Rodrigo Nunes: ‘Plataformas digitais são máquinas de fazer a nossa cabeça’
Fonte: oglobo.globo.com | Data: 23/10/2026 04:53:46
Autor lança nova edição de ‘Do transe à vertigem’ incluindo temas atuais como ‘colonização da política pela economia da atenção’ e a centralidade da ‘hipermasculinidade’ para a extrema direita
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Anos atrás, viralizou uma reportagem sobre a revolta de moradores de Paripe, na periferia de Salvador, que tinham comprado ingressos para ver a dupla de palhaços Patati Patatá. Na hora do espetáculo, descobriu-se que o promotor do evento havia contratado dois impostores para entreter o público, que bradava diante das câmeras de TV: “Queremos meu dinheiro!” Num dos textos inéditos incluídos na nova edição ampliada de “Do transe à vertigem: ensaios sobre a extrema direita e um mundo em transição”, o filósofo Rodrigo Nunes enxerga no grito de guerra dos populares um dilema político do nosso tempo: a dificuldade de articular lutas coletivas. O propósito comum indicado pela primeira pessoa do plural (“queremos”) é imediatamente reduzido a interesses privados, o “meu dinheiro”.
As referências à alta e a baixa cultura são recorrentes nas análises de Nunes, que é professor da PUC-Rio e se notabilizou por sua interpretação original da ascensão da extrema direita mundial a partir do caso brasileiro. Publicado originalmente em 2022, “Do transe à vertigem” (UBU) já saiu em inglês e espanhol, chegará em breve ao italiano e uma edição coreana está em negociação. O título se refere a dois filmes: “Terra em transe” (1967), de Glauber Rocha, e “Democracia em vertigem” (2019), de Petra Costa. No primeiro, a esquerda é convidada à autocrítica após o golpe de 1964; no segundo, a reafirmar suas posições na ressaca do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016.
Na nova edição do livro, Nunes inclui análises sobre a centralidade da “hipermasculinidade” para a extrema direita e a “colonização da política pela economia da atenção”. Em entrevista ao GLOBO, ele apresentou uma hipótese original para explicar o retorno da ditadura militar no cinema brasileiro contemporâneo.
Você afirma que, para entender o negacionismo, é preciso entender qual é a demanda a que a oferta de fake news responde. Por quê?
Precisamos perguntar a que necessidades psicológicas a desinformação e as teorias da conspiração atendem. Existe uma demanda pelo que Freud chamou de renegação: a necessidade inconsciente de recusar uma realidade traumática. A extrema direita acolhe a ansiedade produzida pelo aquecimento global, pela desigualdade e pela perda de direitos, mas atribui suas causas a elementos imaginários: uma conspiração entre chineses e cientistas, uma rede de bilionários pedófilos, os imigrantes e as minorias.
O que você chama de “colonização da política pela economia da atenção”?
Vivemos as plataformas digitais como se fossem lugares onde expressamos opiniões e ninguém faz a nossa cabeça. Mas elas são máquinas de fazer a nossa cabeça, de produzir subjetividade por meio de algoritmos que respondem a interesses econômicos. O objetivo imediato é manter o engajamento para vender dados e propaganda. Cada vez mais, os proprietários das plataformas tomam partido politicamente, o que se reflete no conteúdo mostrado. Toda hora um tema diferente está em discussão, nada se fixa por tempo suficiente para manter a adesão das pessoas e permitir a construção de um movimento de longo prazo que desafie o status quo.
Você diz que as plataformas estruturam nossa experiência da esfera pública como um mercado. Pode explicar?
Nas plataformas, competimos por atenção, por likes, que podem ser convertidos em capital econômico: convites para eventos, palestras, publis. Somos gestores da nossa marca pessoal, usando as métricas para medir o que dá certo ou errado. Essa dinâmica produz uma hiperindividualização que facilita o advento do que chamo de empreendedor político, aquele que converte atenção em capital econômico e depois em capital político. É o que vimos na eleição: influenciadores virando políticos.
Por que o que você chama de “hipermasculinidade” é central para o avanço da extrema direita?
Trata-se de uma masculinidade reativa, uma resposta a uma crise social global. Cada vez mais jovens chegam à idade adulta sem conseguir sair da casa dos pais ou ter um emprego fixo, frustrando as expectativas que a masculinidade tradicional inspira neles. Ao mesmo tempo, são cobrados a se desconstruir, rever seus privilégios. E reagem dizendo: “Pô, ninguém está cuidando de mim, por que eu tenho que me preocupar com os outros? Eu quero o meu privilégio.” É a reivindicação do que chamo de um direito à indiferença. Enquanto essas condições persistirem, a crueldade, a violência, a insensibilidade e a indiferença dessa hipermasculinidade vão continuar tendo atrativo para muita gente.
Você contrapõe “Terra em transe” e “Democracia em vertigem”. O que “Ainda estou aqui” e “O agente secreto” dizem sobre o horizonte político do progressismo brasileiro?
Gosto muito dos dois filmes, principalmente de “O agente secreto”, que traz elementos novos para a filmografia sobre a ditadura, como a perspectiva pernambucana. O filme mostra como, numa ditadura, você está sujeito não apenas aos arbítrios do Estado, mas também aos de pessoas com boas conexões com o aparato estatal. Por mais que seja importante retomar a memória da ditadura, é difícil não sentir que ela também é uma zona de conforto para a esquerda. É como Hollywood voltar aos nazistas. É um momento que dispensa nuances, em que bem e mal são claramente definidos e não se pode culpar o bem por suas falhas, porque existe uma assimetria de poder muito grande.
É mais fácil revisitar a ditadura do que refletir sobre a história recente?
Depois do impeachment, me pareceu sintomático que as principais imagens da iconografia da esquerda fossem a Dilma jovem e o Lula jovem, ambos presos pela ditadura. Era mais confortável pensar nos dois como radicais perseguidos do que perguntar como suas decisões no poder contribuíram para o enfraquecimento do projeto político que representavam. É mais fácil se projetar num passado distante, em que as linhas de demarcação eram claras e a responsabilidade da esquerda pelo próprio destino era menor. É curioso que nem o cinema nem a literatura tenham se debruçado sobre o Brasil da última década. Estou escrevendo um romance que se passa nesse período.
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