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Artista premiado mostra como educação pública e editais impulsionaram sua carreira

Fonte: brasil247.com | Data: 31/10/2026 06:13:36

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Beatriz Bevilaqua, 247 – Por trás de cada exposição, fotografia ou instalação existe um trabalho que o público quase nunca vê, feito de planejamento, pesquisa, busca por financiamento, contratação de equipes e inscrição em editais. Para o artista visual Adriano Machado, viver de arte no Brasil também significa aprender a empreender, o que exige criatividade e estratégia muito além da criação artística.

Natural de Feira de Santana, na Bahia, Adriano trabalha com fotografia, vídeo e instalação. Sua pesquisa parte de ambientes cotidianos, gestos, paisagens e referências da diáspora negra para investigar identidade, território e memória e questionar estereótipos que limitam a representação das subjetividades negras. Doutorando em Artes Visuais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), foi pesquisador visitante na Universidade de Nova York em 2024, com bolsa CapesPrint. Seu trabalho já passou pela Biennale de Dakar, em 2022, e por mostras em Nova York e Londres.

Em entrevista ao programa “Empreender Brasil”, da TV 247, ele contou como construiu sua carreira, quais são os desafios financeiros de quem escolhe viver da produção artística e por que a cultura deve ser reconhecida como parte estratégica da economia brasileira.

A universidade pública como ponto de partida

Adriano é neto de uma lavadeira e de um feirante, e foi o primeiro da família a se formar artista. Entrar numa universidade pública mudou não só o rumo da vida dele, mas o ambiente da casa onde cresceu.

Ele estudou na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), na primeira turma de Artes Visuais do interior do estado. Depois fez o mestrado na UFBA e seguiu para o doutorado, que o levou a sete meses de pesquisa em Nova York. Segundo ele, nenhuma dessas portas estaria ao seu alcance sem investimento em educação pública. Foi na universidade que desenvolveu sua linguagem, aprendeu como funcionam editais e processos seletivos e criou conexões com instituições e espaços de circulação da arte.

Se a formação abriu caminhos, sustentá-los exigiu outras estratégias. Adriano sempre estudou e trabalhou ao mesmo tempo. Hoje, é técnico de design gráfico na prefeitura de seu município, e esse salário paga as contas pessoais, como aluguel, água e luz. O dinheiro que vem da arte volta para a própria arte, financiando novos projetos.

A conta é pesada porque a fotografia autoral custa muito mais do que uma câmera. Dependendo da proposta, é preciso pagar por cenários, tecidos, materiais, locações, assistentes e impressão das imagens. Para dar conta, ele diversifica: participa de editais, faz trabalhos como freelancer, fotografa outros profissionais, atua em projetos de arte e educação, vende obras a colecionadores e busca exposições que ofereçam cachê ou custeiem a produção.

Essa lógica vem de longe. A primeira câmera de Adriano foi um celular com câmera VGA. Com o dinheiro de trabalhos e premiações, foi trocando de equipamento. Fotografou aniversários infantis e eventos para comprar lentes e outros materiais que sustentassem sua pesquisa autoral. Com o tempo, passou a priorizar projetos ligados à sua pesquisa e a reduzir a fotografia comercial.

Nada disso dispensa a necessidade de gerar renda. Algumas exposições pagam o artista, outras só cobrem os custos de realização, e algumas abrem a possibilidade de vender fotografias. O desafio é combinar essas fontes para que o trabalho continue.

“Eu vou articulando para que eles consigam se pagar, para que, de algum modo, eu consiga fazer com que a minha carreira continue se pagando”, explicou.

O tempo também pesa. Adriano passou cinco anos desenvolvendo uma pesquisa fotográfica que não encontrava espaço em editais nem em exposições. Depois de participar de dois projetos quase ao mesmo tempo, o trabalho começou a circular, recebeu convites e passou a gerar vendas.

A história mostra que a qualidade de uma obra nem sempre garante circulação imediata. É preciso construir redes, entrar em processos seletivos, encontrar quem financie e ter fôlego para sustentar o trabalho enquanto as oportunidades não aparecem. Empreender na arte, portanto, é conviver com a incerteza e seguir criando alternativas, mesmo quando as condições não são as ideais.

Cultura também movimenta a economia

Num momento em que a destinação de dinheiro público para projetos artísticos é frequentemente questionada, Adriano defende olhar para a cadeia inteira que uma iniciativa cultural mobiliza.

Uma exposição não envolve apenas o artista e o espaço que recebe as obras. Ela gera trabalho para produtores, curadores, montadores, eletricistas, iluminadores e transportadores, e movimenta hotéis, restaurantes e pequenos negócios que atendem o público e as equipes.

Ele dá um exemplo concreto. Em um projeto feito em parceria com outro artista, R$ 50 mil em recursos permitiram contratar 16 profissionais, todos do próprio território. Até os materiais de montagem e iluminação foram comprados no comércio local. O projeto recebeu dezenas de escolas e levou centenas de crianças à exposição. Na abertura, uma empreendedora da região vendeu bebidas e alimentos e ampliou sua renda.

Adriano aponta uma contradição no debate público: o brasileiro se orgulha da própria cultura, mas critica as políticas que a sustentam. Ele lembra a abertura e o encerramento dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, quando música, manifestações populares, diversidade regional e produção artística foram apresentadas ao mundo e despertaram um sentimento coletivo de identificação.

Para ele, não faz sentido celebrar essas expressões em grandes eventos e ignorar as condições para que continuem existindo. A cultura depende de profissionais que estudam, pesquisam e dedicam anos a uma carreira, e de instituições capazes de financiar projetos, preservar a memória e ampliar a circulação das obras.

Adriano defende o fortalecimento de um Ministério da Cultura forte e oportunidades de projeção nacional e internacional para artistas de todas as regiões. Museus, bienais e instituições culturais, lembra, são espaços de memória, história e educação, essenciais para que uma sociedade compreenda sua trajetória e reconheça sua diversidade. Fortalecê-los também ajuda a projetar a produção brasileira no exterior e abre espaço para artistas do interior serem reconhecidos.

Para Adriano, a arte só se sustenta quando há educação que forme, políticas que financiem e uma sociedade que reconheça o artista como trabalhador. Assista a entrevista na íntegra aqui: