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El Niño 2026/2027: Embrapa indica ações contra seca no Nordeste

Fonte: mais.opovo.com.br | Data: 27/10/2026 02:10:37

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DOCUMENTO reúne 163 medidas para a gestão de riscos climáticos na agropecuária (Foto: JÚLIO CAESAR)
Foto: JÚLIO CAESAR
DOCUMENTO reúne 163 medidas para a gestão de riscos climáticos na agropecuária

Diante da probabilidade de o Nordeste enfrentar períodos de escassez de chuvas e elevação de temperaturas devido ao El Niño 2026/2027, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) detalhou um plano com medidas de enfrentamento à estiagem.

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Dentre as ações anunciadas, destacaram-se a ampliação de estruturas de captação e armazenamento de água, o uso do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) para as escolhas dos períodos de plantio, o cultivo de espécies mais resistentes (como o sorgo e a palma-forrageira) e a formação antecipada de reservas de forragem para a pecuária.

As recomendações integram uma Nota Técnica entregue ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), elaborada por especialistas da Embrapa e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

O documento reúne 163 medidas para a gestão de riscos climáticos na agropecuária, sendo 14 transversais, 139 específicas para cada segmento produtivo e 10 voltadas a ações institucionais e políticas públicas.

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Conforme o estudo, o objetivo é antecipar decisões para reduzir a vulnerabilidade dos sistemas agropecuários e mitigar as perdas de produtividade causadas pelo estresse hídrico e térmico.

Na avaliação do presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Ceará (Faec), Amílcar Silveira, as recomendações estão em linha com o esperado. Também reforçou que a entidade já trabalha junto aos produtores.

“O produtor rural precisa organizar e guardar forragens, porque a seca vai vir uma hora ou outra e a melhor forma de conviver com a seca é guardar comida e água. Então essa é nossa recomendação (…) guardar comida, inclusive plantar resistência a seca, como é o caso da palma forrageira e algumas variedades de mandioca. A nossa orientação aqui é que se preparem”, comenta.

Sobre a possibilidade de substituir culturas como o milho, que é considerado uma safra de risco, por cultivos como sorgo, ele defende que a maior segurança será vital para assegurar os investimentos.

“Sorgo é um produto que contém mais garantias de se conviver com o período de estiagem. Sendo seca severa, naturalmente podemos ter uma quebra de safra. É isso que a gente não quer, pedir a Deus que não aconteça, porque vai dificultar muito a vida do produtor rural, mas pode acontecer”, diz ainda.

Planejamento é a principal estratégia contra riscos

Para conter os prejuízos causados pelo fenômeno climático, a Embrapa orienta que a principal linha de ação deve ser o planejamento.

Ajustar a produção à disponibilidade de recursos e à capacidade de suporte da propriedade, conservar o solo, usar a água de forma eficiente, formar reservas, diversificar a produção e acompanhar o clima são apontados como caminhos essenciais para reduzir a vulnerabilidade do setor.

Em relação à segurança hídrica, a instituição defende a expansão da infraestrutura de captação, do armazenamento e do uso eficiente dos recursos por meio de cisternas, barreiros-trincheira e barragens subterrâneas, além do aproveitamento da água da chuva e de métodos de reúso, como o sistema Bioágua Familiar.

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Na produção agrícola, as diretrizes enfatizam a necessidade de alinhar as atividades às janelas de plantio estabelecidas pelo Zarc, priorizando o cultivo de variedades geneticamente adaptadas à realidade local e o escalonamento da semeadura. Em locais onde o cultivo do milho apresenta alto risco de perda devido à seca, por exemplo, a substituição pelo sorgo é recomendada como alternativa mais resistente.

No manejo do solo, as orientações focam na conservação da umidade e na proteção contra a erosão e a evaporação excessiva.

A recomendação inclui manter a superfície coberta por vegetação viva ou palhada (cobertura morta), reduzir o revolvimento da terra, incorporar matéria orgânica e adotar técnicas que favoreçam a infiltração e a retenção hídrica, diminuindo as perdas por escoamento superficial.

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Para a pecuária, o foco está na prevenção do desabastecimento alimentar dos rebanhos, com a conservação dos estoques de forragem, a formação de bancos estratégicos de palma-forrageira e a adequação da taxa de lotação dos pastos à capacidade real de suporte de cada propriedade.

Projeções apontam seca e temperaturas elevadas

A Embrapa projeta para o fim deste ano e início de 2027 uma maior probabilidade de chuvas abaixo da média e temperaturas elevadas no Nordeste, com aumento dos riscos de déficit hídrico, ondas de calor e queimadas. Os impactos devem ser mais sentidos no primeiro semestre do próximo ano, período decisivo para a quadra chuvosa da Região.

O estudo aponta que esse cenário é esperado mesmo com a Região em uma situação hídrica superior à do episódio de 2015/2016. Em agosto daquele ano, os reservatórios do Nordeste armazenavam cerca de 23% da capacidade. Em 2026, o volume está próximo de 51%.

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Apesar de a condição inicial ser mais favorável, a estatal alerta que chuvas irregulares ou insuficientes podem comprometer a recarga, principalmente de pequenos reservatórios.

Ceará foca em planejamento preventivo e obras estruturantes

No Ceará, o planejamento preventivo também é prioridade no enfrentamento aos efeitos do El Niño, segundo o diretor de operações da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh), Tércio Tavares.

O Estado apresenta atualmente uma condição de armazenamento hídrico que permite atuação preventiva, com os 144 reservatórios monitorados somando 8,1 bilhões de metros cúbicos — o equivalente a 44,9% da capacidade total acumulada, conforme dados do portal hidrológico do Ceará até o dia 25 de outubro. O desafio, ressalta o diretor, é a distribuição desigual dessa água pelo território.

“Enquanto bacias como Alto Jaguaribe e Litoral apresentam armazenamentos superiores a 80%, outras regiões, como Sertões de Crateús, Banabuiú e Médio Jaguaribe, registram percentuais significativamente inferiores”, explica.

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Para garantir o abastecimento, a Cogerh opera os reservatórios com prioridade para o consumo humano e a preservação de estoques estratégicos.

Paralelamente, o Governo do Estado avança em obras estruturantes, como a duplicação do Eixão das Águas, a conclusão do Cinturão das Águas do Ceará (CAC) e o Ramal do Salgado, que ampliarão a capacidade de transferência hídrica e a integração dos sistemas.

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Conta de energia elétrica

Conta de energia elétrica

Clima extremo força impasse sobre custos do sistema elétrico

A intensificação do El Niño preocupa o setor elétrico brasileiro, que discute a necessidade de reforçar infraestruturas, mobilizar equipes e recompor redes danificadas. Ao mesmo tempo, o sistema regulatório busca preservar o equilíbrio econômico-financeiro das concessões sem transferir todo o aumento de custo ao consumidor.

Para Matheus Teodoro, advogado especialista em Direito Regulatório, a ocorrência isolada de um evento climático extremo não autoriza a distribuidora a repassar custos adicionais à tarifa.

“A revisão tarifária extraordinária existe justamente como um mecanismo de preservação do equilíbrio econômico-financeiro das concessões diante de situações excepcionais. Mas não há automatismo. A concessionária precisa demonstrar que houve um evento extraordinário, que esse fato produziu impacto relevante e não absorvível pela operação ordinária e, sobretudo, estabelecer a relação entre o evento e o desequilíbrio alegado”, explica.

A possibilidade de reflexos para o consumidor existe, mas depende de uma cadeia de decisões regulatórias. Custos reconhecidos pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) podem, conforme a natureza e o mecanismo adotado, repercutir nas tarifas.

Para Teodoro, o caso reforça a necessidade de transparência na distribuição de riscos. “A tarifa precisa ser suficiente para garantir um serviço adequado e uma concessão sustentável, mas também deve observar modicidade tarifária. O desafio regulatório é encontrar o ponto de equilíbrio para que o consumidor não arque indiscriminadamente com todo custo decorrente de eventos climáticos, sem, por outro lado, comprometer os investimentos necessários para tornar as redes mais resilientes.”

Em agosto, a Aneel reuniu representantes do governo, agentes do setor e especialistas para discutir os impactos do “Super El Niño” e estratégias de fortalecimento do sistema elétrico nacional.

Na prática, um cenário de maior instabilidade climática pressiona uma infraestrutura que precisa garantir a continuidade dos serviços em um cenário de falhas cada vez mais frequentes.

Mais do que responder aos danos depois de cada tempestade, o setor precisará definir como financiar a adaptação da rede a um clima severo e como repartir esses custos de forma eficiente e juridicamente equilibrada.

“O debate mais importante é quem deve financiar a prevenção, quais riscos pertencem à concessionária e quais, efetivamente excepcionais, podem justificar mecanismos de reequilíbrio. Essa definição será cada vez mais relevante para a regulação do setor elétrico“, conclui o especialista. (Gabriel Vasconcelos, especial para O POVO)