BRB comprou créditos do Master por um ano após identificar falhas nas carteiras, aponta PF
Fonte: brasil247.com | Data: 28/10/2026 18:37:01
247 – O Banco de Brasília (BRB) continuou comprando carteiras de crédito do Banco Master por aproximadamente um ano depois de identificar irregularidades expressivas nos ativos oferecidos pela instituição financeira de Daniel Vorcaro. A conclusão consta de um relatório da Polícia Federal (PF), encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF), que aponta a continuidade das transações entre agosto de 2024 e agosto de 2025, mesmo diante de sucessivos alertas internos. As informações foram reveladas pela Folha de S.Paulo nesta quarta-feira (28).
A investigação mostra que a direção do BRB recebeu informações sobre problemas na qualidade dos créditos adquiridos, incluindo falhas documentais, inconsistências cadastrais e operações que não atendiam às exigências do próprio banco. Apesar das advertências, as compras prosseguiram, enquanto o Master enfrentava dificuldades financeiras e dependia dessas operações para manter sua liquidez.
Um dos primeiros registros identificados pela PF ocorreu em 5 de agosto de 2024, quando o então diretor de Finanças e Controladoria do BRB, Dario Garcia, recebeu uma comunicação sobre deficiências em uma carteira transferida pelo Master. A avaliação indicava que aproximadamente 90% dos créditos apresentavam problemas ou não cumpriam os requisitos estabelecidos pela instituição compradora.
Para os investigadores, o episódio demonstra que as dificuldades nas operações já eram conhecidas pela administração do banco público mais de um ano antes da liquidação do Master, determinada em novembro de 2025.
A PF identificou ainda que os problemas não estavam restritos a operações isoladas. Os apontamentos técnicos envolviam inconsistências nos registros, fragilidades nos mecanismos de controle e possíveis irregularidades na origem dos empréstimos comercializados.
Carteira de R$ 93 milhões tinha apenas R$ 10 milhões aproveitáveis
Outro episódio identificado no inquérito ocorreu em novembro de 2024. Na ocasião, uma base de créditos apresentada pelo Master, inicialmente avaliada em R$ 93 milhões, passou por uma análise que considerou aproveitáveis apenas R$ 10 milhões.
A diferença corresponde a uma rejeição de aproximadamente 89% do valor originalmente apresentado.
Mensagens examinadas pela Polícia Federal mostram que Dario Garcia reagiu de maneira irônica ao resultado da avaliação. Ao comentar a baixa qualidade dos ativos, escreveu: “Que base maravilhosa!!!”
Apesar da constatação de problemas, a orientação adotada não foi encerrar as negociações. Segundo a investigação, o Master deveria apresentar outros créditos que possibilitassem a continuidade das transações.
Essa conduta é considerada relevante pelos investigadores porque indica que os alertas técnicos não impediram a manutenção das relações comerciais entre as duas instituições.
BRB alterou critérios e elevou valor de carteira do Master
A Polícia Federal também identificou mudanças na avaliação de créditos apresentados pelo Master em janeiro de 2025.
Nos dias 28 e 29 daquele mês, uma carteira com valor de cessão originalmente estimado em R$ 922 milhões foi submetida à análise do BRB. O exame inicial reduziu o montante considerado aceitável para R$ 164 milhões.
A redução provocou questionamentos da presidência do banco público. De acordo com o relatório, os critérios empregados na avaliação foram posteriormente modificados, permitindo que o valor de cessão fosse elevado para R$ 422 milhões.
Com a revisão, o montante aceito aumentou R$ 258 milhões em relação ao resultado da primeira análise, embora permanecesse abaixo do valor inicialmente apresentado pelo Master.
O episódio integra os elementos examinados pela PF para compreender como as decisões administrativas e os procedimentos de controle influenciaram a continuidade das aquisições.
Master dependia das operações com BRB para manter caixa positivo
A investigação também aponta que integrantes da administração do BRB tiveram acesso a informações sobre a situação financeira do Master.
Dario Garcia participava de um grupo de mensagens que recebia relatórios diários de caixa da instituição de Vorcaro.
Os documentos indicavam que, entre 2 e 13 de maio de 2025, o Master operava com disponibilidades diárias próximas de R$ 33 milhões a R$ 35 milhões, apesar de registrar movimentações de entrada e saída de centenas de milhões de reais.
A PF identificou que as vendas de carteiras ao BRB eram fundamentais para que a instituição conseguisse cumprir obrigações financeiras imediatas.
Quando não havia transferência de créditos ao banco de Brasília, o Master precisava recorrer a outras fontes de recursos, como liberações de depósitos compulsórios ou novas captações por meio de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) e Letras Financeiras.
Essas alternativas eram utilizadas para impedir que o saldo disponível se tornasse negativo.
O acesso de dirigentes do BRB a essas informações integra a análise policial sobre o conhecimento que a administração do banco público possuía a respeito das dificuldades enfrentadas pelo Master.
Compras continuaram até agosto de 2025
As evidências reunidas pela Polícia Federal mostram que as negociações persistiram pelo menos até 28 de agosto de 2025.
Naquela data, Dario Garcia recebeu a informação de que uma nova aquisição de carteira havia sido acertada entre Daniel Vorcaro e o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa.
Costa e Garcia estão entre os indiciados pela Polícia Federal no inquérito que examina as operações entre as instituições financeiras.
Segundo os investigadores, os departamentos técnicos do BRB continuaram identificando problemas nas carteiras oferecidas pelo Master ao longo desse período.
Entre as deficiências apontadas estavam elevados índices de inadimplência, ausência de registros necessários à validação de determinadas operações, divergências nas conciliações financeiras, contratos sem formalização adequada, reclamações de clientes e insuficiência de documentos para comprovar os créditos.
A persistência dessas irregularidades, associada à continuidade das compras, constitui um dos principais elementos do relatório encaminhado ao Supremo Tribunal Federal.
Investigação examina decisões da administração do BRB
O inquérito busca esclarecer as responsabilidades pelas operações realizadas entre o banco controlado pelo governo do Distrito Federal e o Master.
A análise reúne comunicações internas, avaliações técnicas, registros financeiros e mensagens relacionadas às decisões de aquisição de carteiras.
Os documentos indicam que a administração do BRB recebeu advertências sobre a qualidade dos ativos em diferentes momentos, mas as transações continuaram até poucos meses antes da liquidação do Master.
O banco de Daniel Vorcaro foi liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025. As operações anteriores com o BRB passaram a integrar as investigações sobre as circunstâncias que antecederam o encerramento das atividades da instituição.
O relatório da PF foi encaminhado ao STF depois da conclusão do inquérito sobre as negociações entre os dois bancos. O indiciamento representa uma conclusão da investigação policial e não equivale a uma condenação judicial.
As defesas de Daniel Vorcaro, Dario Garcia e Paulo Henrique Costa foram procuradas pela Folha de S.Paulo, mas não haviam apresentado manifestações sobre as conclusões do relatório até a publicação da reportagem.