Análise: Leilão de transmissão passa ao largo de turbulência de curto prazo e renova deságio elevado
Fonte: valor.globo.com | Data: 31/10/2026 08:14:19
Certame registrou um desconto médio de 50,10%, mantendo nível observado nas últimas licitações
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O último leilão de transmissão de energia elétrica do ano, realizado na sexta-feira (30) em São Paulo, apresentou resultados que praticamente ignoraram as turbulências de curto prazo no cenário macroeconômico. O certame terminou com os oito lotes arrematados e um deságio médio de 50,1%, pouco abaixo do último certame, que em julho registrou 53,2%, mas dentro do que vem sendo observado nas licitações dos últimos anos.
O setor é consolidado e considerado um porto seguro para investidores na área de energia. Com as receitas estáveis e previsíveis, já que os empreendedores são remunerados pela Receita Anual Permitida (RAP) ofertada em leilão, ainda assim havia dúvidas sobre a manutenção de competitividade em níveis tão elevados quanto os observados diante dos solavancos do dólar após o segundo turno das eleições presidenciais, que mexeu também com a curva de juros futuros, fator que pesa para setores de capital intensivo como a infraestrutura.
Para o secretário de leilões da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Ivo Sechi Nazareno, o resultado do certame demonstra que os negócios do segmento são “blindados” a oscilações de curto prazo. “Os investidores continuam acreditando no setor elétrico e as questões de curto prazo não afetam essa infraestrutura de longo prazo uma vez que os contratos são longos e vão acomodar essas oscilações momentâneas que acontecem”, avaliou a jornalistas, após o certame.
O responsável por leilões de transmissão do Santander, Marcelo Sahatdjian, reitera a consolidação do segmento. “Independente de algum cenário macro, cada interessado faz suas próprias contas e considera todos os riscos envolvidos. Os riscos de execução e operação são os mesmos e a grande variável que existe é o tema dos juros de longo prazo, mas, de certa forma, isso é precificado em cada oferta”, afirmou ao Valor.
No todo, pesa também a estratégia da Aneel de fixar RAPs máximas capazes de atrair mais empresas para o certame, no qual vence quem ofertar o maior desconto para tais valores. A estratégia tem sido bem sucedida pelo menos desde 2017, com deságios sempre próximos de 40%.
“O objetivo da receita teto é permitir a competição. O que é importante é o resultado. Se você aperta demais a receita para tentar chegar próximo do resultado, o que você faz é com que os demais competidores, um por um, não consigam mais oferecer propostas”, explicou Sechi ao Valor.
Ele pondera, no entanto, que a agência considera também o impacto dessas receitas na tarifa paga pelo consumidor final que, em última instância, é quem remunera a construção e operação dos ativos levando em conta uma série de informações como o banco de preços e base de investimentos para estabelecer os montantes.
No todo, a estratégia parece estar funcionando e cabe agora acompanhar para que as empresas vencedoras – Celeo, Cymi, Neoenergia, EDP e Cox Brasil – entreguem os ativos arrematados nos prazos acordados. Todas já são atuantes no segmento e, portanto, já têm expertise quanto às questões ambientais, regulatórias e de execução que são características do desenvolvimento dos projetos.
“A presença de diferentes grupos na disputa demonstra a atratividade de projetos de transmissão de grande escala e coloca agora no centro da discussão a capacidade de converter competitividade no leilão em eficiência de implantação e geração de valor durante os 30 anos da concessão”, destacou o sócio da KPMG, Thiago Oliveira, sobre o certame.
A expectativa é que os contratos sejam assinados em fevereiro de 2027, data a partir da qual começam a correr os prazos para entrada em operação comercial, que variam de 42 a 60 meses a depender do lote.
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