PIB do Brasil terá crescimento médio de 1,7% até 2028, prevê Kearney
Fonte: valor.globo.com | Data: 03/11/2026 05:42:31
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O PIB do Brasil deve ter crescimento médio anual 1,7% entre 2026 e 2028, de acordo com a projeção do estudo “Global Economic Outlook 2026-2028”, da consultoria internacional Kearney. O relatório destaca que produção doméstica de petróleo, geração de energia renovável e infraestrutura de biocombustíveis contribuíram para amortecer os impactos da crise energética internacional. Inflação elevada e juros restritivos limitam o crescimento.
A projeção de crescimento brasileira foi revisada para baixo em 0,3 ponto em relação à estimativa anterior da Kearney, de 2%.
“O Brasil tem uma proteção a turbulências de choques de petróleo, com toda a turbulência que a gente está observando no Oriente Médio. Só que tem um freio, e o estudo deixa isso muito claro, que é a questão dos juros”, afirma Fabio Yoshitome, sócio da consultoria Kearney.
O estudo diz que a economia global deve continuar crescendo nos próximos anos, mas em um ambiente de volatilidade recorrente e diferenças cada vez maiores entre países, setores e empresas, em uma espécie de “desequilíbrio persistente”.
“Se você pegar o noticiário e fizer uma pesquisa nos últimos cinco ou dez anos, sempre tem alguma crise, sempre tem algum ponto de turbulência, seja por questões de governos protecionistas, seja por alguma guerra, seja por alguma questão climática. Se está acontecendo tanta coisa, o mais provável é que vai continuar acontecendo muita coisa. Então, essa turbulência virou o novo normal”, comenta Yoshitome.
O estudo mostra que, no cenário global, o crescimento deve alcançar 2,6% em 2026, avançar para 2,9% em 2027 e chegar a 3% em 2028. Ao mesmo tempo, a inflação mundial deve atingir 4,5% em 2026 e registrar média de 3,8% até 2028, acima dos níveis observados antes da pandemia.
Nas Américas, a previsão está abaixo da média mundial, de crescimento de 2% em 2026, com recuperação gradual até 2028. Considerando a região, o Brasil tem projeção superior à do México (1,6%) e à do Canadá (1,5%), mas fica atrás de Argentina (2,6%) e Estados Unidos (2,5%).
Segundo o relatório, Índia, Brasil e, especialmente, China, ilustram como a diversificação energética, as reservas, a capacidade industrial e o investimento em tecnologias limpas podem amortecer perturbações e criar novas oportunidades.
A próxima política fiscal tem que gerar estabilidade, previsibilidade e contas em ordem”
Yoshitome afirma que o atual governo reeleito tem um desafio fiscal pela frente para melhorar o cenário. O mercado espera um ajuste fiscal arrojado para propiciar um maior afrouxamento dos juros e posterior desbloqueio de investimentos. “Quando o investidor olha o Brasil, ele sempre vê a questão de risco e compara as opções que ele tem no mundo desenvolvido e no mundo emergente também”, afirma.
“Tem toda uma questão fiscal no Brasil, a necessidade de conter gastos e de ter superávit, algo que a gente não tem conseguido há muito tempo. Todo mundo que quer investir, quer um retorno acima da Selic, e com a Selic nesse patamar é bem difícil para o mercado tomar esse risco”, afirma. Atualmente a taxa básica de juros está em 13,75%, após atingir 15% em novembro de 2025, maior valor em quase 20 anos.
A avaliação é corroborada pela coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), Silvia Matos. “Há uma probabilidade mais baixa de o Brasil conseguir manter esse padrão mais próximo de 2% de crescimento na média, porque no ano que vem a gente vai ter um crescimento muito baixo”, afirma.
Matos diz que isso se dá por problemas externos, relacionados à geopolítica, e também internos, sobre a gestão fiscal e macroeconômica do país. No caso, os juros em patamar restritivo funcionam como um freio de mão para o crescimento do país.
“O ano de 2027 está com PIB, na minha visão, mais próximo de 1%, ou até abaixo de 1%. Nos últimos anos nós crescemos muito acima do potencial, com uma política fiscal de gastos. Mas com isso, temos um efeito colateral”, diz. A consequência se dá por uma elevação da dívida pública, da inflação e da taxa de juros.
Ela defende um maior equilíbrio fiscal para baixar juros e manter a atratividade dos investimentos. “A próxima política fiscal tem que gerar estabilidade, previsibilidade e contas em ordem. Sem política fiscal, você não tem crescimento econômico, não tem estabilidade macroeconômica, não tem previsibilidade e não vai ter juro real baixo.”
Rodrigo Nishida, economista da 4intelligence, trabalha com uma média de 1,5% para o triênio entre 2026 e 2028, abaixo da projeção da Kearney. “Já a algum tempo projetamos crescimento de 1,2% para 2027, que tende a ser um ano bem fraco e bem abaixo dos últimos anos”, diz.
“Isso pela perspectiva de uma política monetária apertada, endividamento alto das famílias e empresas e a expectativa de um impulso fiscal inferior no ano que vem. Também há questões associadas ao El Niño que podem e devem afetar o agronegócio”, afirma Nishida.
Para 2028, o economista projeta melhora e normalização do crescimento do PIB para um patamar próximo de 1,8%. Ainda assim, ele ressalta que estas perspectivas de curto prazo estão sob revisão até que fique claro quais as mudanças que o governo pretende fazer na política fiscal.
“Estamos em um momento de definição do governo eleito e das indicações do governo em relação à política econômica. A trajetória da dívida e gastos fiscais podem ser muito importantes para a gente ter uma definição sobre o crescimento dos próximos anos”, diz.
A Kearney alerta que, além das questões macroeconômicas, conflitos geopolíticos, restrições em rotas estratégicas de comércio, eventos climáticos extremos e a rápida expansão da inteligência artificial estão alterando custos, cadeias de suprimentos e fluxos de investimento. Segundo o estudo, os investimentos globais em energia podem alcançar US$ 3,4 trilhões em 2026, alta de 5% em relação ao ano anterior, o que coloca o Brasil em uma posição estratégica.
A inteligência artificial também permanece como um dos principais motores de expansão econômica, especialmente por meio dos investimentos em semicondutores, data centers, conectividade e infraestrutura energética.
A consultoria argumenta que esse crescimento traz novos gargalos relacionados à disponibilidade de energia, água, terrenos, licenças e financiamento.
“Quanto a gente como país está criando uma infraestrutura sólida para fazer esses investimentos? Todo mundo está falando de trazer data center, inclusive o presidente Lula falou sobre isso num discurso recente. Mas o que a gente está fazendo para garantir que vamos ter infraestrutura? Porque precisa chegar energia elétrica e água nesses data centers”, aponta Yoshitome.
Diante desse cenário, repleto de incertezas em nível global, o estudo dá orientações para decisões relevantes de investimentos globalmente. A primeira é questionar se a iniciativa reduz a dependência de um único fornecedor, mercado, rota ou sistema.
A segunda é averiguar se o aporte produz ganhos mensuráveis de produtividade ou receita, em vez de apenas ampliar estruturas existentes. A terceira é se permite mudar de direção caso as premissas econômicas e operacionais se alterem.
A conclusão do estudo é que a resiliência das empresas a esse contexto de “desequilíbrio persistente” precisa ser tratada tanto como proteção contra interrupções, quanto como uma capacidade para identificar oportunidades de crescimento.
“O grande conceito que o estudo traz é você criar opcionalidades e ficar se preparando para absorver esses choques. Há muitas empresas de capital aberto com aquela pressão de, trimestre a trimestre, mostrar uma curva positiva. Mas o investimento que não é para agora não vai dar retorno nos próximos trimestres. É uma visão de muito longo prazo, mas é isso que acaba às vezes salvando a empresa”, afirma Yoshitome.