Mulher Desconhecida’: filme premiado em Veneza retrata as mulheres que a história escolheu não enxergar
Fonte: glamour.globo.com | Data: 31/10/2026 08:07:05
A jornalista cultural e criadora de conteúdo Julia Pitaluga analisa o longa de May el-Toukhy, vencedor do Leão de Ouro, e reflete sobre a invisibilidade feminina dentro e fora das telas
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Minha maratona na Mostra de São Paulo começou com Tigre de Papel, de James Gray, e terminou com Mulher Desconhecida, de May el-Toukhy. Entre os dois, encontrei um mesmo assunto visto de lados opostos: a invisibilidade das mulheres.
No filme de Gray, dois irmãos perseguem o sonho americano e acabam arrastados para um submundo de corrupção e violência. É um universo de homens: eles decidem, arriscam, erram e ocupam quase toda a tela. Hester, interpretada por Scarlett Johansson, é a esposa e mãe que o enredo coloca no meio do caos, sem nunca lhe dar o controle sobre ele.
É ela quem sustenta a casa, quem mede o que está em jogo e quem percebe o perigo antes mesmo que ele tenha nome. Mas há algo que o filme não lhe concede plenamente: ser vista. As decisões que vão custar caro à sua família são tomadas por outros, à sua volta e à sua revelia. A ela cabe esperar, desconfiar e arcar com as consequências.
Há algo de cruelmente cotidiano nisso. Hester não é apagada por um vilão. É apagada por quem a ama, em um esquecimento aparentemente gentil, que dispensa até a má-fé. Os homens da família não a rejeitam, simplesmente não a enxergam, como quem já sabe de antemão que a mulher vai compreender, aguentar e perdoar.
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Qualquer mulher conhece essa cadeira vazia à mesa onde as decisões importantes são tomadas. Talvez seja a forma mais doméstica de invisibilidade e uma das mais difíceis de filmar com a sensibilidade que Gray demonstra.
O próprio longa parece reconhecer essa contradição: percebe-se o esforço do diretor e de Johansson para que Hester não se reduza à esposa aflita. Ainda assim, a personagem permanece nas margens de uma história que também deveria ser sua. Mulher Desconhecida faz o movimento inverso. Aqui, a mulher não está à margem da narrativa. Ela é a história.
Mas o que o filme revela é que uma mulher pode ocupar o centro da tela e, ainda assim, permanecer invisível para o mundo que a cerca. Hester é esquecida dentro de uma narrativa da qual faz parte. Marie, protagonista de Mulher Desconhecida, tem sua história contada, mas representa tantas outras mulheres esquecidas pela História.
A violência que atravessa o corpo
Saí da minha última sessão da Mostra de São Paulo com os ombros tensos, como quem atravessou uma sala sem saber onde pisar. Há filmes a que assistimos com os olhos e outros que sentimos com o corpo. Mulher Desconhecida pertence ao segundo grupo. Em certos momentos, a violência na tela é seca, sem concessões, e me vi desviando o olhar. Não por pudor, mas por reconhecimento.
Existe um desconforto específico em ser mulher diante da brutalidade retratada: perceber que ela nos é familiar, ainda que a história se passe em um tempo distante.
Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2026, o filme de May el-Toukhy é ambientado na Dinamarca do pós-guerra. Acompanhamos Marie, interpretada com uma contenção magnética por Mathilde Arcel, também premiada em Veneza, com a Coppa Volpi de Melhor Atriz.
Marie é uma jovem empregada doméstica prestes a se casar com Christian, um viúvo rico para quem trabalha. O casamento representa uma possibilidade de ascensão social, mas ela guarda um segredo: durante a ocupação nazista, manteve um relacionamento com um soldado alemão.
O que o filme enxerga com precisão é o preço dessa ascensão. Marie precisa ser grata, discreta e impecável. Cada gesto seu é uma pequena negociação com a sobrevivência. Quem nasceu mulher conhece esse cálculo silencioso. Mudaram os cenários, e o cálculo continua.
Quando a beleza não consola
Há beleza no filme, e ela é deliberada. A luz tem uma delicadeza quase pictórica, os interiores são revestidos da elegância fria de quem tem muito a esconder, e o figurino diz mais do que os diálogos. Essa estética constrói um contraste poderoso: quanto mais refinado o enquadramento, mais crua parece a violência que o atravessa. A beleza aqui não consola. Ela acusa.
Seria desonesto, porém, não admitir que o filme, por vezes, esfria. Em seu ritmo calculado, a narrativa se demora, e a contenção que é sua maior virtude também a torna morna em alguns trechos. Esperei um incêndio e recebi, mais de uma vez, apenas brasas.
Ainda assim, perdoo a temperatura. O que Mulher Desconhecida tem a dizer está entre os assuntos mais urgentes da programação da Mostra de São Paulo: as histórias de mulheres invisibilizadas, silenciadas e esquecidas.
Há também uma ironia que ultrapassa a ficção. May el-Toukhy foi a única mulher a dirigir sozinha um longa-metragem entre os 21 selecionados para a competição principal do Festival de Veneza de 2026. E foi justamente ela quem conquistou o Leão de Ouro.
Ao receber o prêmio, a diretora chamou atenção para as desigualdades de oportunidades na indústria cinematográfica e para a necessidade de iluminar as histórias de mulheres desconhecidas, devolvendo-lhes a visibilidade que lhes foi negada.
O reconhecimento ganha, assim, uma dimensão simbólica. Enquanto seu filme questiona o apagamento feminino na História, sua vitória também expõe as desigualdades que ainda atravessam o próprio cinema.
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As mulheres que carregamos conosco
Saí do cinema devagar. Lá fora, São Paulo seguia em seu ruído habitual, e pensei em todas as Maries que nunca ganharam um filme. Mulher Desconhecida não é perfeito, mas é necessário. E o necessário, às vezes, vale mais do que o perfeito.
Comecei a Mostra diante de uma mulher à espera na porta de casa e terminei diante de outra, à procura de um lugar no mundo. Entre uma e outra, cabe minha vida inteira.
Cabe minha mãe, que decidia o jantar, mas nunca a viagem. Cabem minhas avós, cujas histórias mal cheguei a conhecer. Cabe cada vez que fui a última a ser consultada sobre algo que dizia respeito à minha própria vida.
Saí da sessão com pressa de voltar para o Rio de Janeiro, mas antes abracei minhas amigas cinéfilas. Foi um abraço de despedida, mas também daqueles que parecem dizer, sem precisar de palavras: “Eu te entendo”.
Fiquei um instante parada na calçada, com a sensação estranha de ter sido vista. Não apenas pelo filme, mas primeiro por elas, depois por mim mesma e, talvez, por todas aquelas que vieram antes de nós e não tiveram quem as filmasse. Que os próximos festivais de cinema nos encontrem menos desconhecidas.
Filme assistido durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em 2026.
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