Lula pede mobilização contra bets antes de audiência no STF
Fonte: istoe.com.br | Data: 03/11/2026 11:06:18
Presidente defende participação da sociedade em discussão sobre a proibição das apostas on-line; maioria dos participantes convocados é contrária à medida
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pediu nesta terça-feira (3) que a sociedade civil acompanhe e participe do debate sobre a proibição das plataformas de apostas on-line no Brasil. A manifestação ocorreu horas antes de uma audiência pública no Supremo Tribunal Federal (STF), convocada para discutir a validade da medida provisória que suspendeu a operação das chamadas bets no país.
Em vídeo divulgado nas redes sociais, Lula demonstrou preocupação com a composição da audiência, que reúne representantes do governo, entidades empresariais, clubes de futebol e organizações ligadas ao setor de apostas.
O presidente afirmou considerar fundamental que a população seja ouvida antes de uma decisão capaz de afetar milhões de brasileiros.
A audiência é conduzida pelo ministro Luiz Fux, relator de ações apresentadas por entidades que questionam a constitucionalidade da proibição.
Dos 34 participantes convidados, pelo menos 22 já haviam manifestado posições contrárias à manutenção da medida provisória.
Lula questiona participação de defensores das apostas
Ao comentar a audiência, Lula afirmou que a presença da sociedade civil é necessária para garantir equilíbrio na discussão.
O presidente avaliou que os representantes interessados na continuidade das apostas parecem estar em maior número do que aqueles favoráveis à proibição.
A manifestação também foi divulgada em um canal de comunicação mantido por apoiadores do governo no WhatsApp.
A preocupação do Palácio do Planalto está relacionada à possibilidade de que os argumentos econômicos apresentados pelas empresas do setor e por clubes esportivos tenham maior espaço durante a audiência.
Para o governo, o debate não deve se limitar às consequências financeiras da proibição, mas também considerar seus efeitos sobre o orçamento familiar, a saúde pública e o endividamento.
STF reúne 34 participantes para discutir proibição
A audiência pública começou às 10h desta terça-feira, sob a coordenação de Luiz Fux.
A programação prevê manifestações de 34 representantes de instituições públicas, organizações empresariais e entidades esportivas.
Cada expositor terá aproximadamente dez minutos para apresentar seus argumentos.
Entre os participantes contrários à proibição estão representantes de clubes de futebol, associações ligadas ao mercado de apostas e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Flamengo, Corinthians e Cruzeiro estão entre os clubes que participam das discussões sobre os impactos da medida.
O grupo favorável à manutenção da proibição inclui órgãos do governo federal, como os ministérios da Fazenda, da Saúde e do Esporte, além da Advocacia-Geral da União (AGU).
Também participam entidades como a Confederação Nacional do Comércio (CNC) e a Confederação Nacional da Indústria (CNI).
A audiência deverá se estender até o fim da tarde.
Governo proibiu apostas on-line por medida provisória
A suspensão das atividades das bets foi determinada por uma medida provisória editada pelo governo federal.
A norma impede a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa no território nacional.
A restrição alcança tanto as apostas esportivas quanto jogos de cassino on-line, incluindo modalidades popularmente conhecidas como jogo do tigrinho.
Sites, aplicativos, patrocínios e campanhas publicitárias vinculados às empresas atingidas pela proibição começaram a ser retirados do ar em outubro.
A medida provisória possui força de lei desde sua publicação, mas precisa ser analisada pelo Congresso Nacional dentro do prazo constitucional para manter seus efeitos de maneira definitiva.
Paralelamente, o governo encaminhou um projeto de lei destinado a reforçar o combate à exploração ilegal de apostas.
Entidades querem derrubar restrições
A proibição provocou reação de empresas e organizações que atuavam no mercado regulamentado de apostas.
Entidades como a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) e a Associação Nacional pela Segurança Jurídica dos Jogos e Apostas (Anseja) recorreram ao STF.
Os grupos questionam a validade constitucional da medida e seus impactos sobre empresas que haviam recebido autorização para operar no Brasil.
Representantes do setor argumentam que a suspensão pode favorecer a expansão de plataformas clandestinas e comprometer empregos, investimentos e a arrecadação de tributos.
Clubes de futebol também demonstraram preocupação com a perda de contratos de patrocínio.
Para diversas equipes, os acordos comerciais com empresas de apostas representavam uma parcela relevante das receitas.
O governo federal, por outro lado, sustenta que a proteção da saúde pública e da economia das famílias justifica a revisão das regras do setor.
Governo aponta aumento de problemas associados ao jogo
Na defesa apresentada ao Supremo, a AGU reuniu informações sobre os impactos sociais e econômicos das apostas.
Dados técnicos do Ministério da Saúde indicam crescimento de 140% nos atendimentos do Sistema Único de Saúde (SUS) relacionados a transtornos associados ao jogo entre 2018 e 2025.
O governo também cita estimativas de custos sociais elevados, envolvendo tratamento de saúde, endividamento e outras consequências da dependência em apostas.
Segundo os argumentos apresentados pela União, os efeitos financeiros atingem de maneira especialmente intensa famílias de baixa renda e jovens.
O Executivo considera que a facilidade de acesso às plataformas digitais ampliou a exposição de parte da população a perdas financeiras recorrentes.
Essas informações são utilizadas para sustentar que a discussão sobre as bets deve considerar consequências que ultrapassam o mercado de entretenimento.
Futebol busca alternativas para substituir patrocínios
O impacto sobre os clubes também entrou na agenda do governo.
Em outubro, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, reuniu-se com representantes de torcidas organizadas para discutir alternativas de financiamento ao futebol.
A proposta é identificar mecanismos que permitam reduzir a dependência dos clubes em relação às receitas provenientes das empresas de apostas.
Entre as preocupações apresentadas estão a manutenção das atividades esportivas, os contratos comerciais e a sustentabilidade financeira das equipes.
O governo afirma estudar alternativas para minimizar os efeitos econômicos da proibição.
Decisão sobre as bets ainda depende do STF
A audiência pública não representa, por si só, uma decisão definitiva sobre a legalidade da medida provisória.
O objetivo é reunir informações e argumentos para subsidiar a análise do ministro Luiz Fux.
Após essa etapa, o relator poderá avaliar os pedidos apresentados pelas entidades do setor e definir os próximos encaminhamentos processuais.
O Congresso Nacional também precisará analisar a medida provisória dentro do prazo legal.
Até que haja uma decisão judicial ou legislativa que modifique as regras, permanece em vigor a proibição estabelecida pelo governo federal.
Da IstoÉ