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A nuvem tem endereço: data centers impulsionam uma nova era da construção

Fonte: brazileconomy.com.br | Data: 30/10/2026 13:25:05

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Quando se fala em inteligência artificial, a imagem que vem à cabeça é a de um programa respondendo a perguntas numa tela. Quem trabalha com construção enxerga outra coisa: subestação, gerador, sistema de refrigeração e um prédio que não pode desligar nunca. A IA depende de data centers, e data center é obra.

O Brasil tem motivos legítimos para disputar esse mercado. Segundo a consultoria JLL, o país já reúne quase metade da capacidade de data centers em operação na América Latina e 71% do que está em construção na região. Tem energia predominantemente renovável e um mercado interno grande. Mesmo assim, o Ministério da Fazenda estima que cerca de 60% do processamento de dados dos brasileiros acontece em servidores fora do país.

O Redata, sancionado em setembro, foi pensado para mudar essa conta. A lei suspende tributos federais na compra de equipamentos, o que pesa bastante num setor em que, segundo entidades empresariais, construir um data center em solo nacional custava 26% a mais do que nos Estados Unidos e 35% a mais do que no Chile. As contrapartidas incluem energia renovável ou de baixa emissão, uso eficiente da água, reserva de 10% da capacidade para clientes brasileiros e investimento em pesquisa. Parte das regras ainda depende de regulamentação (a lista de fontes de energia aceitas, por exemplo, segue em discussão dentro do governo), como detalha uma análise do escritório BMA.

O incentivo ajuda. Mas reduzir impostos sobre equipamentos não acelera a chegada de uma linha de transmissão nem forma um eletricista.

A energia é o primeiro ponto. Ter geração sobrando no país é diferente de ter energia disponível no terreno do projeto, e linhas e subestações levam anos entre planejamento, licença e obra. Na fase de transição das novas regras de acesso à rede, o Operador Nacional do Sistema Elétrico avaliou mais de 43 gigawatts em pedidos de conexão, dos quais cerca de 30 gigawatts foram considerados viáveis. Para comparar, toda a capacidade de data centers hoje em operação no Brasil fica perto de 750 megawatts. Boa parte desses pedidos não vai virar obra, e os projetos que se concretizarem disputarão espaço numa rede que cresce mais devagar do que a demanda.

Depois vem a mão de obra. Um data center grande exige equipes de instalações elétricas e mecânicas que o mercado não forma na velocidade necessária. Levantamento da consultoria Turner & Townsend mostra falta de profissionais qualificados nessas áreas em 80% dos mercados latino-americanos analisados. Na mesma proporção, há construtoras no limite da capacidade de assumir novos projetos.

E há os equipamentos. Geradores, transformadores e sistemas de refrigeração são disputados por projetos do mundo inteiro, e é cada vez mais comum que o prazo de entrega desses itens defina o cronograma da obra, e não o contrário.

Na prática, isso muda a forma de construir. Num galpão ou num prédio comercial, ajustes durante a obra são parte do processo. Num data center, estrutura, elétrica, refrigeração e tecnologia avançam juntas e dependem umas das outras. Um projeto que chega incompleto ao canteiro ou uma compra feita tarde vira atraso em cascata. O cliente, por sua vez, tem pressa, porque quem entrega antes fecha contrato antes.

Os números deste ano mostram que o movimento é concreto. A JLL projeta para 2026 a maior entrega de capacidade já registrada no país, cerca de 240 megawatts, com mais de 4,6 gigawatts em projetos no horizonte. A Empresa de Pesquisa Energética estima que a demanda de energia dos data centers chegue a 5,6 gigawatts até 2030.

Acredito que, nos próximos anos, não vai faltar demanda nem capital. O ritmo de expansão vai depender de coisas menos visíveis: conexão à rede no prazo, gente treinada e empresas de engenharia e construção preparadas para projetos que não admitem improviso. O Redata melhorou as condições para o investimento chegar. Fazer esse investimento virar capacidade instalada é um trabalho que ainda está, em grande parte, por fazer.

*Diego Báez é CEO da Construtora Ribeiro Caram