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O SUS está em jogo

Fonte: cartacapital.com.br | Data: 22/10/2026 14:05:52

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O sobrenome Bolsonaro não é apenas uma identidade familiar. Representa um projeto político que já governou o Brasil e demonstrou, concretamente, como trata a ciência e os direitos sociais

Por

Arthur Chioro



22.10.2026 13h53


Há eleições em que escolhemos governos. Em outras, decidimos também que país queremos ser. O segundo turno de 2026 nos coloca diante dessa encruzilhada. Não se trata apenas de uma disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, mas entre dois projetos antagônicos de sociedade, de democracia e de saúde pública. Desde 1988, quando foi criado, este é o momento mais crítico para o SUS, em que o direito universal à saúde e à gratuidade estão seriamente sob risco. O manifesto subscrito por nove ex-ministros da Saúde, do qual sou signatário, expressa uma advertência que não pode ser ignorada: “Um sistema de saúde não acaba de uma vez”. Sua destruição acontece silenciosamente, quando faltam vacinas, medicamentos, profissionais e atendimento. Quando direitos são transformados em privilégios. Quando a vida deixa de ser prioridade do Estado.

Conhecemos essa história. E sabemos quanto custou ao povo brasileiro. Durante o governo de Jair Bolsonaro, assistimos à mais grave crise de coordenação nacional do SUS desde a sua criação. O negacionismo científico tornou-se política de Estado. A vacinação foi desacreditada, medidas de proteção foram sabotadas e a solidariedade substituída pelo desprezo à vida. Mais de 700 mil brasileiros morreram na pandemia, em uma tragédia cuja dimensão poderia ter sido substancialmente reduzida. Mas a destruição não se limitou à Covid-19. O Programa Nacional de Imunizações foi enfraquecido, o Mais Médicos, o SAMU e o Brasil Sorridente, desestruturados, o Farmácia Popular, esvaziado. Políticas construídas em décadas, por governos de diferentes orientações, foram submetidas ao obscurantismo ideológico e à irresponsabilidade administrativa. É impossível analisar a candidatura de Flávio Bolsonaro ignorando esse legado. O sobrenome não é apenas uma identidade familiar. Representa um projeto político que já governou o Brasil e demonstrou, concretamente, como trata a ciência, as instituições e os direitos sociais.

Desde 2023, sob a liderança de Lula e Alckmin, o Brasil iniciou um vigoroso processo de reconstrução. Recuperamos coberturas vacinais, ampliamos o Mais Médicos, fortalecemos o Farmácia Popular e alcançamos recordes de cirurgias e transplantes. Recolocamos a ciência, o planejamento e a responsabilidade pública no centro das decisões sanitárias. Não significa que todos os problemas estejam resolvidos. As filas persistem, o subfinanciamento estrutural continua exigindo respostas e as desigualdades territoriais ainda limitam o acesso oportuno ao cuidado. Defender o SUS exige reconhecer suas insuficiências, enfrentar seus problemas e não aceitar que sejam utilizados como pretexto para desmontá-lo.

O que distingue os projetos em ­disputa é precisamente a direção escolhida para enfrentar esses desafios. Lula compreende que saúde não é despesa a ser contida, mas direito constitucional, investimento social e condição para o desenvolvimento nacional. A retomada do Complexo Econômico-Industrial da Saúde, os investimentos na produção nacional de medicamentos e vacinas, a expansão da atenção especializada e a incorporação responsável de novas tecnologias apontam para um SUS mais resolutivo, soberano e preparado para o futuro. Não há soberania nacional sem soberania sanitária. Tampouco existe democracia quando milhões de brasileiros dependem exclusivamente de um sistema público permanentemente ameaçado.

O manifesto dos ex-ministros não é uma iniciativa corporativa. Reúne pessoas que conheceram, por dentro, a complexidade de governar a saúde brasileira. É um testemunho histórico e um compromisso ético com as próximas gerações. Seu alerta ultrapassa divergências partidárias: não podemos permitir que o Brasil retorne ao tempo em que a ciência era desprezada e a morte banalizada.

Participei da construção do SUS quando era estudante de medicina. Dediquei minha trajetória à defesa dessa conquista civilizatória. Aprendi que o SUS não pertence a governos ou partidos. Pertence ao povo. Mas sua existência e seu fortalecimento dependem de escolhas políticas. Por isso, meu voto e meu compromisso são com Lula. Não por adesão acrítica a um governo, mas pela convicção de que sua candidatura representa a possibilidade concreta de aprofundar o desenvolvimento do SUS, defender a democracia e fazer da vida uma prioridade inegociável. O Brasil já pagou um preço demasiadamente alto pelo negacionismo e pela irresponsabilidade. A memória das vidas perdidas exige que não voltemos atrás. O futuro do SUS exige que sigamos em frente. •

Publicado na edição n° 1436 de CartaCapital, em 28 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O SUS está em jogo’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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