Ex-ministra de Milei reconhece vitória de Lula e contraria silêncio do governo argentino
Fonte: brasil247.com | Data: 28/10/2026 16:41:11
247 – A senadora argentina Patricia Bullrich, ex-ministra da Segurança do governo de Javier Milei, reconheceu nesta quarta-feira (28) a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições brasileiras. A manifestação contrasta com a postura do governo argentino, que até o momento evitou reconhecer formalmente a reeleição do petista e se limitou a informar que tomou conhecimento do resultado eleitoral.
Segundo a Folha de S.Paulo, Bullrich publicou uma mensagem na rede social X em que defendeu o respeito à vontade popular expressa nas urnas, apesar das divergências ideológicas entre os governos brasileiro e argentino. Na mesma publicação, entretanto, a parlamentar criticou o funcionamento da Justiça ao comentar a saída do senador Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil, em uma viagem que terminou nos Estados Unidos.
“O povo decide nas urnas e sua vontade é respeitada. Esse é o princípio fundamental de toda democracia. Temos profundas diferenças políticas com o novo governo do Brasil, mas nossos países compartilham uma história, interesses estratégicos e enormes oportunidades de cooperação”, declarou Bullrich.
A manifestação representa um movimento significativo dentro do partido A Liberdade Avança, liderado por Milei. Bullrich tornou-se a primeira integrante da legenda a reconhecer publicamente o resultado da eleição presidencial brasileira, embora não tenha mencionado Lula nominalmente em sua publicação.
O posicionamento também evidencia divergências no entorno político do presidente argentino, cuja administração adotou uma postura de distanciamento em relação ao resultado das urnas brasileiras.
Bullrich se distancia de Milei após eleição brasileira
A ex-ministra deixou o governo argentino em dezembro de 2025 para assumir uma cadeira no Senado pela Cidade Autônoma de Buenos Aires, onde passou a liderar a bancada do partido governista.
Nos últimos dias, porém, Bullrich tem demonstrado sinais de afastamento político em relação a Milei. Na segunda-feira (26), um dia depois da reeleição de Lula, a senadora decidiu não comparecer a uma reunião do gabinete presidencial argentino.
Inicialmente, a Casa Rosada atribuiu sua ausência a questões pessoais. Entretanto, conforme informações publicadas pelo jornal argentino Clarín e reproduzidas pela Folha, a decisão estaria relacionada a divergências sobre a conduta do presidente.
Entre os motivos apontados estariam a avaliação de Bullrich de que Milei estaria ultrapassando limites em seus ataques à imprensa e o receio de que o governo argentino tentasse alimentar questionamentos sobre a legitimidade das eleições brasileiras, inclusive sustentando alegações de fraude.
Nesse contexto, o reconhecimento da vitória de Lula pela senadora ganha relevância por estabelecer uma distinção entre a posição adotada por uma importante liderança governista e a resposta oficial da administração Milei.
Ex-ministra critica Justiça ao comentar saída de Flávio Bolsonaro
Apesar de reconhecer o resultado eleitoral brasileiro, Bullrich utilizou a mesma publicação para manifestar preocupação com o tratamento judicial dispensado à oposição política, fazendo referência à saída de Flávio Bolsonaro do país.
“E sobre Flávio, que fez uma enorme escolha, quero fazer uma reflexão sobre a qualidade da democracia. É importante que a democracia não seja binária: quem ganha governa e quem perde vai para a cadeia. A utilização de uma Justiça não imparcial como instrumento para eliminar a oposição é uma ferramenta de poder que nunca pode ser o caminho de uma democracia”, afirmou.
A declaração associa a viagem do senador brasileiro a uma crítica mais ampla sobre a relação entre disputas políticas e atuação do Judiciário. Bullrich, contudo, não apresentou na manifestação elementos concretos que comprovassem a utilização da Justiça brasileira para perseguir adversários políticos.
O posicionamento da parlamentar ocorreu após a confirmação de que Flávio Bolsonaro deixou o território brasileiro pela fronteira com a Argentina, acompanhado da esposa e das duas filhas, antes de seguir para os Estados Unidos.
Flávio Bolsonaro deixou o Brasil pela Argentina e seguiu para Miami
A Direção Nacional de Migrações da Argentina confirmou nesta quarta-feira (28) que o senador brasileiro e seus familiares ingressaram no território argentino por via terrestre, utilizando a Ponte Internacional Tancredo Neves, às 22h50 de terça-feira (27).
Flávio utilizou um passaporte italiano durante o deslocamento e não passou por um posto de controle da Polícia Federal brasileira. A passagem por esse tipo de instalação não é obrigatória para brasileiros que deixam o país por fronteiras terrestres.
Pouco depois de entrar na Argentina, às 23h30, o parlamentar e seus familiares embarcaram em uma aeronave particular com destino a Guayaquil, no Equador, conforme o plano de voo apresentado às autoridades argentinas.
O avião utilizado foi um Gulfstream G400, de matrícula LV-JQW, operado pela empresa Baires Fly S.A. Após uma escala em território equatoriano, o senador prosseguiu viagem até Miami, nos Estados Unidos, onde desembarcou às 10h23, pelo horário de Brasília.
Empresa responsável pelo avião aparece em investigação na Argentina
Outro elemento envolvendo a viagem de Flávio Bolsonaro é a empresa responsável pela operação do jato particular utilizado pelo senador.
A Baires Fly S.A. foi mencionada em uma investigação argentina sobre suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas a contratos públicos para aquisição de medicamentos e insumos médicos.
O caso provocou um escândalo político no governo de Javier Milei em 2025 e resultou na demissão de Diego Spagnuolo, então diretor da Agência Nacional de Deficiência da Argentina.
Spagnuolo, que anteriormente atuou como advogado e integrava o círculo de pessoas próximas ao presidente ultraliberal, deixou o cargo em meio às repercussões das suspeitas de corrupção.
A menção à Baires Fly na investigação, entretanto, não demonstra, por si só, qualquer participação de Flávio Bolsonaro nas irregularidades investigadas na Argentina.
A coincidência entre a utilização da aeronave e o histórico de investigações envolvendo sua operadora acrescenta um elemento político à viagem do senador, realizada em meio às repercussões da derrota eleitoral para Lula.
Enquanto Milei mantém distância do reconhecimento formal da vitória do presidente brasileiro, Bullrich procura conciliar a defesa do resultado das urnas com críticas ao Judiciário. A postura expõe diferenças dentro do campo governista argentino sobre a relação com o Brasil e os desdobramentos políticos da eleição presidencial brasileira.