‘A Caixa Preta – Versão Demo’ estreia em novembro em SP
Fonte: semanapop.com.br | Data: 01/11/2026 16:05:33
Espetáculo de Janaina Leite fica em cartaz até 21 de dezembro

Um dos nomes de destaque do teatro contemporâneo brasileiro e internacional, a artista e diretora Janaina Leite apresenta, em parceria com o Núcleo do Olho, o espetáculo inédito “A Caixa Preta – Versão Demo”, com estreia marcada para o dia 13 de novembro, no Instituto Capobianco, em São Paulo. A temporada segue até 21 de dezembro.
Livremente inspirada no romance “A Invenção de Morel”, do escritor argentino Adolfo Bioy Casares, que aborda a possibilidade de perpetuar a presença humana para além da vida por meio da tecnologia, a obra se constrói como uma fábula teatral que articula personagens, ficção e dispositivos digitais. Entre as referências de criação da peça estão registros de áudio de caixas-pretas de acidentes aéreos reais. Desenvolvida durante a Residência Janaina Leite e Núcleo do Olho, a obra tem como referência registros de áudio de desastres aéreos, extraídos de caixas-pretas, dispositivos que preservam informações sobre acidentes e seus momentos decisivos. A caixa-preta torna-se, assim, a principal metáfora da obra: ao guardar vestígios que transitam entre a vida e a morte, conecta diferentes tempos, espaços e camadas da realidade. Essa imagem se estende ao teatro (e também à fotografia e à cibernética), concebido como um espaço de ativação de fantasmas por meio da invocação, da repetição e da imaginação.
Com idealização, concepção, direção e dramaturgia de Janaina Leite, concepção, texto e dramaturgia de Lívia Machado e concepção, direção técnica e cenografia de Marcus Garcia, a dramaturgia é inspirada no livro publicado em 1940, que acompanha um fugitivo que, em uma ilha isolada, se depara com imagens de pessoas que parecem vivas, mas são, na verdade, reproduções projetadas. É a partir dessa investigação sobre a permanência para além da vida e os limites entre presença e ausência que a obra se constrói como uma fábula teatral, conduzida por quatro personagens centrais: o piloto de avião, a geógrafa-gamer, Elisa e o anfitrião com seu duplo. A narrativa combina personagens, ficção e a reflexão sobre a tecnologia a partir da presença em cena dos técnicos que compõem a criação da obra. Matheus Leston (Som), Ricardo Morañez (Luz), Victor Cappa (Tecnologia Digital Interativa), Vic Von Poser (Videocenografia), Paula Halker e Marina Legaspe (Cenografia) estão em cena como técnicos performers. Compõem ainda a equipe de criadores André Medeiros Martins (Direção Assistente e Dramaturgismo), Lara Duarte (Direção de Movimento e Dramaturgismo) e Felipe Cruz (Figurino).
O trabalho dos atores Diego Di Mira, Isabella Miranda, Ney Piacentini e Robinson Rogério ganha destaque na construção desses personagens, concebidos como avatares que conduzem o público por uma experiência multimídia e sinestésica. A peça incorpora também jogos interativos com o público para investigar as relações entre corpo, imagem, tecnologia e morte, transpondo para o palco experiências mediadas pela internet e apresentando as noções de morte e virtualidade a partir da inteligência das “coisas”: a perenidade do corpo, os universos digitais e a relação entre corpo, máquina e autômatos. A técnica não se estabelece como um elemento meramente funcional, a serviço da interpretação ou dos atores, mas atua como engrenagem central do pensamento e do fluxo sensível do projeto.
O material levou o grupo a investigar a relação entre linguagem, memória e morte, especialmente as últimas expressões de pessoas em situações extremas. A pesquisa também incorporou um episódio da queda de um avião na Amazônia, em 2006. Na ocasião, indígenas Mebêngôkre Kayapó teriam localizado as vítimas por meio de sonhos, situação que inspirou a noção de “colisão de inteligências”, formulada pelos artistas para pensar o encontro entre sistemas distintos de conhecimento, como a tecnologia da aviação e a inteligência da floresta. Nesse percurso, surgem também referências a experiências históricas de registro dos mortos, com a investigação dos chamados “cemitérios digitais” e da possibilidade de que imagens e vestígios virtuais prolonguem a presença do corpo para além da morte, assim como o fonógrafo de Thomas Edison, dispositivo que remete às tentativas de preservar vozes e vestígios da existência humana.
A investigação também dialoga com trabalhos anteriores de Janaina Leite, como “Camming: 101 Noites”, “Deeper” e a performance “O Corpo Material e Imaterial”, especialmente no que tange à virtualização do corpo e aos estados alterados de consciência. A primeira etapa da pesquisa foi realizada em parceria com a Pro Helvetia, da Suíça, e incluiu articulações com instituições suíças e alemãs, abrindo possibilidades de coprodução e circulação no exterior. Em julho de 2026, a equipe realizou uma residência na Academy for Theatre and Digitality, em Dortmund, na Alemanha, centro dedicado à pesquisa e ao desenvolvimento de novas possibilidades para as artes cênicas em diálogo com a tecnologia. A experiência permitiu aprofundar investigações e experimentar recursos técnicos incorporados à montagem brasileira. Diferentemente de trabalhos anteriores de Janaina, marcados por abordagens documentais, autobiográficas ou ligadas a experiências reais, a nova montagem assume uma dimensão ficcional, dando continuidade a uma pesquisa iniciada há quase três anos.
Serviço:
A Caixa Preta – Versão Demo
Temporada – de 13 de novembro a 21 de dezembro
classificação indicativa: 16 anos
duração: 120 minutos
Onde: Instituto Capobianco
R. Álvaro de Carvalho, 97 – Centro Histórico de São Paulo, São Paulo – SP
Sextas e sábados, às 20h | Domingos, às 18h
Ingressos: R$15 meia |R$ 30 inteira
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