Alunos de Medicina são expulsos e suspensos por ataques a bolsistas e alusão ao nazismo no Paraná
Fonte: brasil247.com | Data: 31/10/2026 15:33:34
247 – A UniCesumar, no Paraná, decidiu expulsar estudantes do curso de Medicina envolvidos na divulgação de mensagens ofensivas contra colegas bolsistas e de conteúdos associados ao nazismo em um grupo de WhatsApp da turma. A universidade também aplicou suspensões e advertências, conforme a gravidade das condutas identificadas em uma sindicância interna.
A instituição anunciou as punições neste sábado (31), após concluir a investigação administrativa na sexta-feira (30). A universidade não informou quantos alunos foram expulsos, suspensos ou advertidos. O episódio também é investigado pelo Ministério Público Federal (MPF) e provocou uma manifestação do Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR).
As mensagens foram compartilhadas no domingo (25), em meio a discussões relacionadas às eleições. Parte dos estudantes passou a atacar colegas que ingressaram na universidade por meio de programas sociais, estabelecendo comparações entre aqueles que pagam integralmente as mensalidades e os beneficiários de bolsas de estudo.
Em uma das conversas, um estudante afirmou que a capacidade de pagar pelo curso representaria uma condição de superioridade em relação aos colegas selecionados por critérios acadêmicos.
“Quem paga trabalhou e tem 15 mil [reais] por mês para pagar >>>>>>> Quem passou numa provinha”, escreveu um dos participantes.
A declaração provocou a reação de outra estudante, que condenou os ataques e destacou que todos os alunos receberão a mesma formação profissional, independentemente das condições financeiras ou da modalidade de ingresso na universidade.
“Virou bonito ofender quem não tem dinheiro para pagar toda a mensalidade, como vocês? Todo mundo aqui vai sair com CRM [registro profissional para exercer a medicina]”, afirmou.
Referências ao nazismo agravam repercussão
Além dos ataques aos bolsistas, as conversas incluíram imagens e expressões associadas ao nazismo e a movimentos supremacistas brancos.
Em uma das mensagens, um estudante compartilhou uma fotografia do Exército nazista acompanhada de referências ao “leite cru”, expressão utilizada em determinados grupos extremistas na internet e associada a discursos de supremacia branca.
A circulação desses conteúdos ampliou a repercussão do episódio e levou o caso à esfera de investigação federal. O Ministério Público Federal confirmou ao g1 que recebeu uma denúncia relacionada às mensagens e que está apurando os fatos.
O portal não divulgou a identidade dos estudantes envolvidos porque as investigações dos órgãos responsáveis ainda estão em andamento e existe a possibilidade de participação de menores de idade.
Estudante relata ambiente hostil na universidade
A repercussão das mensagens também afetou o ambiente acadêmico. Um estudante ouvido pelo g1, sob condição de anonimato, relatou que tanto os autores das ofensas quanto os colegas atingidos deixaram de frequentar a instituição desde que o caso se tornou público.
Segundo ele, os ataques ultrapassaram os limites de uma discussão eleitoral e evidenciaram manifestações de preconceito socioeconômico entre os universitários.
“É um clima hostil na faculdade, um clima hostil nos grupos, que vai muito além de divergências políticas. Parece que o contexto da eleição foi apenas um pretexto para eles extravasarem o ódio às pessoas mais pobres”, declarou.
O relato aponta para as consequências do episódio na convivência entre os estudantes, especialmente diante das ofensas dirigidas a alunos que dependem de programas de bolsas para cursar Medicina.
UniCesumar confirma expulsões, suspensões e advertências
Em comunicado oficial, a UniCesumar informou que a sindicância interna foi encerrada em 30 de outubro e que a reitoria decidiu aplicar as punições recomendadas pela comissão responsável pela apuração.
“As medidas disciplinares foram: desligamentos do quadro discente da Instituição, advertências e suspensões, de acordo com a gravidade de cada conduta apurada”, informou a universidade.
A instituição ressaltou que as decisões foram tomadas com base em seu regimento interno e reafirmou o compromisso com os princípios éticos que devem orientar a formação dos futuros profissionais de saúde.
“A UniCesumar reafirma seu compromisso com a ética, a responsabilidade, o respeito à vida e os valores que orientam a formação de seus estudantes. A Instituição repudia veementemente qualquer forma de discriminação ou preconceito”, declarou.
Apesar de confirmar a aplicação de diferentes penalidades, a universidade não esclareceu o número de estudantes punidos em cada categoria, mesmo após questionamento da reportagem.
A UniCesumar também informou que o Núcleo de Apoio ao Estudante de Medicina (NAEME) permanece disponível para oferecer acolhimento, orientação e suporte aos universitários afetados pelo episódio.
Conselho de Medicina condena atitudes discriminatórias
O Conselho Regional de Medicina do Paraná também se posicionou sobre o caso e afirmou que as condutas relatadas são incompatíveis com os princípios éticos exigidos de estudantes da área da saúde.
Em manifestação oficial, o CRM-PR destacou que a formação médica pressupõe respeito à dignidade humana e atendimento à população sem qualquer tipo de discriminação.
“Tais atitudes ferem diretamente os princípios fundamentais do Código de Ética do Estudante de Medicina, segundo os quais o estudante deve estar a serviço da saúde do ser humano e da coletividade, exercendo suas atividades sem discriminação de qualquer natureza”, afirmou o conselho.
A entidade ressaltou ainda que o exercício da Medicina exige compromissos que ultrapassam o conhecimento técnico, incluindo responsabilidade social e respeito às diferenças.
“A escolha pela Medicina exige compromissos humanísticos e humanitários, pautados pela promoção do bem-estar físico, mental e social dos indivíduos e da coletividade. Atitudes discriminatórias são incompatíveis com esses valores e não devem ser toleradas no ambiente de formação médica”, acrescentou.
O CRM-PR informou que acompanhará os desdobramentos do episódio e poderá adotar medidas dentro de suas competências institucionais.
“O CRM-PR adotará todas as providências cabíveis no âmbito de suas atribuições institucionais e acompanhará o desdobramento do caso, contribuindo para que haja uma apuração rigorosa e transparente dos fatos pelas instâncias competentes”, concluiu.