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Relatório revela tortura, ameaças de morte e agressões policiais na chacina de Claudio Castro que matou 122 pessoas

Fonte: brasil247.com | Data: 01/11/2026 08:44:42

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247 – Um relatório da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro identificou indícios de tortura, ameaças de execução, agressões físicas e intimidação de moradores durante a Megaoperação Contenção, realizada em 28 de outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão. A ação policial, considerada a mais letal da história brasileira, terminou com 122 mortos, incluindo cinco agentes de segurança. As gravações analisadas mostram pessoas imobilizadas sendo agredidas, mulheres submetidas a disparos de armas de eletrochoque e um idoso coagido a apagar imagens de uma abordagem policial.

As informações foram divulgadas pelo g1, neste domingo (1º), com base em um levantamento produzido pela 3ª Defensoria Pública do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos, em parceria com o Projeto Mirante. O estudo examinou 10.202 arquivos audiovisuais relacionados à atuação de 529 policiais militares e encontrou também graves problemas no funcionamento, na utilização e na disponibilização das câmeras corporais. Apesar da quantidade de registros, nenhum dos vídeos fornecidos mostra os momentos em que ocorreram as mortes.

O documento reúne episódios de violência contra moradores, trabalhadores e pessoas detidas, além de identificar situações nas quais agentes desligaram equipamentos, obstruíram lentes ou posicionaram câmeras de maneira a impedir o registro das abordagens. As conclusões foram encaminhadas ao Ministério Público, às corregedorias policiais e a autoridades federais para apuração de possíveis irregularidades.

Policiais ameaçaram executar homem imobilizado

Um dos episódios mais graves ocorreu no Complexo da Penha, onde policiais do Batalhão de Polícia de Choque detiveram um homem acusado por um sargento de disparar contra a equipe e abandonar um fuzil. As imagens mostram o suspeito dominado no chão, enquanto um agente mantém o pé sobre sua cabeça.

Durante a abordagem, um policial determina que o homem seja levado para um local afastado e ameaça matá-lo. “Vamos matar essa p*rra!”, afirma o agente, conforme a gravação analisada pela Defensoria.

O detido também teria sido atingido no rosto e submetido à colocação de um pano ensanguentado sobre a cabeça. Enquanto o tecido permanecia sobre ele, os policiais exigiam informações sobre a localização da arma. “Se falar onde tá o fuzil, o sofrimento acaba!”, diz um dos agentes.

Ameaças de morte e desaparecimento de imagens

O relatório descreve ainda agressões com um pedaço de madeira durante o deslocamento do homem até uma laje. Em determinado momento, policiais fazem comentários sobre a possibilidade de lançá-lo de um local elevado. “Ele vai virar avião, vai voar!”, registra uma das gravações.

A documentação aponta um intervalo de aproximadamente 17 minutos sem imagens do detido. Somente depois desse período aparece o objeto identificado pelos policiais como um fuzil. Nenhum dos arquivos examinados registra o momento em que a arma teria sido localizada.

A identidade do homem ainda não havia sido confirmada pelos responsáveis pelo levantamento. As circunstâncias descritas no documento levantam suspeitas de violência durante a custódia policial e de possíveis irregularidades na preservação das provas.

Mototaxistas foram agredidos e sufocados

Nos registros relacionados ao Complexo do Alemão, câmeras de quatro policiais do Batalhão de Rondas Especiais e Controle de Multidão (Recom) mostram abordagens violentas contra mototaxistas. Trabalhadores receberam tapas e chutes, enquanto outro motociclista foi sufocado com uma peça de roupa.

Em um dos episódios, um idoso que acompanhava uma abordagem dentro de um carro começou a filmar policiais que revistavam e agrediam um mototaxista. Ao perceber a gravação, um dos agentes passou a ameaçá-lo e exigiu que apagasse o conteúdo.

“Tu para de sacanagem com a polícia, hein? (…) Te acho onde eu quiser! Apaga essa p*rra! Vai embora!”, afirmou o policial.

Segundo a Defensoria, os agentes frequentemente justificavam as abordagens com suspeitas de colaboração com o tráfico de drogas, especialmente na obstrução de vias de acesso às comunidades. Entretanto, o material mostra pessoas agredidas mesmo depois de liberadas ou quando a verificação de seus celulares não apresentava indícios de ligação com organizações criminosas.

Mulheres receberam eletrochoques e gás no rosto

O levantamento também documenta violência contra mulheres que desembarcavam de um ônibus. Durante a intervenção policial, algumas delas foram atingidas por armas de eletrochoque e pelo menos sete acabaram detidas.

Uma das gravações mostra uma mulher recebendo um disparo de eletrochoque quando já estava rendida, depois de pedir calma a um policial. Em outro episódio, uma mulher que se identificou como trabalhadora da saúde foi submetida a uma abordagem marcada por insultos, ameaças e violência física.

Segundo os registros, ela admitiu ter respondido a mensagens relacionadas à movimentação policial na região. Durante a abordagem, foi atingida por uma arma de eletrochoque e recebeu um jato de gás no rosto antes de ser liberada.

Um dos policiais envolvidos fez ameaças explícitas contra a mulher. “Arrebentar ela, deixar ela moída!”, afirmou. Em outro momento, declarou: “Dá vontade de arrebentar ela, quebrar a perna dela, essa filha da p*ta!”

As gravações também registraram o uso de gás lacrimogêneo contra mulheres e crianças em um supermercado onde havia informações sobre um possível saque. Funcionários do estabelecimento passaram mal após a dispersão do produto químico, enquanto policiais foram flagrados rindo da situação.

Câmeras foram desligadas e imagens desapareceram

Além das denúncias de violência, a Defensoria encontrou inconsistências que comprometem a reconstrução dos acontecimentos. Embora tenha recebido 10.202 arquivos de vídeo, o órgão não identificou gravações dos momentos em que as 122 pessoas morreram.

O documento ressalta que a ausência dessas imagens não significa necessariamente que elas nunca tenham sido produzidas. Para os pesquisadores, é necessário esclarecer se houve falhas de gravação, problemas de armazenamento ou dificuldades na disponibilização dos arquivos.

Também não foram localizadas imagens de 69 policiais militares. Outros 50 vídeos foram entregues sem o código hash, utilizado para verificar a integridade dos arquivos digitais.

A análise identificou pelo menos duas câmeras vinculadas ao mesmo registro funcional, embora estivessem gravando simultaneamente em locais diferentes. Em uma das gravações, um policial chegou a afirmar que conseguiria “tirar 300 câmeras no mesmo RG”.

Bope disparou quase 12 mil tiros, mas forneceu poucas imagens

Os números relacionados ao emprego de munição e à disponibilidade de câmeras corporais estão entre os pontos mais preocupantes do levantamento.

Entre as unidades especializadas da Polícia Militar com dados informados, foram contabilizados 13.851 disparos. Desse total, 11.995, equivalentes a 86,6%, foram efetuados por agentes do Batalhão de Operações Especiais (Bope).

Entre os 50 policiais do Bope que mais utilizaram munição, cada um com consumo de 100 a 300 projéteis, somente oito portavam câmeras corporais. As gravações de apenas dois desses agentes foram disponibilizadas aos pesquisadores, mas ambas terminavam antes da chegada às comunidades.

No conjunto da Polícia Militar, somente 595 dos 1.802 agentes empregados na operação estavam equipados com câmeras. A baixa cobertura audiovisual dificulta a verificação independente das circunstâncias em que a força letal foi utilizada.

A situação também apresentou problemas na Polícia Civil. Entre os 128 policiais da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) sujeitos à obrigatoriedade de utilização dos equipamentos, apenas 61 efetivamente portavam câmeras, segundo o relatório.

Polícia Federal recebeu milhares de vídeos, mas perícia segue incompleta

A investigação sobre a megaoperação também envolve a Polícia Federal e o Supremo Tribunal Federal (STF). Em outubro, o ministro Alexandre de Moraes determinou o encaminhamento de 118 laudos periciais à Procuradoria-Geral da República (PGR).

Desse conjunto, 12 documentos foram elaborados com base nas gravações das câmeras corporais da Core. Outros 106 tiveram como referência fotografias e laudos cadavéricos fornecidos pela Polícia Civil.

A PF informou ter concluído a análise referente às imagens da unidade especializada da Polícia Civil. Entretanto, o exame das gravações produzidas pelos policiais militares ainda enfrentava dificuldades.

Em abril, a corporação havia recebido 9.025 arquivos captados por 504 câmeras corporais da PM, correspondentes a aproximadamente 4,5 mil horas de gravação.

Segundo os documentos encaminhados ao STF, os arquivos deveriam ter sido disponibilizados também em mídia física e no formato original, para permitir a verificação de sua integridade. Esse material, contudo, não teria sido entregue nas condições solicitadas.

Diante do volume de registros, as gravações da Polícia Militar foram devolvidas para indicação dos trechos relevantes aos exames periciais. Assim, o envio dos 118 laudos à PGR não significa que todas as imagens da operação tenham sido analisadas.

Relatório foi encaminhado ao Ministério Público e às corregedorias

Os resultados do levantamento foram enviados em 26 de outubro ao Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (Gaesp/MPRJ), às promotorias vinculadas à Auditoria da Justiça Militar e às corregedorias das polícias Civil e Militar.

Também receberam o material a Secretaria de Segurança Pública e o gabinete do ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva.

A Defensoria ressalta que a documentação não permite estabelecer responsabilidades individuais pelas mortes, justamente porque faltam gravações dos momentos em que elas ocorreram. O relatório, entretanto, identifica episódios de violência e irregularidades na produção e na preservação de registros audiovisuais que exigem esclarecimentos das autoridades.

O g1 procurou a Polícia Militar e o governo do Rio de Janeiro para obter explicações sobre as denúncias e a ausência de imagens. Até a última atualização da reportagem original, não havia resposta. A Polícia Federal informou que não comenta investigações em andamento.

Megaoperação deixou 122 mortos e é acompanhada pelo STF

Realizada em 28 de outubro de 2025, a Megaoperação Contenção mobilizou as polícias Civil e Militar nos complexos da Penha e do Alemão. O objetivo declarado era combater a expansão territorial do Comando Vermelho e cumprir mandados de prisão.

A ação terminou com 122 mortos, dos quais cinco eram policiais, tornando-se a operação policial mais letal da história do Brasil.

O caso está sob acompanhamento do Supremo Tribunal Federal no âmbito da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, conhecida como ADPF das Favelas, que estabelece parâmetros para a atuação das forças de segurança no Rio de Janeiro.

Paralelamente às perícias da Polícia Federal, o Ministério Público estadual conduz investigação própria sobre as mortes e já ouviu familiares de vítimas para reunir informações sobre as circunstâncias da operação.

O Ministério Público Federal também solicitou esclarecimentos ao governo fluminense e à União sobre a eventual utilização de recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública, incluindo a verificação do cumprimento das exigências legais relacionadas à redução da letalidade policial.

Um ano depois da operação, as denúncias documentadas pela Defensoria e a ausência de registros audiovisuais das mortes permanecem como questões centrais para a investigação. A identificação dos responsáveis pelas agressões e o esclarecimento das circunstâncias dos óbitos dependem do avanço das apurações e da análise das provas disponíveis.