Médicos são denunciados por perseguição política e ameaças de boicote a pacientes de esquerda
Fonte: brasil247.com | Data: 31/10/2026 12:47:52
247 – Profissionais da saúde de diferentes estados brasileiros estão sendo denunciados por episódios de perseguição política contra colegas e manifestações que sugerem a discriminação de pacientes identificados como apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Os relatos incluem a divulgação de listas com nomes de médicos considerados de esquerda, ameaças de tratamento diferenciado e publicações que defendem a recusa de assistência a eleitores petistas.
Segundo reportagem da BBC News Brasil, os casos foram registrados em Sergipe, Bahia, Espírito Santo, São Paulo e Goiás. As denúncias levaram à abertura de procedimentos de apuração em conselhos regionais de medicina e à adoção de medidas administrativas em instituições de saúde. Parte dos profissionais envolvidos contesta as acusações, enquanto outros reconheceram a inadequação das publicações.
Um dos episódios mais graves ocorreu em Sergipe, onde um anestesiologista relatou ter sido incluído em uma lista de profissionais identificados como apoiadores da esquerda, divulgada em um grupo privado de WhatsApp após a reeleição de Lula.
“Na hora que eu recebi a lista, fiquei sem chão. Senti um alvo na minha cabeça”, afirmou o médico, que pediu anonimato por temer represálias.
O documento reunia os nomes de 15 profissionais sob a identificação “Lulistas = esquerdistas = petistas”. O grupo em que a relação foi compartilhada reunia aproximadamente um terço dos anestesiologistas do estado. Ao lado de alguns nomes, também apareciam bandeiras do movimento LGBTQIA+.
O profissional contou que soube da existência da lista quando se preparava para participar das comemorações pela vitória eleitoral de Lula. Após identificar o colega apontado como responsável pela publicação, procurou esclarecimentos sobre a finalidade do levantamento, mas afirmou ter recebido gritos, ofensas e xingamentos.
“O objetivo da lista é justamente o que eu busco entender. Segundo o colega, seria uma enquete informal. Mas qual o objetivo de identificar quem vota ou deixa de votar na esquerda? Não interessa ao colega meu posicionamento político-partidário”, declarou.
O anestesiologista ressaltou que suas manifestações políticas se restringiam às redes sociais privadas e à participação em atividades eleitorais fora do ambiente profissional.
“Mas não postei nada em grupos, não me posicionei em ambiente de trabalho. Até evitava falar de política nesses ambientes. Só postava no meu insta”, relatou.
Após questionar a divulgação da lista em um grupo institucional utilizado para organizar plantões, o médico afirmou que a publicação foi apagada. Ele também denunciou novas ligações com ofensas homofóbicas.
Diante da situação, procurou o Departamento de Atendimento a Grupos Vulneráveis (DAGV) da Polícia Civil e solicitou uma medida protetiva. Também formalizou uma denúncia à cooperativa responsável pela organização dos plantões, que, segundo seu relato, concordou em evitar que os dois profissionais trabalhassem juntos durante a apuração.
“O presidente da cooperativa veio pessoalmente conversar comigo, me deu um abraço e disse que tudo seria investigado”, afirmou.
A possibilidade de encaminhar o episódio ao Conselho Regional de Medicina de Sergipe (Cremese) ainda estava sendo analisada pelo anestesiologista e seu advogado. Procurados pela BBC News Brasil, o conselho e a cooperativa não responderam. O médico apontado como responsável pela lista também não foi localizado.
Cardiologista compartilhou publicação contra atendimento a petistas na Bahia
Na Bahia, uma cardiologista que atua em Lauro de Freitas foi denunciada após compartilhar em seu perfil profissional no Instagram uma publicação que incentivava a recusa de ajuda a eleitores do PT.
O conteúdo havia sido divulgado originalmente por uma ex-candidata a vereadora e primeira suplente do PL, partido do senador Flávio Bolsonaro, derrotado na eleição presidencial.
Entre as orientações presentes na publicação estavam as frases “Não ajude petista na fila da regulação”, “Não ajude petista em pedido de emprego” e “Não ajude petista com remédio ou dinheiro”.
Ao compartilhar a mensagem, a cardiologista teria acrescentado: “Toda escolha traz consequências…”
A referência à regulação de atendimentos e ao fornecimento de medicamentos provocou preocupação entre outros profissionais da saúde, que interpretaram o conteúdo como possível incentivo à discriminação de pacientes por suas preferências políticas.
Um grupo de médicos encaminhou denúncia ao Conselho Regional de Medicina da Bahia (Cremeb) e comunicou o episódio às autoridades estaduais de saúde.
Posteriormente, a cardiologista reconheceu a inadequação da publicação em uma nota divulgada no perfil da clínica em que trabalha. Ela afirmou que o compartilhamento “foi um equívoco” e lamentou “a preocupação, a insegurança e o desconforto que possa ter provocado”.
“Quero afirmar com clareza: não defendo que qualquer pessoa seja privada de atendimento médico, medicamentos ou cuidados de saúde por seu posicionamento político”, declarou.
A profissional também reafirmou seu compromisso com a assistência médica sem discriminação.
“Respeito a liberdade de pensamento e reafirmo meu compromisso com os princípios éticos da medicina, com o cuidado humanizado e com a assistência sem qualquer discriminação.”
A clínica divulgou uma manifestação própria, na qual declarou não adotar posicionamentos político-partidários e assegurou que as opiniões pessoais de seus profissionais não determinam as condições de atendimento.
“Nosso lado é o da vida, da saúde e do ser humano”, afirmou a instituição.
A Secretaria da Saúde da Bahia informou à BBC News Brasil que não havia recebido denúncias formalizadas relacionadas a profissionais de sua rede assistencial. O Cremeb não respondeu aos questionamentos sobre o andamento do caso.
Conselho investiga médica no Espírito Santo após publicação sobre medicamentos
Outro episódio é investigado pelo Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo (CRM-ES), que abriu sindicância para examinar a conduta de uma médica acusada de compartilhar uma publicação sobre mudanças nas prescrições de medicamentos após o resultado eleitoral.
A mensagem, apresentada em tom irônico, sugeria a substituição de remédios e a desconsideração de justificativas de pacientes que não tivessem condições financeiras de adquirir os medicamentos prescritos.
O caso foi denunciado publicamente pela deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG), que recebeu 524 mil votos em Minas Gerais.
“Começou com uma lista de boicote de comércio e agora alguns médicos já estão anunciando boicotar as vidas das pessoas. Porque quando você anuncia no seu Instagram que vai trocar os remédios das pessoas, nada mais é do que boicote à existência daquela pessoa”, afirmou a parlamentar em vídeo divulgado nas redes sociais.
Em resposta à BBC News Brasil, o CRM-ES confirmou a existência de uma sindicância e explicou que o procedimento poderá resultar em processo ético-profissional, caso sejam identificados elementos suficientes para sustentar uma possível infração.
O conselho destacou que as denúncias recebidas são investigadas e que os procedimentos seguem regras de sigilo.
Médico de hospital paulista publicou ataques contra eleitores de Lula
Em São Paulo, um cardiologista vinculado ao Einstein Hospital Israelita também foi alvo de questionamentos após publicar mensagens ofensivas contra apoiadores do presidente Lula.
Em uma sequência de publicações no Instagram, o profissional teria afirmado: “Não atendo petistas vagabundos”.
Na mesma manifestação, segundo o material divulgado pela imprensa, o médico mencionou possuir “recursos” para sustentar as recusas de atendimento.
Procurado pela BBC News Brasil, o Einstein informou que repudia manifestações discriminatórias e que o episódio estava sendo tratado de acordo com as normas éticas da instituição.
O cardiologista responsável pelas publicações não foi localizado pela reportagem para apresentar sua versão dos fatos.
Ginecologista foi demitida após mensagem sobre pacientes petistas em Goiás
Em Goiânia, uma ginecologista e obstetra foi afastada e posteriormente demitida do Hospital Municipal da Mulher e Maternidade Célia Câmara após a divulgação de mensagens enviadas a um grupo de WhatsApp de profissionais da unidade.
De acordo com capturas de tela apresentadas pela TV Anhanguera, a médica teria orientado colegas a não concederem altas hospitalares durante o fim de semana do primeiro turno das eleições, associando a recomendação ao posicionamento político das pacientes.
“Quem estiver na enfermaria sábado e domingo, não dar alta para ninguém, a maioria é petista”, dizia a mensagem atribuída à profissional.
O hospital abriu uma investigação interna e encaminhou o episódio ao Conselho Regional de Medicina de Goiás (Cremego).
O órgão informou que denúncias envolvendo possíveis infrações éticas são apuradas sob sigilo, conforme as normas aplicáveis aos processos ético-profissionais. Também afirmou que solicita esclarecimentos aos responsáveis técnicos das instituições mencionadas.
A ginecologista contestou a interpretação de que teria prejudicado pacientes por razões políticas. Segundo sua versão, todas as mulheres atendidas foram avaliadas e receberam alta exclusivamente com base em critérios clínicos.
A profissional acrescentou que, desde 2017, realizou milhares de partos de pacientes com diferentes origens e convicções.
Código de Ética Médica proíbe discriminação no atendimento
As denúncias levantam questionamentos sobre o cumprimento das normas que regulamentam a prática médica no Brasil, especialmente quanto à obrigação de garantir assistência sem discriminação.
O Código de Ética Médica, estabelecido pela Resolução nº 2.217/2018 do Conselho Federal de Medicina (CFM), determina que a atividade profissional deve ser exercida sem discriminação de qualquer natureza.
A norma define a medicina como uma “profissão a serviço da saúde do ser humano e da coletividade” e estabelece princípios que devem orientar a relação entre médicos e pacientes.
Nos casos de urgência e emergência, o atendimento é obrigatório nas condições previstas pelas normas éticas. Fora dessas situações, a autonomia profissional também está sujeita a limites, incluindo a proibição de práticas discriminatórias e a obrigação de assegurar a continuidade adequada da assistência.
As regras éticas permanecem aplicáveis às manifestações de médicos nas redes sociais. A regulamentação da publicidade médica não afasta a responsabilidade dos profissionais pelo conteúdo que divulgam.
Em nota à BBC News Brasil, o CFM explicou que cabe aos conselhos regionais investigar denúncias envolvendo possíveis violações do Código de Ética Médica.
“Denúncias sobre possíveis infrações éticas profissionais de médicos devem ser feitas ao CRM do estado onde o fato ocorreu para que haja apuração. Por ser instância recursal, o CFM não comenta casos concretos sob pena de nulidade processual”, informou a entidade.
A Lei nº 3.268/1957 prevê penalidades disciplinares que podem incluir advertência, censura, suspensão e cassação do exercício profissional, conforme a gravidade da infração e as conclusões dos procedimentos competentes.