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Alunos de medicina atacam bolsistas em SP e MG após derrota de Flávio Bolsonaro

Fonte: revistaforum.com.br | Data: 29/10/2026 06:49:58

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A vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais, no domingo (25), foi seguida por episódios de hostilidade contra alunos de medicina em São Paulo e Minas Gerais. Em grupos de WhatsApp, estudantes que recebem bolsas de estudo, vendem alimentos para complementar a renda ou apoiam o petista foram alvo de insultos e manifestações de preconceito.

Os episódios ocorreram na Universidade de Santo Amaro (Unisa), em São Paulo, e no Centro Universitário Imepac, em Araguari, no Triângulo Mineiro. As denúncias foram divulgadas pela Folha de S.Paulo, na quarta-feira (28), e pelo g1, nesta quinta-feira (29).

Em Minas, dois estudantes de 19 anos são investigados administrativamente pela faculdade depois de enviarem áudios com ataques a bolsistas. Um boletim de ocorrência por difamação também foi registrado. Em São Paulo, alunos da Unisa denunciaram ofensas contra nordestinos, beneficiários do Prouni e eleitores de Lula, além de mensagens com referências à violência.

“Divide a bolsa com o MST”: ataques em Minas Gerais

Em Araguari, os áudios foram enviados por volta das 21h50 de domingo (25), no grupo de WhatsApp de uma turma de medicina do Imepac. Segundo reportagem de Madu Porto, do g1 Triângulo Mineiro, as mensagens partiram de dois estudantes de 19 anos e atingiram colegas que recebem bolsas do Programa Universidade para Todos (Prouni) ou utilizam o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).

Um dos estudantes atacou colegas que vendem trufas e outros produtos para conseguir permanecer na faculdade. Em outro áudio, houve insultos a eleitores de Lula e uma provocação envolvendo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

“Pega a p* da sua bolsa de Prouni, de Fies e divide com a p* do MST”, disse um dos envolvidos.

Uma estudante de 21 anos, natural de Uberlândia, contou ao g1 que ingressou na faculdade no início de 2026 e vende trufas para ajudar a pagar suas despesas em Araguari. Bolsista, ela afirmou ter se sentido diretamente atingida pelas ofensas, embora não tenha manifestado publicamente sua preferência política durante a campanha eleitoral.

“Eu me senti muito humilhada, não tinha como desvincular a minha imagem, era sobre mim que eles estavam falando”, relatou.

A jovem afirmou que chorou após ouvir as mensagens e procurou apoio da família e do namorado. Segundo ela, figurinhas ofensivas contra eleitores do PT já circulavam no grupo antes do primeiro turno, mas os ataques se intensificaram depois da vitória de Lula.

“A única coisa que me permite estudar o curso dos meus sonhos é essa política pública de acesso à universidade”, afirmou.

Outra estudante bolsista também relatou ter se sentido ofendida e cobrou providências da instituição. Para ela, as divergências políticas foram utilizadas para atingir colegas que dependem de auxílio financeiro para cursar medicina.

Faculdade abre processo disciplinar e caso vai à polícia

Um boletim de ocorrência por difamação foi registrado na quarta-feira (28) contra os responsáveis pelas mensagens. Até a última atualização da reportagem do g1, a Polícia Civil não havia informado se um inquérito seria instaurado.

O Imepac anunciou a abertura de um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para apurar a conduta dos estudantes e avaliar possíveis sanções. Em nota, a instituição repudiou manifestações discriminatórias relacionadas a convicções políticas ou à condição socioeconômica.

A faculdade afirmou que a apuração respeitará as normas internas e o direito de defesa dos envolvidos. Também anunciou a disponibilização de acolhimento e suporte aos estudantes atingidos.

O Diretório Acadêmico Diogo Guimarães publicou uma nota de repúdio. Os nomes dos estudantes envolvidos não foram divulgados.

Em São Paulo, alunos de medicina da Unisa atacam nordestinos e bolsistas

Na Universidade de Santo Amaro, as ofensas circularam em um grupo de WhatsApp que reunia 984 integrantes até terça-feira (27). Criado inicialmente para discutir questões acadêmicas, o espaço passou a concentrar discussões políticas após o resultado das eleições.

Segundo reportagem de Luana Lisboa, da Folha de S.Paulo, quatro estudantes relataram ataques contra nordestinos, beneficiários do Prouni, feministas, homossexuais e eleitores de Lula.

As mensagens ridicularizavam alunos que utilizam transporte público ou vendem alimentos para ajudar a custear a graduação. Um participante afirmou que estudantes bolsistas somente frequentavam a universidade porque os demais sustentavam financeiramente a instituição.

Uma integrante declarou que deixaria de comprar produtos vendidos por colegas que votaram no petista. Outro participante insultou esses estudantes e associou suas preferências políticas à capacidade intelectual, em comentários sobre a disputa por vagas de residência médica.

As conversas também incluíram referências à violência. Um participante publicou “paulada em comunista”, enquanto outra estudante afirmou desejar que colegas fossem assaltados.

Um áudio encaminhado ao grupo continha ofensas contra nordestinos, especialmente baianos. A autoria da gravação não foi identificada, e não há confirmação de que o responsável seja aluno da Unisa.

A reportagem também identificou ofensas de participantes com posições políticas opostas. Estudantes ouvidos pela Folha, entretanto, atribuíram os ataques contra nordestinos e bolsistas a apoiadores de Flávio Bolsonaro.

Universidade é acionada após denúncias

Estudantes da Unisa reuniram capturas de tela e gravações das conversas e encaminharam o material ao canal de denúncias e às coordenações do curso. Alguns relataram receio de represálias e disseram que os conflitos ultrapassaram o ambiente virtual.

Uma aluna contou que, na segunda-feira (26), um colega fez comentários ofensivos sobre nordestinos dentro da sala de aula.

Em comunicado aos estudantes, a Unisa afirmou que suas normas internas repudiam manifestações de preconceito, discriminação e intolerância. A instituição ressaltou, porém, que grupos de WhatsApp criados pelos próprios alunos são ambientes privados, sem vínculo institucional, sobre os quais não possui capacidade de monitoramento ou moderação.

Até a publicação da reportagem da Folha, a universidade não havia respondido diretamente aos questionamentos encaminhados pelo jornal.

Políticas de acesso ao ensino superior viram alvo

Os ataques atingem estudantes beneficiados por programas federais que permitem o ingresso e a permanência de pessoas de baixa renda em instituições particulares de ensino superior.

Criado no primeiro governo Lula e instituído pela Lei nº 11.096, de 2005, o Prouni oferece bolsas integrais e parciais, selecionando candidatos a partir do desempenho no Enem e de critérios socioeconômicos. O Fies, por sua vez, concede financiamento estudantil, que deve ser pago conforme as condições do contrato.

Os episódios também levantam questionamentos sobre a formação ética dos futuros médicos. O Código de Ética Médica, aprovado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), estabelece como princípio fundamental que a profissão seja exercida sem discriminação de qualquer natureza.

As denúncias ocorrem em meio a outros episódios de hostilidade política após as eleições. Conforme revelou a Revista Fórum, o vice-prefeito de Pirassununga, Lawrence Patriota (Novo), foi alvo de uma representação no Ministério Público após ser acusado de incentivar um boicote contra comerciantes que votaram em Lula.

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