Óculos que ‘falam’ e reconhecem 42 objetos são criados por alunos por R$ 630
Fonte: primeirapagina.com.br | Data: 29/10/2026 06:50:00
Estudantes do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), em Lucas do Rio Verde (MT), desenvolveram um óculos com inteligência artificial para ajudar pessoas cegas ou com baixa visão a reconhecer objetos e compreender melhor o ambiente ao redor.
Batizado de OIVA, o equipamento usa uma câmera e um pequeno computador para identificar itens do dia a dia e transmitir as informações por áudio, permitindo que o usuário saiba, por exemplo, se há uma cadeira, uma mesa ou um copo à sua frente.

A ideia é tornar tarefas cotidianas mais acessíveis, como circular por ambientes, localizar objetos e ter ajuda na leitura de textos. O projeto foi desenvolvido a partir de pesquisas sobre tecnologia assistiva e busca reunir diferentes funções em um único equipamento, com custo inferior ao de algumas soluções disponíveis no mercado.
Da necessidade surgiu a ideia
A estudante Bruna Stoinski, uma das alunas que participa do produto que ainda está em desenvolvimento, contou ao Primeira Página que a iniciativa surgiu de uma experiência pessoal envolvendo pessoas próximas. Segundo ela, a convivência com familiares com deficiência visual despertou o interesse em criar uma tecnologia que pudesse contribuir para a autonomia desse público.
“Eu me sensibilizei com isso e trouxe a proposta para o grupo, de criarmos algo que deixe esse mundo mais acessível”, relatou Bruna.
A equipe também pesquisou equipamentos já existentes e identificou que algumas tecnologias voltadas à leitura podem custar entre R$ 15 mil e R$ 20 mil, conforme os exemplos levantados pelos estudantes. A proposta do OIVA é reunir diferentes recursos em um dispositivo mais acessível financeiramente.

Participam do projeto:
- Bruna Stoinski;
- Junior Eduardo Kolodziey Alves – autor para correspondência
- Ester Carla Sobral de Almeida;
- Samuel Vieira Fiel;
- Vigner Vieira dos Santos — orientador;
- Leonardo Santana de Lima — Coorientador.
Todos são do câmpus de Lucas do Rio Verde. O trabalho é divulgado na página do Instagram @equipeoiva.
Como os óculos funcionam na prática?
O funcionamento começa com uma câmera instalada na armação, que capta imagens do que está à frente do usuário. Essas imagens são enviadas para um pequeno computador chamado Raspberry Pi, instalado em uma das laterais dos óculos.
Esse componente funciona como o cérebro do equipamento. Ele recebe as imagens, processa as informações e utiliza um sistema de inteligência artificial para reconhecer determinados objetos. Depois, transforma o resultado em uma mensagem falada, reproduzida por um pequeno alto-falante ou por um fone de ouvido.
Na prática, se uma pessoa estiver usando os óculos e houver uma cadeira no campo de visão da câmera, o sistema poderá identificar o objeto e avisar por áudio que existe uma cadeira à frente. O mesmo processo pode ser aplicado a outros itens reconhecidos pelo equipamento.

Óculos reconhece mais de 40 tipos de objetos
O sistema foi preparado para identificar 42 tipos de objetos comuns, conforme explicou a equipe. Entre os exemplos citados estão escadas, cadeiras, copos, mesas, lápis, borrachas e celulares. A lista foi definida para contemplar situações encontradas em casa, no trabalho e em outros ambientes do cotidiano.
Isso significa que os óculos não reconhecem automaticamente tudo o que existe no mundo. A inteligência artificial foi treinada para identificar uma lista específica de objetos, que pode ser ampliada conforme o desenvolvimento do projeto.

Inteligência artificial que identifica objetos
Para fazer o reconhecimento, os estudantes utilizaram uma tecnologia chamada YOLO, conhecida por detectar objetos em imagens. A equipe escolheu uma versão compacta do sistema, a YOLOv8n, para que pudesse funcionar em um computador pequeno, com capacidade de processamento limitada.
O processo ocorre em sequência: a câmera registra a cena, o computador analisa a imagem, o programa identifica um objeto conhecido e o sistema converte a informação em áudio. Tudo isso foi planejado para acontecer localmente, dentro do próprio equipamento, sem depender permanentemente de uma conexão com a internet.
A equipe também desenvolveu uma função para leitura de textos, que pode ajudar o usuário a obter informações de materiais impressos. Nesse caso, a imagem captada pela câmera é processada por uma tecnologia de reconhecimento óptico de caracteres, conhecida pela sigla OCR. Ela identifica letras e palavras e permite que o conteúdo seja convertido em voz.
O recurso pode ser útil, por exemplo, para ler informações impressas, desde que o texto esteja dentro das condições em que o protótipo consegue fazer a leitura. A equipe ainda trabalha no aperfeiçoamento do equipamento e na ampliação de suas possibilidades de uso.
Óculos foram produzidos em impressora 3D
Além do sistema eletrônico, a equipe desenvolveu a estrutura física dos óculos. A armação e as peças de proteção foram produzidas com impressão 3D, tecnologia que permite fabricar objetos a partir de modelos digitais.
O computador, a câmera, os cabos e os demais componentes foram integrados à armação. O projeto também utiliza uma bateria portátil para alimentar o equipamento, permitindo que ele seja usado sem estar conectado diretamente a uma tomada. Segundo os estudantes, a autonomia depende da bateria utilizada.

Custo para a produção
Segundo um dos professores que coordena o projeto, Vigner Vieira dos Santos, o custo estimado de fabricação do protótipo descrito no relatório técnico é de R$ 630. O valor considera componentes como o pequeno computador, a câmera, a bateria portátil, o fone, os cabos e o material para impressão 3D. Trata-se do custo dos componentes do protótipo, e não necessariamente do preço final de um produto pronto para comercialização.
Apesar dos resultados iniciais, o OIVA ainda está em desenvolvimento. A equipe informou que a estrutura estava sendo atualizada, inclusive com mudanças no posicionamento da câmera para melhorar a usabilidade.
Conheça um pouco mais do projeto: