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Biya deixou Camarões em 7 de junho e voltou em 20 de agosto, depois de 73 dias em Genebra. A presidência falou em “breve estadia privada”

Fonte: ndmais.com.br | Data: 30/10/2026 17:05:14

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Biya deixou Camarões em 7 de junho e voltou em 20 de agosto, depois de 73 dias em Genebra. A presidência falou em “breve estadia privada”Foto: Imagem gerada por IA/ND MaisBiya deixou Camarões em 7 de junho e voltou em 20 de agosto, depois de 73 dias em Genebra. A presidência falou em “breve estadia privada”Foto: Imagem gerada por IA/ND Mais

Em 7 de junho, a presidência de Camarões anunciou que Paul Biya, o mais velho chefe de Estado do mundo, faria uma “breve estadia privada” na Europa.

Ele voltou em 20 de agosto, depois de 73 dias, o recorde de uma presidência que dura desde 1982. A última vez em que tinha sido visto em público foi em 20 de maio.

73 dias em Genebra

O destino era a Suíça, onde, segundo várias fontes, Biya costuma ficar no hotel InterContinental. Em 17 de junho, a Jeune Afrique disse que ele estava internado em uma clínica particular de Genebra, o que a presidência negou.

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O ministro da Comunicação confirmou que ele estava na cidade, mas sem hospitalização. Em julho, a imprensa regional falou da família reunida lá, incluindo o filho Franck.

O governo defendeu que Biya podia governar de longe. O secretário de Comunicação do partido no poder disse que nenhuma lei regula a estadia dele no exterior, e é verdade: a Constituição não põe limite à ausência.

O que ele assinou, segundo a Reuters, foram decretos militares: promoveu o comandante da Guarda Presidencial e trocou os comandantes de quatro das cinco regiões militares conjuntas. Um deputado de oposição pediu ao Conselho Constitucional que declarasse a vacância da presidência, e o conselho não interveio.

Ao voltar, num voo fretado, Biya não foi mostrado descendo do avião e não deu declaração, segundo a AP.

Um Estado em piloto automático

Desde a reeleição, em outubro de 2025 (53,66% oficiais contra 35,19% de Issa Tchiroma), o presidente prometeu um novo governo e não o nomeou. Os críticos dizem que o Conselho de Ministros não se reúne há anos, e as datas citadas pela imprensa camaronesa variam entre 2015 e 2019.

Em 15 de outubro, rumores de morte, lançados por uma conta anônima no X, forçaram a presidência a divulgar um decreto assinado por Biya como prova de que ele trabalha. Segundo reportagens, a Fitch rebaixou a nota do país de B para B- no dia seguinte, citando o risco de uma transição de poder desordenada.

O mandato dos deputados acaba em 20 de dezembro, e as eleições legislativas ainda não têm data confirmada.

A engenharia da sucessão

Em 4 de abril, o Parlamento aprovou por 200 votos a 18 a volta da vice-presidência, extinta em 1972. A lei, promulgada em 14 de abril, diz que o vice é nomeado e demitido pelo presidente, assume automaticamente se ele morrer, renunciar ou ficar incapacitado, e não pode mudar a Constituição nem concorrer na eleição seguinte.

O modelo antigo previa que o presidente do Senado assumisse por até 120 dias e organizasse uma eleição. Esse herdeiro, Marcel Niat Njifenji, 91 anos, morreu em 11 de abril, uma semana depois da votação.

Seis meses depois, o cargo continua vago. Em junho, um falso decreto com a nomeação de um vice foi entregue à TV estatal. Em 25 de outubro, a Jeune Afrique citou o pastor Oswald Baboke, assessor da presidência, entre os favoritos.

Analistas falam em um vácuo jurídico: se o presidente morrer agora, não há quem ocupe o posto que a lei criou, e uma disputa entre clãs e barões do regime passa a ser o único caminho.

A oposição, também no exílio

A ausência do presidente tem um espelho. Tchiroma, que reivindica a vitória de 2025, vive exilado na Gâmbia. Seu aliado Anicet Ekane morreu sob custódia em 1º de dezembro.

Em 27 de outubro, o Ministério da Administração Territorial suspendeu por três meses o partido de Tchiroma, citando condenações de um tribunal militar em 8 de outubro. As mortes da repressão pós-eleitoral variam: 16 pelo governo, entre 39 e 48 segundo organizações civis.

O que o caso ensina

Poder e governo são coisas diferentes. Biya mostra que se pode manter o poder sem fazer o trabalho diário de governar, enquanto o aparato (a Guarda, o partido, os barões) segue funcionando. Isso não prova que o país vai bem. Prova que as instituições foram esvaziadas ao ponto de ele ser dispensável.

Regras simples protegem. A Constituição brasileira proíbe o presidente de se ausentar do país por mais de 15 dias sem licença do Congresso, sob pena de perda do cargo, e define a linha de sucessão. Em Camarões, não há prazo para a ausência, e a sucessão depende de uma nomeação que só o presidente pode fazer.

Quem cala hospeda. A Suíça, neutra e discreta, recebe o hóspede sem perguntar, o que a faz parte do arranjo.

Conclusão

Biya está de volta ao palácio, mas Camarões continua sem um governo novo, sem vice e sem previsão. Um país que vive sob o silêncio do presidente aprende a esperar, e a espera, como a de Genebra, tem prazo que ninguém controla.