Pesquisa inédita sobre cinema feito por mulheres indígenas será lançada na Mostra SP
Fonte: revistadecinema.com.br | Data: 26/10/2026 15:24:47
Falantes de 35 línguas indígenas estão entre as 60 cineastas ouvidas por “Ler o Vento, Filmar o Mundo – Pesquisa-mapeamento do cinema das mulheres indígenas no Brasil”. Pertencentes a 40 povos e provenientes de todas as regiões do país, essas realizadoras mostram que têm modos próprios de criar imagens.
Apresentada pela Rede Katahirine como a primeira pesquisa nacional dedicada ao cinema realizado por mulheres indígenas, a publicação será lançada nesta terça-feira, 27 de outubro, na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, na Livraria da Travessa.
Na mesma atividade, a Rede lança também “Diretrizes para um Audiovisual Ético com Povos Indígenas”, publicação que propõe relações mais justas e respeitosas entre povos indígenas, instituições, festivais, curadorias, produtoras e profissionais do setor audiovisual.
Os filmes indígenas estão nas telas, nas plataformas de streaming e nas salas de cinema. E a produção já não está restrita a mostras especializadas. “Mundurukuyü – A Floresta das Mulheres Peixe”, dirigido por Aldira Akay, Beka Munduruku e Rilcélia Akay, estreou comercialmente em agosto, com sessões anunciadas em Brasília, Santarém, Belém, Rio de Janeiro e São Paulo. Falado em língua Munduruku, o documentário acompanha mulheres da aldeia Sawré Muybu, às margens do Tapajós, articulando cosmologia, cotidiano e defesa do território.
Os dados de “Ler o Vento, Filmar o Mundo” revelam um campo artístico consolidado, mas ainda marcado por barreiras estruturais. Entre as 60 cineastas ouvidas, 81,7% já apresentaram filmes em mostras ou festivais, demonstrando que suas obras circulam e conquistam reconhecimento.
Ao mesmo tempo, 71,7% já começaram a ler um edital e desistiram de concorrer. Entre as razões apontadas estão a burocracia, mencionada por 70% das entrevistadas, o não atendimento aos requisitos exigidos, citado por 43%, e a linguagem inacessível, por 41%.
As dificuldades alcançam a preservação: 65% das cineastas já perderam algum material audiovisual. Esses arquivos podem conter registros de línguas, cantos, rituais, depoimentos de pessoas que morreram.
Juntos, os números mostram que o problema não é a ausência de cineastas, filmes ou públicos, mas a falta de estruturas capazes de financiar, fazer circular e preservar essa produção.
O levantamento também aponta uma contradição entre a formação criativa das cineastas e as exigências burocráticas do sistema de fomento. Entre as entrevistadas, 78,3% já tiveram formação em câmera, 70% em roteiro e 58,3% em direção. Por outro lado, somente 21% tiveram formação em orçamento e 23,3% em prestação de contas.
Um dos eixos centrais da publicação é a afirmação de que cinema indígena não designa somente filmes sobre pessoas ou territórios indígenas. É também um modo próprio de realizar cinema.
Esse modo de fazer envolve o tempo da escuta, a relação com o território, a criação coletiva e os protocolos de cada povo sobre o que pode ser filmado, preservado ou compartilhado. O cotidiano da comunidade e o respeito ao tempo de cada pessoa determinam o processo de produção, e não o contrário.
Nesse cinema, a comunidade não é apenas cenário ou personagem. Ela participa da realização e é, frequentemente, o primeiro público do filme. As exibições nas próprias comunidades aparecem em 71,7% das respostas, atrás somente das mostras e festivais, mencionados por 78,3%. Escolas, universidades e cineclubes também estão entre os principais espaços de circulação.
A segunda publicação, lançada no Festival de Brasília e agora na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, “Diretrizes para um Audiovisual Ético com Povos Indígenas”, nasce das experiências vividas por mulheres indígenas em produções, festivais, curadorias, instituições e diferentes relações de trabalho.
O documento reúne orientações destinadas a profissionais e organizações do setor audiovisual. Seu objetivo é prevenir práticas discriminatórias, exploratórias e desiguais e estimular parcerias baseadas na escuta, no cuidado, na reciprocidade, na remuneração justa e no reconhecimento dos modos indígenas de fazer e pensar cinema.
O lançamento das duas publicações, cria um marco para essa conversa dentro de um dos principais espaços de reconhecimento do cinema nacional. A atividade de lançamento reúne autoras e realizadoras ligadas à Rede Katahirine em um bate-papo sobre as descobertas do mapeamento, os modos indígenas de fazer cinema e as mudanças necessárias nas relações entre os povos indígenas e o setor audiovisual. Mari Correa, Francy Baniwa e Natali Mamani compõem o bate-papo no dia do lançamento, 27 de outubro, às 17h, no Solar Fábio Prado (Av. Brigadeiro Faria Lima, 2705, Jardim Paulistano, São Paulo).