia.

Neste segundo semestre, esse gênero entra em uma nova fase, que reflete a crescente desconfiança e o ressentimento em relação aos magnatas da tecnologia. Em outubro, a continuação escrita por Sorkin, O Outro Lado das Redes, chega aos cinemas (a estreia no Brasil será na quinta-feira, 22); a série Cupertino estreia na CBS; e Artificial, do diretor Luca Guadagnino, fez sua estreia mundial no Festival de Cinema de Nova York. As três produções adotam uma visão muito mais sombria do Vale do Silício do que A Rede Social e seus sucessores — uma evolução bastante reveladora. A indústria do entretenimento costumava celebrar os fundadores — ou ao menos respeitar seu talento e determinação. Agora, porém, eles costumam ser retratados com deboche, repulsa e até raiva.

Jeremy Strong como Mark Zuckerberg, em uma cena de ‘O Outro Lado das Redes’

 

Foto: Leah Gallo/Sony Pictures via AP

Enquanto eles estavam ocupados em “mover-se rápido e quebrar coisas”, como diria Mark Zuckerberg, nós nos tornamos cada vez mais indignados com o mundo que eles construíram. Mas, à medida que a tecnologia se apodera de Hollywood, não há garantias — como aprendemos no caso de Artificial — de que essa realidade continuará sendo exibida nas telas no futuro.

O arquétipo do fundador de tecnologia como um gênio excêntrico e contracultural já havia se estabelecido décadas antes de A Rede Social. Livros como Fire in the Valley: The Making of The Personal Computer e Hackers: Heroes of the Computer Revolution (Os Heróis da Revolução, título em português), ambos lançados em 1984, contavam histórias de jovens entusiastas da computação, quase todos homens, que se trancavam em laboratórios e garagens para criar microcomputadores destinados ao uso de pessoas comuns. Bill Gates na Microsoft, e Steve Jobs e Steve Wozniak na Apple, alimentavam com prazer as próprias lendas enquanto erguiam seus impérios.

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Os três foram o centro do que talvez seja o único filme anterior a A Rede Social no gênero: o telefilme de 1999 Piratas do Vale do Silício. Em uma das primeiras cenas, Wozniak e Jobs (interpretados por Noah Wyle e Joey Slotnick), de cabelos compridos, correm pelo campus de Berkeley durante um confronto entre policiais e estudantes em um protesto contra a Guerra do Vietnã, em 1971. Eles estavam interessados em uma revolução, mas não naquele tipo.

“Aquelas crianças acham que são revolucionárias. Elas não são revolucionárias, nós somos”, diz Jobs. Esses jovens rebeldes, com sua ética hacker de exaltação a sistemas abertos e informação acessível a todos, alimentavam a crença de que mudariam o mundo — e de que essa mudança seria boa para a humanidade.

Interpretado por Jesse Eisenberg em A Rede Social, Zuckerberg é uma versão desses rapazes, só que uma geração depois. O filme o trata de forma tanto irritante quanto instigante; de certa forma, o espectador torce por ele. Assim como Gates, Wozniak e Jobs, ele larga a faculdade para construir sua empresa no Vale do Silício. E, como eles, é um presunçoso, um exibido. Mas ele não está interessado em dinheiro: está ali pelo amor ao jogo.

Na continuação, O Outro Lado das Redes, Jeremy Strong assume o papel de Zuckerberg. O filme aborda os bastidores que antecederam o bombástico vazamento de documentos em 2021, revelando que os executivos da empresa sabiam dos diversos danos que suas plataformas causavam à saúde mental dos usuários e à estabilidade social. É seguro dizer que o tom ligeiramente admirativo do primeiro filme deu lugar a algo bem mais sombrio.

A evolução do gênero

Essa mudança de tom reflete a evolução de todo o gênero. O sucesso de A Rede Social desencadeou uma avalanche de séries e filmes sobre inventores de computadores, softwares e aplicativos — alguns fictícios, outros não. Em abril de 2014, a HBO estreou Silicon Valley, uma comédia satírica sobre uma startup. Dois meses depois, Halt and Catch Fire, ambientada no início da revolução dos computadores pessoais, estreou no canal AMC. Enquanto isso, Jobs, morto em 2011, foi tema de dois longas: Jobs (2013), estrelado por Ashton Kutcher, e Steve Jobs (2015), com Michael Fassbender no papel principal e roteiro assinado por Sorkin.

Essas e outras produções seguiram a mesma estrutura mitológica de A Rede Social. Fundadores geniais, excêntricos e muitas vezes agressivos (ou abusivos) discursam sobre mudar radicalmente o mundo, em geral sob justificativas altruístas. Eram tratados quase como figuras problemáticas, mas adoráveis. Mesmo Steve Jobs, talvez a obra mais abertamente crítica sobre seu biografado, acabou lapidando a imagem do empresário, em vez de desconstruí-la.

Essas obras são vestígios de uma época — provavelmente a última — em que ainda era possível afirmar que as redes sociais traziam um saldo positivo sem soar ingênuo demais.

O desencanto do público com as gigantes da tecnologia pode ser atribuído ao escândalo da consultoria Cambridge Analytica. Em 2014, a empresa usou um teste no Facebook para coletar dados sem o consentimento dos usuários. O Facebook descobriu a violação e solicitou a exclusão das informações, mas não informou os usuários. Os dados acabaram sendo usados para apoiar as campanhas presidenciais de Donald Trump e Ted Cruz em 2016. Quando um ex-funcionário da Cambridge Analytica fez a denúncia, dois anos depois, a indignação foi geral.

Foi nesse momento que a narrativa mudou. Em 2017, foi lançado O Círculo, filme baseado na ficção distópica de Dave Eggers sobre uma empresa que mesclava elementos do Google e do Facebook. Em seguida, veio uma onda de documentários e séries de ficção sobre magnatas da tecnologia: The Dropout (Hulu), sobre Elizabeth Holmes e a Theranos; WeCrashed (Apple TV+), sobre Adam Neumann e a WeWork; e Super Pumped (Showtime), baseada no livro do jornalista do Times Mike Isaac sobre Travis Kalanick e a Uber — todas lançadas em 2022. Quando essas produções foram ao ar, os três executivos já haviam caído em desgraça.

O novo arquétipo passou a ser o de uma ameaça narcisista e amoral, indiferente à ética e às leis, desde que o preço das ações continuasse subindo. A conclusão permanecia a mesma: nós, o público, somos as vítimas. O fundador visto como gênio havia se transformado no fundador visto como vigarista.

O gênero agora se encontra em um ponto de inflexão. A cultura pop já não idolatra os fundadores a ponto de retratar os personagens que os admiram como meros aduladores ou seguidores cegos.

Outra força em jogo

A sátira Mountainhead (2025) é emblemática desse momento: escrita e dirigida por Jesse Armstrong (criador de Succession), a trama gira em torno de quatro fundadores bilionários fictícios que se consideram os donos do mundo, tendo como pano de fundo o caos global provocado por um aplicativo de inteligência artificial gerador de imagens. Enquanto jantam, vangloriam-se e citam filósofos, certos do próprio poder, o espectador percebe o quanto eles são vazios e ridículos. Na mesma linha, a série The Audacity, lançada em 2026 pelo canal AMC, adota um tom muito mais sombrio do que suas predecessoras. E O Outro Lado das Redes chega aos cinemas no momento em que a Meta, controladora do Facebook, concordou em pagar até US$ 17,1 bilhões em multas por violar leis federais de privacidade infantil e de proteção ao consumidor. A empresa de Zuckerberg terá de fazer mudanças profundas em seus produtos, como parte de um acordo histórico firmado com 47 estados americanos.

Mas, se a atitude do público em relação a figuras como Zuckerberg ou Elon Musk azedou, outra força entrou em jogo.

Em 2010, nenhum grande estúdio de cinema pertencia a uma empresa de tecnologia. A Sony, que distribuiu A Rede Social, era quem mais se aproximava disso — uma gigante dos eletrônicos com uma divisão de mídia. A Netflix ainda não produzia conteúdo original e dava seus primeiros passos no streaming. O Amazon Prime Video já existia, assim como o Hulu, focado na transmissão no dia seguinte de episódios da TV aberta. O grande avanço do streaming, contudo, só viria em 2020.

Hoje, a fronteira entre Hollywood e o Vale do Silício borrou-se a ponto de desaparecer. Os algoritmos ditam as regras. A inteligência artificial é, ao mesmo tempo, celebrada e temida. A Netflix juntou-se à Motion Picture Association (MPA) — a associação comercial dos grandes estúdios de Hollywood — em 2019. Outros membros da MPA têm vínculos com a Big Tech (caso da Paramount Pictures, adquirida pelo CEO da Oracle, Larry Ellison, e por seu filho, David – e consequentemente da Warner Bros. Discovery, recém-comprada pela Paramount) ou são pura e simplesmente empresas de tecnologia, como a Amazon MGM, criada quando a Amazon comprou o estúdio histórico. Mesmo Disney e Universal, que ainda mantêm operações sólidas nos cinemas, concentram esforços em suas plataformas de streaming, impulsionadas por dados de usuários e algoritmos proprietários.

Essa transformação traz consequências. Em junho, a Amazon MGM confirmou ter engavetado Artificial, longa de Guadagnino estrelado por Andrew Garfield no papel de Sam Altman, cofundador da OpenAI. A imprensa especializada informou que o filme estava quase pronto e havia sido muito bem avaliado em sessões de teste. Um porta-voz da Amazon disse à revista Variety que Artificial seria “melhor aproveitado se fosse lançado por outro estúdio”.

O momento foi propício. Em fevereiro, a Amazon fechara um acordo para expandir o uso dos serviços de hospedagem web da empresa pela OpenAI, além de desenvolver modelos personalizados de IA, após investir US$ 50 milhões na empresa de tecnologia.

Outros estúdios consideraram comprar Artificial, incluindo a produtora independente A24, que parecia uma escolha natural. Contudo, entre os financiadores da empresa está a Thrive Capital, de Josh Kushner — também investidora da OpenAI — e, desde junho, a divisão de IA do Google, DeepMind, que aportou cerca de US$ 75 milhões na A24. No fim, a distribuidora Neon adquiriu o filme, que terá um lançamento limitado nos cinemas no fim deste ano, antes da estreia ampla no início de 2027.

Assim, por um lado, o gênero parece viver uma ascensão nesta temporada. Por outro, a saga de Artificial é pedagógica. Se as gigantes da tecnologia continuarem investindo no entretenimento, as plataformas terão espaço para contar histórias desfavoráveis sobre fundadores, agora que tantas delas respondem justamente a eles?

Jobs, Gates, Wozniak e Zuckerberg se consideravam revolucionários, subvertendo a autoridade e mudando o mundo. Mas a transição de A Rede Social para O Outro Lado das Redes revela o que veio a seguir. Agora, os rebeldes se tornaram autocratas e tentam tomar conta de tudo. Os fundadores de tecnologia de fato mudaram o mundo. Mas os filmes sobre eles mostram, quase sempre, que estamos profundamente indignados com o mundo que eles construíram.

Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times, em 8 de outubro de 2026.

Este conteúdo foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.

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