Vitória de Lula fortalece relação com China e coloca Brasil no centro da disputa por terras raras
Fonte: brasil247.com | Data: 28/10/2026 06:35:55
247 – A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para um quarto mandato, não consecutivo, deve fortalecer a parceria estratégica entre Brasil e China, especialmente na exploração de terras raras e no desenvolvimento de tecnologias avançadas. O resultado eleitoral também amplia a importância do Brasil na disputa econômica e geopolítica entre Pequim e Washington, diante do interesse das duas potências nas reservas brasileiras de minerais estratégicos.
Segundo reportagem do South China Morning Post, a permanência de Lula na Presidência representa um cenário favorável aos interesses chineses na América Latina. O Brasil possui as segundas maiores reservas de terras raras do mundo, recursos fundamentais para a fabricação de veículos elétricos, equipamentos eletrônicos, turbinas eólicas e tecnologias utilizadas pela indústria de defesa.
A vitória do presidente brasileiro foi recebida positivamente pelo governo chinês. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Gou Jiakun, declarou que Pequim pretende continuar trabalhando com Brasília para “promover ainda mais a construção de uma comunidade de China e Brasil com um futuro compartilhado”.
A manifestação reforça a disposição chinesa de aprofundar os vínculos econômicos e diplomáticos com o Brasil, seu maior parceiro comercial na América Latina e no Caribe. Para especialistas ouvidos pela publicação, a continuidade de um governo comprometido com uma política externa independente favorece a estabilidade das relações bilaterais e abre novas possibilidades de cooperação.
Terras raras colocam Brasil no centro da disputa entre China e EUA
A exploração das reservas brasileiras de terras raras aparece como um dos principais pontos de interesse na relação entre os três países. Esses minerais são considerados estratégicos para a transição energética, a indústria de alta tecnologia e a produção de equipamentos militares.
Embora a China ocupe uma posição dominante nas cadeias globais de processamento e refino desses elementos, os Estados Unidos procuram diversificar suas fontes de abastecimento e reduzir a dependência da produção chinesa. Nesse contexto, o Brasil ganha relevância por seu potencial mineral e pela possibilidade de atrair investimentos internacionais.
Para André Pagliarini, professor adjunto de história e estudos internacionais da Universidade Estadual da Louisiana, nos Estados Unidos, a reeleição de Lula não deve provocar mudanças bruscas na relação com Pequim. A expectativa é de continuidade da cooperação econômica, acompanhada de negociações com outros parceiros internacionais.
Na avaliação do pesquisador, o caminho mais vantajoso para o governo brasileiro consiste em “aproveitar os interesses chineses e americanos para garantir as melhores condições possíveis para o Brasil”.
Essa estratégia permitiria ao país negociar investimentos, transferência de tecnologia e participação nas cadeias produtivas de minerais críticos sem estabelecer compromissos exclusivos com nenhuma das duas potências.
O posicionamento também está relacionado à política externa defendida por Lula, que busca preservar a autonomia brasileira nas relações internacionais e evitar uma vinculação automática aos interesses de Washington ou Pequim.
Política externa de Lula contrasta com alinhamento de Flávio Bolsonaro aos EUA
A abordagem defendida pelo presidente brasileiro representa uma diferença importante em relação à orientação de seu adversário derrotado nas eleições, Flávio Bolsonaro (PL).
De acordo com Pagliarini, o candidato bolsonarista demonstrava uma postura de confronto ideológico com Pequim, tratando a China como um “inimigo ideológico”, ao mesmo tempo que defendia maior proximidade política com o governo dos Estados Unidos.
Esse alinhamento ficou evidente durante a disputa presidencial, quando o presidente americano, Donald Trump, manifestou apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro após o primeiro turno.
Lula, por sua vez, reafirmou a defesa da soberania nacional em seu discurso de vitória, ao declarar que o Brasil “não será quintal de ninguém”.
A declaração sintetiza a orientação diplomática de seu governo, baseada na manutenção de relações com diferentes centros de poder e na defesa dos interesses econômicos brasileiros.
No mercado de terras raras, essa postura pode permitir ao Brasil negociar simultaneamente com empresas e governos chineses e americanos, buscando condições mais favoráveis para desenvolver sua capacidade industrial e tecnológica.
China aposta em cooperação tecnológica com o Brasil
O fortalecimento da parceria entre Brasília e Pequim também deve alcançar setores de alta tecnologia, segundo Jiang Shixue, professor da Universidade Normal de Hangzhou, na China, e especialista em América Latina.
O pesquisador avalia que a continuidade de Lula no poder cria condições para ampliar projetos conjuntos de desenvolvimento tecnológico, aprofundando uma relação que já possui forte dimensão comercial.
Além das oportunidades econômicas, Jiang considera que o comportamento de integrantes do governo americano contribuiu para aproximar politicamente Brasil e China.
Segundo ele, as constantes afrontas de representantes de Washington “feriram os sentimentos de Lula” e, “em certa medida, isso está impulsionando o Brasil a desenvolver suas relações com a China”.
A avaliação aponta para um cenário em que as tensões diplomáticas com os Estados Unidos podem estimular o governo brasileiro a diversificar suas parcerias internacionais, sobretudo em áreas consideradas estratégicas.
A cooperação com a China, entretanto, não significa necessariamente um afastamento econômico dos Estados Unidos. A perspectiva apresentada pelos especialistas é de que Lula procure preservar canais de negociação com ambos os países, aproveitando a concorrência internacional por recursos minerais e oportunidades de investimento.
Reservas brasileiras ampliam importância estratégica do país
A relevância das terras raras está associada à crescente demanda mundial por componentes utilizados na eletrificação da economia, na geração de energia renovável e na produção de equipamentos tecnológicos.
Apesar do tamanho de suas reservas, o Brasil ainda enfrenta o desafio de ampliar a exploração comercial desses recursos e desenvolver etapas industriais capazes de agregar valor à produção mineral.
A transformação desse potencial em atividade econômica de maior complexidade depende de investimentos em pesquisa, infraestrutura, processamento e desenvolvimento tecnológico.
Nesse cenário, a relação com a China pode oferecer oportunidades de financiamento e cooperação industrial, enquanto o interesse americano amplia as possibilidades de negociação do governo brasileiro.