Câncer de mama: como a desigualdade racial pesa no diagnóstico e na sobrevida
Fonte: estadao.com.br | Data: 03/11/2026 20:18:29
O Instituto Nacional de Câncer (Inca) lançou uma publicação sobre câncer de mama e saúde das mulheres negras. E uma frase correu o País: mulheres negras morreriam 3,8 vezes mais de câncer de mama do que mulheres brancas. A desigualdade é real. Mas esse número, do jeito que foi divulgado, pede cuidado.
Até onde consegui rastrear, o dado vem de um estudo de pesquisadores do próprio Inca, publicado em 2024 na revista Breast Cancer Research and Treatment. E, ali, o número diz outra coisa. Entre 2000 e 2020, a mortalidade por câncer de mama subiu 2,3% ao ano entre as mulheres negras. Entre as brancas, 0,6% ao ano. Ou seja, o ritmo de piora foi quase quatro vezes mais rápido. É uma tendência. Não é a taxa de morte comparada diretamente.
E por que essa precisão importa? Porque o retrato verdadeiro é ainda mais revelador.

Mulheres negras tendem a ter menos acesso a diagnóstico precoce e tratamento contra o câncer de mama
Foto: Graphicroyalty/Adobe Stock
As mulheres brancas recebem mais diagnósticos de câncer de mama. Mas as negras chegam mais tarde. No estudo do Inca, 60% delas já tinham doença avançada no diagnóstico, contra cerca de metade das brancas. E depois do diagnóstico a história continua desigual. Um estudo nacional, publicado na Lancet Global Health, acompanhou quase 60 mil mulheres tratadas pelo SUS. Em cinco anos, 74% das brancas estavam vivas. Entre as mulheres pretas, 64%. Dez pontos de diferença, dentro do mesmo sistema de saúde.
O que explica isso? A maior parte da resposta está no acesso. Pela Pesquisa Nacional de Saúde, mais de 61% das mulheres brancas fazem mamografia de rastreamento. Entre pretas e pardas, de 54 a 56%. Somam-se a distância até o centro de tratamento, a renda, a escolaridade, o tempo de espera e, segundo relatos colhidos pelo próprio Inca, a discriminação dentro do consultório.
Leia também
-
Câncer de mama avança com tratamentos cada vez mais personalizados
-
Câncer de mama: o cuidado não cabe em um único mês
Existe também uma parte biológica, e ela precisa ser considerada. Mulheres negras têm com mais frequência o tumor triplo-negativo, que cresce mais rápido e não responde à terapia hormonal. Um estudo-piloto do Inca encontrou esse subtipo em cerca de 20% das pretas e pardas, contra 10% das brancas. Mas a biologia não fecha a conta. Uma análise de 18 estudos, publicada no Journal of Clinical Oncology, mostrou que mulheres negras morrem mais em todos os tipos de câncer de mama, inclusive naqueles de melhor prognóstico.
Então, qual é a mensagem? A cor da pele não causa câncer mais grave. O que mata mais é chegar tarde, esperar mais e ter menos acesso ao tratamento certo. E isso se corrige com política pública: rastreamento organizado, busca ativa onde a cobertura é baixa, navegação de pacientes e respeito ao prazo de sessenta dias entre o diagnóstico e o início do tratamento.
O SUS garante a mamografia a partir dos 40 anos e faz o rastreamento ativo dos 50 aos 74, a cada dois anos. E qualquer nódulo, retração na pele ou secreção no mamilo, em qualquer idade, merece avaliação médica. Sem esperar.