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O valor das hidrelétricas além do MWh

Fonte: megawhat.uol.com.br | Data: 22/10/2026 08:13:22

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*Conteúdo oferecido pela Abragel

O sistema elétrico brasileiro está mudando, e isso também transforma a forma como vemos as hidrelétricas de pequeno porte.

Por muito tempo, a discussão sobre PCHs, CGHs e UHEs com potência inferior a 50 MW se concentrou na quantidade de energia produzida. Essa medida continua importante, mas já não basta para compreender o papel dessas usinas no sistema elétrico brasileiro nas próximas décadas.

A aprovação do Plano Nacional de Energia 2055 (PNE 2055[1]) ajuda a contextualizar essa discussão. O plano não é uma previsão do futuro nem estabelece metas de expansão. Ele apresenta cenários para o desenvolvimento energético do país e aponta tendências importantes. A demanda por eletricidade pode crescer mais do que quatro vezes até 2055, enquanto a geração elétrica poderá atingir até 99% de fontes limpas. Nesse horizonte, a expansão da transmissão será essencial para sustentar um sistema maior, mais renovável e complexo.

Com o avanço das fontes eólica e solar e dos recursos energéticos distribuídos, a operação do Sistema Interligado Nacional (SIN) passa a exigir mais do que energia. Potência, flexibilidade, confiabilidade, resiliência e capacidade de resposta ganham peso no planejamento e na operação. Embora relacionados, esses atributos não são equivalentes. A questão é: como reconhecer o valor dos atributos que uma fonte oferece além do megawatt-hora (MWh) que produz?

Mudanças projetadas reduzem a participação das hidrelétricas, mas não sua relevância

Os cenários do PNE 2055 reafirmam o papel estratégico da geração hidrelétrica no atendimento às necessidades de energia e potência do SIN, incluindo a modernização e repotenciação de usinas existentes e alternativas como as hidrelétricas reversíveis. embora a expansão de outras fontes reduza a participação percentual da geração hidráulica na matriz, ganham relevância seus atributos para a flexibilidade operativa, a segurança do suprimento e o atendimento à demanda de potência.[2].

Essa análise também exige considerar que a contribuição de cada hidrelétrica varia conforme porte, localização e condições operativas. Por isso, as pequenas centrais merecem atenção no planejamento da expansão, não apenas pela energia que produzem, mas também pelo que podem oferecer à operação do sistema. O leilão de energia nova A-5 de 2025 cadastrou 241 projetos hidrelétricos, quase 3 GW em 15 estados. Ao final, 65 empreendimentos foram contratados, somando mais de 815 MW[3]. Segundo modelagens do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a cada 100 MW de capacidade instalada em PCHs, CGHs e UHEs com potência inferior a 50 MW, cerca de 45 MW contribuem para o atender à ponta da demanda. Trata-se de uma estimativa agregada, não da contribuição individual de cada usina, que evidencia o papel desses empreendimentos no atendimento às necessidades de potência do sistema elétrico (Figura 1):

Figura 1 – Contribuição estimada das PCHs, CGHs e UHEs com potência inferior a 50 MW para o atendimento da ponta da demanda.

Isso não significa que toda pequena hidrelétrica seja sinônimo de flexibilidade. Cada empreendimento tem características próprias de reservatório, afluência, localização, conexão e operação. Disponibilidade de potência e flexibilidade operacional são atributos distintos e devem ser avaliados segundo as condições efetivas de cada usina.

O essencial é compreender essas diferenças. Uma usina pode contribuir mais para atender à ponta, enquanto outra pode apresentar características operativas relevantes em determinadas condições operativas. A localização também pode importar diante de restrições de transmissão ou necessidades específicas da rede. Em outros, o valor está na combinação de atributos.

A pergunta, portanto, muda: em vez de considerar apenas quanto uma usina gera, cabe avaliar o que ela oferece ao sistema, em que momento e com que qual valor.

Isso não reduz a importância do MWh, essencial à sustentabilidade econômica de qualquer projeto. Mas, com mais fontes variáveis, crescimento da geração solar distribuída e novas exigências de infraestrutura, o valor de uma usina passa a envolver diferentes dimensões do atendimento às necessidades do SIN.

O PNE 2055 não traz uma resposta específica para hidrelétricas de pequeno porte, mas ajuda a delinear o sistema que se projeta: maior, mais eletrificado, renovável e complexo. Nele, a energia divide espaço com potência, flexibilidade, confiabilidade, resiliência e outros atributos que precisam ser melhor compreendidos e, sobretudo, valorizados.

É nesse debate que as centrais hidrelétricas precisam estar presentes. Não apenas para manter seu espaço na matriz, mas para identificar quais atributos serão cada vez mais importantes e quais empreendimentos conseguem efetivamente oferecê-los. Essa agenda pode ser mais relevante do que discutir apenas quanta e nova capacidade hidrelétrica será contratada nos próximos anos.

No sistema de 2055, a questão não será apenas se a hidrelétrica de pequeno porte ainda terá espaço, mas quanto vale tudo que essas usinas conseguem entregar além do MWh.


[1] EPE — Plano Nacional de Energia 2055
[2] EPE — página de publicações do PNE 2055
[3] EPE — Leilão de Energia Nova A-5 de 2025: informe de habilitados e vencedores