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Morte de paciente e denúncias de agressão marcam histórico de clínica no Rio

Fonte: odia.ig.com.br | Data: 04/11/2026 07:39:56

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Mário procurou atendimento e morreu um dia após a internaçãoReprodução/Internet

Na noite de 12 de julho de 2017, o músico Mário Rezende Travassos, de 39 anos, decidiu se internar voluntariamente na Clínica da Gávea, localizada na Zona Sul do Rio de Janeiro, para passar a noite. A recomendação teria partido de um psiquiatra, já que o artista estava há cinco dias sem conseguir dormir.

Os sintomas estavam relacionados a um distúrbio do sono que Mário vinha enfrentando. Como não conseguia dormir, ele fazia uso de medicamentos sob orientação médica. Quando havia troca da medicação, o músico passava por um período de adaptação. Foi nesse contexto, ainda sem ter se acostumado ao novo remédio e sem conseguir dormir, que uma psiquiatra recomendou uma internação de curto prazo na clínica.

A médica concluiu que o melhor seria Mário passar dois dias internado, não por uma situação de urgência, mas para permanecer em um ambiente seguro até que seu padrão de “sono e vigília” fosse normalizado.

Na manhã seguinte, em 13 de julho, a namorada de Mário ligou para a clínica por volta das 9h para saber como o companheiro estava. Na ocasião, foi informada de que ele havia passado bem a noite e aceitado a alimentação oferecida. Naquele mesmo dia, os dois sairiam para comemorar o aniversário da mãe do músico.

Por volta das 12h, ela voltou a telefonar para a clínica, mas não obteve informações sobre o estado de Mário. Preocupada, ligou novamente e foi informada de que ele havia sofrido uma intercorrência. Enquanto estava dentro de um táxi a caminho da instituição, recebeu outra ligação solicitando que comparecesse ao local.

Ao chegar à clínica, Françoise Lengruber foi informada de que Mário havia morrido. Naquele momento, o companheiro apresentava o rosto desfigurado, a cabeça afundada e a ausência de alguns dentes.

O laudo do Instituto Médico Legal (IML) apontou que o corpo de Mário apresentava escoriações no cotovelo, punho e joelho direitos, além de lesões no braço, cotovelo e antebraço esquerdos. Também foram identificadas equimoses ao longo da face e da cabeça. A causa da morte foi apontada como estrangulamento/sufocação indireta por asfixia mecânica.

Embora não tenha obtido respostas para seus questionamentos naquele 13 de julho, Françoise hoje sabe que a morte de Mário foi relacionada à atuação de dois profissionais de saúde durante uma contenção física. Ao tentar fugir da clínica, o músico foi contido por um enfermeiro e um técnico de enfermagem que, segundo a apelação criminal, “asfixiaram indiretamente a vítima, colocando seus joelhos sob suas costas e pressionando-a no chão, o que acabou provocando o efeito danoso”.

Indenização à família

Em outubro de 2026, nove anos depois da morte de Mário, a Clínica da Gávea foi condenada a pagar R$ 300 mil por danos morais à mãe do músico e R$ 100 mil à companheira dele.

De acordo com a decisão judicial, uma perícia técnica apontou que a morte teve relação com a forma como foi realizada a contenção física do paciente. O laudo produzido durante o processo afastou a hipótese inicial de causa cardíaca e concluiu que procedimentos inadequados adotados durante a imobilização contribuíram diretamente para o óbito.

Segundo o advogado Eduardo Cruz, do escritório de advocacia João Tancredo, que atua na área cível e representou a família no processo que resultou na condenação da Clínica da Gávea, a indenização, além de responsabilizar quem causou o dano, representa uma forma de servir de exemplo para impedir que casos semelhantes se repitam.

“Para a família, o importante da indenização é o caráter exemplar, né? Você está procurando uma clínica psiquiátrica, buscando atendimento especializado, e no dia seguinte recebe a notícia de que o seu filho, seu namorado, foi assassinado por pessoas que diziam tratar do problema que levou esse paciente a procurar um tratamento especializado. Então, o valor da indenização para a família tem um duplo caráter. Primeiro, claro, seria uma verdadeira punição para quem causou o dano. Segundo, servir de exemplo, né? Para que fatos como esse não se repitam.”

O advogado ressalta que, embora o Tribunal tenha aumentado o valor da indenização, a quantia ainda não seria proporcional à gravidade do caso. Por esse motivo, a família pretende recorrer ao Superior Tribunal de Justiça (STJ).

“Não são valores proporcionais à gravidade do fato. Nem mesmo à condição econômica da clínica, porque é uma clínica tradicional, que há muito tempo funciona no bairro nobre do Rio de Janeiro, que é a Gávea, e certamente tem potencial econômico para pagar uma indenização com preço superior a essa.”

Além da clínica, o enfermeiro e o técnico de enfermagem envolvidos na contenção de Mário também foram condenados na esfera criminal. Os dois receberam penas de dois anos de detenção em regime aberto, substituídas por medidas restritivas de direitos. No entanto, os profissionais não chegaram a cumprir as sanções. Em agosto de 2025, a Justiça reconheceu a prescrição, encerrando a possibilidade de execução das penas.

Imagens mostram os últimos momentos de Mário

As câmeras de segurança da Clínica da Gávea registraram a sequência de acontecimentos que antecedeu a morte de Mário. A primeira aparição do músico nas imagens ocorre às 12h11, quando ele atravessa um corredor da instituição caminhando normalmente. Antes e depois da passagem dele, é possível observar a movimentação de outros pacientes e profissionais de saúde pelo local.

Menos de 30 segundos depois, Mário aparece correndo na área externa da clínica. Um profissional de saúde tenta segurá-lo e, logo em seguida, outro funcionário chega para ajudar na contenção.

Nas imagens, os profissionais derrubam Mário no chão, mas ele consegue se levantar e continua se debatendo. Uma terceira pessoa se aproxima e ajuda a imobilizá-lo novamente.

Por volta das 12h18, Mário é levado para um local próximo, enquanto continua se movimentando. Durante a contenção, o enfermeiro e o técnico de enfermagem pressionam os joelhos contra as costas do músico, que permanece de bruços.

Na análise das imagens, o médico do IML apontou que, embora Mário aparentasse estar agitado por continuar se movimentando, ele estaria, na verdade, tentando respirar.

Às 12h22, os profissionais viram Mário de barriga para cima e iniciam as massagens cardíacas, que seguem, com intervalos, até às 12h29. Em seguida, colocam o corpo em uma prancha de resgate e o levam para um quarto da clínica.

Às 12h30, quatro profissionais de saúde aparecem pelo mesmo corredor carregando o corpo de Mário, que, menos de 20 minutos antes, transitava pelo local ainda com vida. 

“Minha mãe só ia ladeira abaixo”

A reportagem do DIA conversou com algumas pessoas que relataram ter enfrentado problemas durante internações na Clínica da Gávea, na Zona Sul do Rio. Uma delas é o economista Diogo dos Anjos Martins, de 38 anos, que contou à reportagem a experiência vivida por sua mãe, Rosane dos Anjos Martins, hoje com 61 anos. Em 9 de março de 2020, ela foi internada na unidade para tratar uma crise relacionada a um quadro de depressão e transtorno bipolar.

Segundo Diogo, a mãe já havia enfrentado um episódio de depressão profunda em 1995, quando ele tinha sete anos. Na ocasião, ela também precisou ser internada em uma instituição psiquiátrica, mas o tratamento foi diferente, de acordo com o relato do economista.

“Eu era muito pequeno, então não lembro muita coisa. Meu pai relata que ela ficou internada também no hospital psiquiátrico e tudo mais, só que foi um outro tipo de tratamento, porque ela, como estava totalmente para baixo, na depressão profunda, foi um outro tipo de tratamento”.

Em 2020, a situação era diferente. De acordo com Diogo, a mãe havia mexido na medicação e apresentado um quadro de euforia, o que levou a família a procurar ajuda médica e decidir pela internação.

“Ela acabou desregulando os remédios e entrou no estágio eufórico. Eu não consigo ficar muito em cima dela, porque ela mora no Leblon. Então, quem fica mais com ela é a minha madrinha. Minha madrinha me procurou, falei com o médico dela na época e falei: ‘Cara, a gente vai precisar internar’”.

O economista afirmou que chegou a pesquisar outras instituições particulares, mas os valores estavam acima do orçamento da família. Como o plano de saúde de Rosane cobria apenas a Clínica da Gávea, segundo ele, a internação foi realizada na unidade.

Abordagem durante a internação

Diogo afirma que a primeira abordagem da equipe da clínica o assustou. Segundo ele, quando Rosane percebeu que seria internada, tentou sair da sala, mas foi agarrada por um funcionário e levada para outro ambiente, onde recebeu uma medicação para se acalmar.

“Como ela estava em crise, eu acredito que deveria ter sido uma outra abordagem, então a abordagem já foi bem pesada. Basicamente, ela saiu da sala correndo, porque viu que ia ser internada, e o cara lá chegou, agarrou ela, tipo dando um golpe de jiu-jítsu, e já levou para uma sala para dar uma injeção de sossega-leão”.

Naquele momento, Diogo disse que acreditou que a conduta fizesse parte dos procedimentos da instituição. “Eu já estava meio assustado de ver a minha mãe naquela situação. Aí eu falei: ‘Pô, deve ser o procedimento padrão deles’, acredito eu”.

O economista contou que visitava a mãe diariamente, durante o horário de almoço do trabalho. No entanto, segundo ele, os problemas começaram a aparecer já nos primeiros dias. Diogo afirmou que levou roupas e itens de higiene pessoal para Rosane, mas, ao retornar à clínica no dia seguinte, percebeu que os pertences haviam desaparecido.

“No segundo dia que eu cheguei lá, fiz uma mala para ela, com roupas pessoais, kit de higiene pessoal e deixei lá. No terceiro dia eu fui visitar e já não tinha mais nada. Tipo assim, roubaram tudo. Roubaram o kit dela de higiene pessoal, pasta de dente, escova de cabelo. E as roupas também acabaram sumindo algumas”.

Dificuldade para falar com o médico

Outro problema apontado pelo economista foi a dificuldade para conversar com o médico responsável pelo tratamento da mãe. Segundo ele, as tentativas de obter informações sobre o estado de saúde de Rosane frequentemente resultavam em longas esperas e respostas vagas.

“Era muito custoso conseguir falar sobre o paciente com o médico local. Eu tinha que esperar horas e horas para o cara ter a boa vontade de vir atender. E o contato era sempre muito vago: ‘A gente está fazendo a medicação e tudo mais’, e eu vendo que minha mãe só ia ladeira abaixo. Cada vez mais descompensada”.

Diogo disse que conseguiu obter informações sobre o que acontecia dentro da instituição após fazer amizade com uma enfermeira. De acordo com ele, foi a partir dessas conversas que soube que a mãe era submetida a contenções físicas por períodos prolongados.

“Basicamente, minha mãe era presa, ela era contida. Eu acho que isso é um procedimento deles que fazem. Só que eu comecei a me ligar que a contenção que eles estavam fazendo estava machucando ela. Ela ficava com o pulso todo machucado”.

Infecção urinária e piora do quadro

Com o passar dos dias, Diogo percebeu uma piora no estado de saúde da mãe. Diante da situação, segundo ele, levou um médico clínico para avaliá-la e solicitar exames. Foi então que descobriu que Rosane estava com uma infecção urinária.

O economista afirmou que soube, por meio da enfermeira, que havia troca de roupas íntimas e outras peças de vestuário entre os pacientes. Segundo o relato, pertences retirados de uma pessoa podiam acabar sendo usados por outra antes de serem devolvidos.

“Os pacientes que roubavam as roupas, depois eram identificadas as roupas e devolvidas para o paciente original. Tinha esse troca-troca de calcinha, tinha esse troca-troca de short, de camisa e tudo mais”.

Diogo disse que só soube posteriormente que a infecção urinária poderia agravar o quadro clínico da mãe. Segundo ele, Rosane precisou passar por procedimentos de limpeza e receber antibióticos.

“O fato de estar com infecção urinária potencializou o quadro dela de mania e estava deixando ela cada vez pior”.

Internação foi marcada por novos problemas

Os problemas, no entanto, não pararam por aí. Segundo Diogo, alguns dias depois, a clínica entrou em contato para informar que sua mãe havia sofrido um acidente dentro da unidade, machucado a cabeça e precisava ser encaminhada ao pronto-socorro.

“Na hora, peguei o carro e fui até lá. Quando cheguei, minha mãe estava com a cabeça amassada, com traumatismo craniano. Minha esposa é cirurgiã plástica e até faz procedimentos estéticos nela para tentar deixar a região uniforme, porque ficou um buraco na cabeça da minha mãe. Houve sangramento interno, e ela precisou ser levada às pressas para o hospital”.

Rosane precisou ser levada a um hospital após sofrer um acidente dentro da clínica - Reprodução/Arquivo pessoal
Rosane precisou ser levada a um hospital após sofrer um acidente dentro da clínicaReprodução/Arquivo pessoal

De acordo com Diogo, durante a internação hospitalar, a mãe contraiu Covid-19. Como também estava com uma infecção urinária, o quadro evoluiu para sepse e ela precisou ser entubada.

“Ela poderia ter morrido. Faltou muito pouco para isso acontecer. Então, foram uma série de coisas que aconteceram nesse curto período, nas quatro semanas em que ela ficou lá, que me levam a crer que houve muito descaso dentro da clínica, o que ocasionou tudo isso”.

O economista disse que não conseguiu comprovar as circunstâncias do acidente, mas questionou a versão apresentada pela clínica de que a mãe havia sofrido uma queda.

“Tinha muita característica de ter tomado uma coronhada. Eles falam que ela caiu, mas não mostraram o lugar onde isso aconteceu, nem explicaram como foi. Depois desse acidente, ela não voltou mais para a clínica”.

Paciente alega ter tido braço fraturado

A paciente Emellyn Ferreira, de 25 anos, registrou um boletim de ocorrência contra a Clínica da Gávea, alegando que profissionais do estabelecimento fraturaram seu braço durante uma contenção física.

Segundo o relato da jovem, ela foi internada involuntariamente por familiares em 29 de abril de 2025, para tratar um quadro de depressão.

O episódio que motivou a denúncia teria acontecido em 5 de maio, quando Emellyn manifestou o desejo de comunicar aos familiares que queria deixar a clínica. Durante um episódio que descreveu como um surto psicótico, ela teria sido contida por oito profissionais de enfermagem, que teriam quebrado seu braço. 

“Fui pega pelo braço, levei uma banda, fui jogada no chão, me levantaram à força, colocaram meu braço para trás e eu gritei dizendo que meu braço estava quebrado e eles não acreditaram. Me puxaram pelos dois braços, mesmo estando quebrado, e puxaram minhas duas pernas me levando até o quarto para aplicar o ‘Haldol’”, relatou.

Após o episódio, Emellyn foi levada de ambulância ao Hospital Casa de Portugal. Segundo ela, um médico avaliou a lesão e informou que seria necessária uma cirurgia, realizada no dia seguinte. Em 7 de maio, a jovem retornou à Clínica da Gávea, onde permaneceu internada até 11 de junho.

Em depoimento à polícia, Emellyn afirmou que, quando a clínica soube que ela pretendia denunciar o caso, ofereceu ajuda de custo para cobrir as despesas com a cirurgia e a anestesia. Segundo a jovem, o acordo teria sido feito com a titular responsável, sem seu consentimento.

Em razão da lesão, Emellyn afirma que ainda enfrenta limitações para trabalhar como chapeira no restaurante em que atuava e como trancista, atividade que exercia para complementar a renda.

Essa não foi a primeira internação da jovem na Clínica da Gávea. Em uma passagem anterior pelo estabelecimento, em 2018, ela relatou ter presenciado o suicídio de outro paciente. Emellyn também afirmou ter presenciado outras situações que considera abusivas, como agressões, pacientes amarrados a camas e aplicação de injeções quando alguém contrariava os profissionais.

Advogada conta o que viveu dentro da clínica

Carolina Azevedo Costa, de 29 anos, advogada e corretora de imóveis, foi internada pela primeira vez na Clínica da Gávea aos 22 anos, de forma voluntária, após o fim de um relacionamento. Segundo ela, durante a primeira passagem pela instituição, passou a fazer uso frequente de zolpidem, medicamento utilizado no tratamento da insônia, e presenciou situações que considerou estranhas, além de relatar um tratamento grosseiro por parte de enfermeiros.

“Uma das coisas que aconteceram nessa internação voluntária e de que eu não gostei foi que, infelizmente, fiquei com o vício em zolpidem. Eles davam o medicamento. Também vi algumas coisas estranhas acontecendo. Os enfermeiros eram muito grosseiros, e a situação toda era bem estranha”.

A experiência mais traumática, no entanto, segundo Carolina, ocorreu durante a segunda internação, em 28 de setembro de 2025. Ela permaneceu na clínica por cerca de 23 dias e afirma que foi levada ao local contra a própria vontade, após conflitos familiares e o fim de um relacionamento.

“Minha mãe e meu irmão começaram a criticar o fato de eu ter comprado uma moto com meus próprios recursos. Diziam que eu era maluca, que ia morrer e que aquilo era perigoso. Também tive uma briga com meu ex-namorado, que havia me traído. Depois disso, eles foram me buscar de carro e me levaram para a clínica”.

Carolina afirma que não sabia que seria internada e que seus familiares disseram que ela passaria apenas por uma consulta psiquiátrica. “Eu falei: ‘Não, mas eu quero ser atendida por um psiquiatra nesse momento. Quero ficar em casa, relaxar e tudo mais’. Eles mentiram o tempo todo, dizendo que seria somente uma consulta. Isso era totalmente mentira. A intenção deles era realmente me colocar em cárcere privado”.

Ao chegar à Clínica da Gávea, Carolina afirma que deixou claro que não queria permanecer no local e pediu para voltar para casa. Segundo ela, a porta foi fechada e, em seguida, um grupo de enfermeiros a teria agredido e imobilizado à força.

“Eu disse: ‘Não, eu não quero ficar aqui, eu quero voltar para casa’. Nesse momento, vieram, acho que seis enfermeiros para cima de mim, me agredindo e me amarrando. Colocaram meus braços para trás, com muita violência, e me puseram em uma maca com as mãos e os pés amarrados”.

Carolina afirma que ainda tem uma cicatriz no tornozelo decorrente do episódio. “Até hoje eu tenho uma marca, uma cicatriz no meu tornozelo por causa disso”.

Carolina ainda tem marcas da contenção utilizada durante sua internação - Reprodução/Arquivo pessoal
Carolina ainda tem marcas da contenção utilizada durante sua internaçãoReprodução/Arquivo pessoal

Carolina afirma que o machucado no tornozelo, provocado durante a contenção, começou a sangrar e apresentar pus. Segundo ela, apesar dos pedidos de ajuda, não recebeu os cuidados que considerava necessários para tratar a lesão.

“Eu pedia para as enfermeiras: ‘Vocês não têm um antisséptico, alguma coisa?’. Elas diziam que tinham e que depois me dariam, mas o tempo passava e nada. No dia seguinte, procurei o médico, mostrei que estava com pus e sangrando, expliquei que tinham me machucado e pedi pelo menos um antisséptico. Ele disse que iria providenciar, mas nunca me deram”.

A advogada relatou que, enquanto estava com os braços e os pés amarrados, um enfermeiro retirou sua roupa íntima e tocou em suas partes íntimas durante a colocação de uma fralda.

“Eu estava com as duas mãos presas e os dois pés amarrados. E ele lá, tirando minha calcinha para colocar uma fralda e mexendo nas minhas partes íntimas”.

Carolina também descreve o tratamento recebido por parte dos funcionários como grosseiro e marcado por deboche. Segundo ela, a experiência afetou sua autoestima.

“Eles riam da minha cara. Era deboche, grosseria e negligência o tempo todo. Minha autoestima foi arruinada. Eu me senti um lixo, um rato. Era isso que eles passavam para a gente”.

Dificuldades para conseguir alta

Após mais de 20 dias de internação, Carolina afirma que conseguiu deixar a clínica depois que a mãe autorizou sua saída. Segundo ela, o médico queria mantê-la na instituição por mais tempo.

“Depois de muito, muito, muito falar com a minha mãe, ela decidiu me tirar de lá. Falou com o médico, porque ele disse que queria me deixar mais tempo”.

Morte de paciente dentro da clínica

A advogada também afirma ter presenciado a morte de outro paciente durante a internação. De acordo com ela, uma sirene foi acionada para que os internos retornassem aos quartos. Na ocasião, os funcionários teriam informado que um paciente havia morrido.

“Eu vi muita coisa lá. Inclusive, uma pessoa morreu. Tocou uma sirene altíssima para todo mundo se recolher. A gente perguntava o que estava acontecendo, e disseram que um paciente tinha morrido e que todo mundo precisava entrar. Eu não sei a causa da morte, porque eles não falaram. Mas, para mim, foi negligência.”

Atualmente, Carolina afirma que faz acompanhamento psicológico particular e utiliza medicamentos controlados.

A história de Mário Travassos

O livro recém-lançado pelo jornalista e escritor Pedro de Luna, “Mariestro: Um Tributo ao Gigante Mario Travassos”, resgata a trajetória do músico por meio de relatos de amigos e familiares. A ideia da obra partiu da mãe do artista, Luiza Travassos, que buscou retratar a vida do filho para além das circunstâncias de sua morte.

“Queria que as pessoas que não o conheceram e ouviram os relatos mentirosos, de uma clínica maldita com funcionários perversos, soubessem como ele de fato era, para além da estatística em que esses assassinos quiseram transformá-lo”.

A namorada do músico, Françoise Lengruber, também deixou um relato sobre a importância de Mário e o impacto de sua perda.

“Não fui eu ou a Luisa quem perdermos o Mario. Foi o mundo que perdeu o Mario. Um cara que trazia tanto colorido, alegria e vida. Que trazia um ângulo novo, que tinha uma percepção diferente. Um homem incrível, um artista sem igual.”

Clínica da Gávea

Desde 2022, a Clínica da Gávea integra o grupo ViV Saúde Mental. O anúncio da aquisição foi feito nas redes sociais da instituição.

“Estamos muito felizes em anunciar que a Clínica da Gávea é parte do Grupo ViV! Fundada em 1963, a Clínica da Gávea é um marco na saúde mental do estado do Rio de Janeiro. Reconhecida pela excelência no atendimento infantil e adulto, e pela vasta gama de serviços, a Clínica da Gávea fortalece ainda mais nossa missão de cuidar da saúde mental de forma humanizada e eficaz”, informou o grupo na ocasião.

A instituição não atende pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Os serviços são oferecidos por meio de atendimento particular e convênios com planos de saúde.

O DIA tenta contato com a Clínica da Gávea para solicitar um posicionamento sobre as denúncias e os casos mencionados na reportagem desde o dia 30 de outubro. O pedido foi reforçado nos dias 2 e 3, mas não houve um retorno até a publicação da reportagem. O espaço segue aberto para manifestação.