Fogacho não é frescura: o que o calorão na menopausa revela sobre a saúde da mulher
Fonte: veja.abril.com.br | Data: 30/10/2026 11:29:39

São 3 da tarde, a reunião ainda não acabou e, sem aviso, uma onda de calor sobe do peito para o pescoço e explode no rosto. O suor brota, o coração dispara. Dois minutos depois, passa. Até a próxima. À noite, o lençol fica encharcado e o sono vira pedaços. Milhões de brasileiras conhecem a cena — e muitas ouvem que é “coisa da idade” ou que “é frescura”
Não basta. Recentemente, o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas, referência mundial em saúde da mulher, publicou uma nova diretriz para tratar os sintomas vasomotores — as ondas de calor e o suor noturno. O recado é claro: existe tratamento eficaz, e ele deve ser oferecido.
O termostato do cérebro
O climatério é a fase de transição em que os ovários vão reduzindo sua atividade até a última menstruação — a menopausa propriamente dita, confirmada após 12 meses sem sangramento. Com a queda do estrogênio, o hipotálamo, região do cérebro que funciona como um termostato, se desregula. Um grupo de neurônios passa a liberar em excesso uma substância chamada neurocinina B, e o corpo começa a reagir a mínimas variações de temperatura como se estivesse superaquecido: dilata os vasos da pele e dispara o suor para se resfriar. É o fogacho.
Cada episódio dura, poucos minutos e pode vir com calafrios, ansiedade e palpitações. Entre cinco e nove em cada dez mulheres passam por isso em algum grau. Calor, sono ruim e humor alterado andam juntos: quem acorda encharcada três vezes por noite chega ao dia seguinte exausta e irritada.
O pico se dá perto da última menstruação, por volta dos 50 anos. Mas os sintomas podem começar mais de uma década antes e persistir por dez anos ou mais depois. Simplesmente “esperar passar” pode significar anos de noites mal dormidas e prejuízo no trabalho.
O que diz a nova diretriz
A terapia hormonal continua no topo, com recomendação forte. Estrogênio — associado a um progestagênio, para proteger o útero de quem ainda o tem — é o tratamento mais eficaz para o calorão e para o sono prejudicado por ele. Nos estudos, reduz a frequência dos fogachos em cerca de 57% em relação ao placebo. As versões aplicadas na pele, como adesivos e géis, aparecem entre as mais eficazes e, segundo estudos observacionais, parecem trazer menor risco de trombose do que os comprimidos.
A janela de tempo importa: a recomendação é iniciar antes dos 60 anos ou nos primeiros dez anos após a menopausa, quando o saldo entre benefícios e riscos é mais favorável. A decisão é compartilhada e considera histórico de câncer de mama, trombose, infarto, AVC e doenças do fígado — que podem contraindicar o hormônio.
Hormônio: o medo que ficou maior que o risco
Boa parte do pavor da reposição vem de um grande estudo americano do início dos anos 2000, o Women’sHealth Initiative. Os riscos existem, mas precisam ser vistos em números absolutos. Com estrogênio e progestagênio por cerca de cinco anos e meio, o risco de derrame subiu 39% — o que representa 5 casos a mais a cada mil mulheres. O de trombose dobrou: 10 casos a mais por mil. O de câncer de mama subiu 27%: 5 casos a mais por mil. Detalhe crucial e relevante: dois terços das participantes tinham 60 anos ou mais. Entre 50 e 59 anos, o risco cardiovascular absoluto é muito baixo. Em 2025, a agência americana de medicamentos (FDA) retirou das bulas dos hormônios os alertas em destaque sobre doença cardiovascular, câncer de mama e demência.
Para quem não pode ou não quer hormônio
A grande novidade: a diretriz dá recomendação forte a uma nova classe de remédios, os antagonistas da neurocinina, que agem direto no termostato desregulado. O primeiro deles, o fezolinetanto, foi aprovado pela Anvisa em junho deste ano com o nome comercial Veoza. Em comparações indiretas, reduziu a frequência dos fogachos de forma semelhante à terapia hormonal, com efeito percebido já nos primeiros dias. Exige exames de fígado antes e durante os primeiros meses de uso, por causa de casos raros de lesão hepática. Um segundo, o elinzanetanto, que também melhora o sono, é aprovado nos Estados Unidos, mas ainda não no Brasil.
Alguns antidepressivos, como paroxetina, escitalopram e venlafaxina, também receberam recomendação forte, com a vantagem de ajudar no humor. A gabapentinafica como alternativa quando as demais opções falham. Terapia cognitivo-comportamental, acupuntura, meditação e exercício entram como apoio.
E o que não funciona? A diretriz aponta que soja, isoflavonas e fitoterápicos. Não há evidência de eficácia nem de segurança.
Perguntas para levar à consulta com o ginecologista
Calorão que atrapalha a vida merece consulta. Chegue preparada — e familiares podem (e devem) dar esse empurrão:
• Meus sintomas justificam tratamento?
• Posso usar hormônio? Se não, por quê?
• Adesivo ou gel seria melhor para mim do que comprimido?
• Se hormônio não for opção, qual alternativa sem hormônio serve para o meu caso?
• Quando vamos reavaliar o tratamento?
Se ouvir apenas “é normal, vai passar”, insista — ou busque uma segunda opinião. Sofrer calada não faz parte do tratamento.