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Professor Mira: Ibovespa após o circuit breaker. O que a queda devolveu?

Fonte: borainvestir.b3.com.br | Data: 28/10/2026 18:39:46

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Nesta segunda-feira, a B3 acionou o circuit breaker pela primeira vez desde março de 2020, e o Ibovespa terminou o dia em queda de 13,88%, aos 176.608 pontos. O mecanismo existe para dias como esse: interrompe os negócios para que o investidor respire, refaça as contas e volte a negociar com mais informação.

Ao meu ver, o tamanho da queda se explica pela distância entre o que os preços embutiam e o que saiu das urnas: entre os turnos, o mercado incorporou uma troca de governo e uma política fiscal mais dura em 2027, e quando isso não se confirmou, o índice voltou para perto do patamar de agosto, na casa dos 168 mil pontos, quando a tendência à continuidade do governo liderava as pesquisas.

Por que o Ibovespa caiu tanto depois da eleição

Depois do primeiro turno, a bolsa subiu 7,7% em um único pregão e chegou à véspera do segundo com alta de cerca de 10% no mês, enquanto o dólar ficava abaixo de R$ 5,00. Os preços passaram a refletir quase só um dos dois resultados possíveis.

Thomas Haugaard, gestor de títulos de dívida de países emergentes da gestora internacional Janus Henderson, chamou isso de assimetria de precificação: o resultado que a maioria esperava já estava nos preços, mas o resultado oposto praticamente não tinha sido levado em conta. Quando as urnas confirmaram o cenário deixado de lado, a correção veio de uma vez, e cairam mais os ativos que mais tinham subido.

Os índices de bancos, consumo, imóveis e small caps, que reúnem as empresas menores da bolsa, recuaram entre 22% e 29% em um só dia. Vale, Suzano e Embraer foram na direção contrária, porque exportam e ganham com o dólar mais alto, e quem tinha essas empresas na carteira viu na prática para que serve a diversificação.

E mesmo depois da queda, o Ibovespa ainda acumula alta de 9% em 2026.

Ajuste fiscal e Fazenda: o que o mercado ainda não sabe

Para pensar se esses preços vão ficar onde estão, gosto de recorrer a Frank Knight, economista da Universidade de Chicago que, em 1921, ao tentar explicar de onde vem o lucro dos empresários, separou duas coisas que costumamos misturar: risco é o que dá para calcular, como a chance de um incêndio, que qualquer seguradora sabe precificar, e incerteza é o que nem permite fazer a conta.

O que derrubou a bolsa na segunda foi incerteza no sentido de Knight. Hoje ninguém sabe quem vai comandar o Ministério da Fazenda nem de que tamanho será o ajuste fiscal, e a terça-feira mostrou bem isso: o ministro Dario Durigan disse ter “medidas fiscais prontas” e defendeu dar um “sinal ao mercado”, enquanto o ministro de Relações Institucionais, José Guimarães, afirmou no mesmo dia que não há proposta de ajuste em discussão.

O Banco Central também foi econômico: Gabriel Galípolo disse que a instituição não comenta eleição e só intervém no câmbio diante de disfuncionalidades, o que significa agir contra o pânico, sem brigar com o preço da incerteza.

Quando aparecerem nome e número, a incerteza vira risco, e risco o mercado sabe colocar no preço, para cima ou para baixo. Pelo levantamento da Elos Ayta, consultoria de dados do mercado financeiro, o Ibovespa subiu na primeira semana depois do segundo turno em todas as eleições desde 2002, mas 2014 mostra o limite dessa estatística: a bolsa subiu mais de 5% naquela semana e terminou o ano em queda, porque a questão fiscal ficou sem resposta.

Dívida pública: por que o ritmo preocupa mais que o tamanho

Muita gente repete que o tamanho da dívida pública não é o problema, e em certa medida isso está certo, mas por um motivo que quase nunca é explicado. Pense numa fatura de cartão de R$ 10 mil: o que tira o sono de quem a carrega é saber se os juros vão transformá-la em R$ 15 mil antes que a renda cresça o suficiente para pagá-la.

Com o país acontece algo parecido: a dívida bruta já passa de 80% do PIB, e o que define se ela vai crescer ou se estabilizar é a corrida entre os juros que o governo paga e o crescimento da economia; quando os juros correm mais e o governo ainda gasta mais do que arrecada, a dívida cresce sozinha, e com a Selic em 13,75% e os juros longos perto de 15%, essa corrida está bem desequilibrada.

Ajuste fiscal em 2027: a conta que o governo terá de fazer

Antes da eleição havia quatro cenários, cada candidato com ou sem ajuste fiscal, e agora restam dois cenários. Penso que o ajuste vem, e o argumento que me convence é o da governabilidade, mais do que o do legado.

Sem ajuste, o dólar alto pressiona combustíveis e outros preços, numa inflação que o Boletim Focus, ainda antes da eleição, em 23/10,  projetava em 5,19% para 2026, acima do teto da meta, que é de 4,5%. Com a inflação subindo, o Banco Central perde espaço para cortar a Selic, e um governo que precisa negociar com um Congresso em que a oposição tem a maior bancada, fica sem força para aprovar quase nada, inclusive aumento de imposto.

É o Brasil de sempre, que chega à beira do precipício e não se joga. Mas o mercado só acredita quando vê a conta, e os próximos sinais têm data marcada: o nome do ministro da Fazenda, o Orçamento de 2027, o Boletim Focus de 3 de novembro, primeiro com projeções feitas depois da eleição, e o resultado da reunião do Copom no dia 4.

Ações e Tesouro Direto: o que a queda mudou nos preços

Para quem investe, a segunda-feira mudou mais os preços do que os fundamentos. O lucro de uma empresa não diminui porque a ação caiu, o que muda é quanto se paga por ele: uma ação que custava 10 vezes o lucro anual e cai pela metade passa a custar 5 vezes, e a temporada de balanços, já em curso, vai trazer os números que dirão quais lucros sustentam os preços novos.

Quem foi atrás de proteção para a carteira na segunda descobriu que ela encarece quando todos a procuram ao mesmo tempo: as opções que funcionam como seguro contra quedas ficaram caras demais para compensar.

Na renda fixa, o efeito variou conforme o tipo de título. Os atrelados à Selic quase não se mexeram, enquanto os prefixados e os atrelados à inflação perderam valor porque as taxas dispararam, efeito conhecido como marcação a mercado. Essa perda fica no papel para quem leva o título até o vencimento e recebe a taxa contratada, hoje perto de 15% ao ano nos prefixados e acima de IPCA + 7% nos mais longos.

Brasil 2027: a produtividade que o ajuste fiscal não entrega

Para quem pensa em levar dinheiro para fora com o dólar a R$ 5,35, o motivo que se sustenta no longo prazo diz muito sobre o país que nos espera em 2027: a produtividade, que é a capacidade de produzir mais com os mesmos recursos.

O Nobel de Economia de 2025 premiou Philippe Aghion e Peter Howitt por mostrarem que as economias crescem por destruição criativa, com empresas mais eficientes tirando do mercado as que ficaram para trás.

No Brasil, esse processo trava. Burocracia, impostos complexos e crédito caro mantêm vivas empresas ineficientes e dificultam a vida das novas, e o resultado são décadas de produtividade praticamente parada, com o agronegócio da Embrapa como exceção. Isso ajuda a explicar por que a bolsa brasileira negocia há anos a múltiplos baixos: o investidor paga pouco pelo lucro de hoje porque não enxerga crescimento forte no lucro de amanhã.

O ajuste fiscal pode garantir que o Brasil atravesse 2027 sem uma crise de dívida, mas para que a bolsa volte a ter crescimento de lucros para colocar no preço, o país vai precisar de algo que nenhum pacote fiscal entrega, que é produzir mais com o que já tem.

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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