“Podem existir outros Vorcaros”, diz Berzoini sobre crise do Ueno Bank no Paraguai
Fonte: revistaforum.com.br | Data: 05/11/2026 17:51:50
Análise
Ex-ministro analisou escândalo que culminou com a renúncia do presidente paraguaio e afirmou: “Banco Central do Brasil demorou muito para intervir no Master”
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O ex-ministro Ricardo Berzoini analisou a crise que culminou com a renúncia do presidente do Paraguai, Santiago Peña, aliado de Donald Trump. Durante participação no Fórum Onze e Meia desta quinta-feira (5), ele comentou sobre a economia brasileira e fez críticas ao mercado.
O escândalo do Ueno-Bank, no Paraguai, está sendo comparado à fraude do Banco Master, no Brasil. O problema foi desencadeado pelo fechamento do banco digital, que concentrava cerca de US$ 850 milhões em depósitos públicos e deixou 3 milhões de clientes sem acesso a seus recursos.
“O problema lá é que esse banco tinha mais de 60% do mercado bancário paraguaio. Muito maior do que o Banco Master, que não tinha nem 0,5% do mercado brasileiro. E, mesmo assim, provocou tanta desgraça para tanta gente. Mas é um exemplo concreto da desregulamentação em todos os setores, mas, especialmente, no mercado financeiro e seguros. Facilita a roubalheira e a especulação. E prejudica o cidadão”, destacou Berzoini, ex-presidente do PT.
“Por isso, eu defendo que o Banco Central do Brasil demorou muito para intervir no Master. Demorou, pelo menos, cinco meses. E devia ter entrado com intervenção no BRB (Banco de Brasília) também. O BRB está tecnicamente quebrado. Eu espero, sinceramente, que encontre uma solução, porque são 5 mil bancários, mais 3 mil aposentados e a economia do Distrito Federal, que tem muita conexão com o BRB. Mas é lamentável a falta de fiscalização”, afirmou. Berzoini reiterou o problema. “É possível, ainda mais hoje, no mundo tecnologicamente conectado, você fiscalizar os bancos sem precisar sequer ir ao banco. De maneira digital, o Banco Central pode antecipar esses riscos”.
Ainda em relação ao Master, o ex-ministro foi contundente: “Eu falei, seis meses antes, que o Vorcaro era um pilantra e que o Banco Master era uma arapuca. E o risco que nós temos é que podem existir outros Vorcaros por aí fazendo a mesma coisa, talvez não tão espalhafatosos, mas fazendo a mesma coisa”.
Questionado se as fintechs facilitam casos de corrupção no Brasil, Berzoini afirmou: “Novamente, é um problema de regulamentação. A fintech é uma empresa tecnológica que tem relação com o sistema financeiro. Ela pode aparecer prestando serviço para o banco, pode aparecer vendendo um produto diretamente ao consumidor bancário, ao cliente bancário, pode ser uma fintech que ajude o cliente a escolher a menor taxa de juros, pode ser uma fintech que ofereça um tipo de lei de crédito que os bancos não oferecem. Agora, o problema é de regulamentação”, insistiu.
“Roberto Campos Neto, do Banco Central, no governo Bolsonaro, não regulamentou as fintechs. Ele fazia muitos seminários para promover as fintechs, mas não regulamentou. Eu estive na China em 2023, num evento sobre fintechs, e lá ficou claro o seguinte: lá tem muita fintech, mas todas sob uma estrita regulamentação do Banco do Povo Chinês, que é o Banco Central de lá, e também dos órgãos de fiscalização. Tudo recai sobre a questão da fiscalização”.
Ele deu um conselho a quem pretende investir em fintechs: “Hoje, o cidadão comum, às vezes, recebe propaganda por e-mail ou na rede social, dizendo que tem uma fintech que paga 60% mais do que o CDI, do que o CDB. A pessoa tem que tomar muito cuidado antes de colocar dinheiro, porque, às vezes, essa fintech sequer tem proteção do Fundo Garantidor de Crédito. Então, é preciso muita cautela”.
E foi mais além. “Eu falo sempre o seguinte: quem não conhece o mercado financeiro, aplique nos bancos públicos. Esses não quebram, nem dão calote. Mesmo quando não são bem geridos, não quebram, nem dão calote. E se não quiser banco público, vá para um grande banco privado. Evite comprar produtos que não conhece, seja seguro ou seja aplicação financeira”.
Ajuste fiscal
Ricardo Berzoini também abordou o tão falado ajuste fiscal. “Eu proponho um corte. Um corte dos juros da dívida interna. Ontem, o Banco Central optou por manter a Selic. A Selic, pelo modelo que tem vigência desde o tempo do Armínio Fraga no Banco Central, é o resultado de uma premissa econômica: se a inflação está acima da meta, os juros têm que ser muito altos para poder pressionar a inflação para recuar”, explicou.
“Eu pergunto: você acha que tem alguém lá no Pentágono, que decide bombardear o Irã, que está levando em conta a taxa de juros do Brasil ou a inflação do Brasil? Não. E se sobe o combustível? Obviamente impacta. Quando começou a Guerra da Ucrânia faltaram fertilizantes no Brasil, os produtos alimentícios subiram muito. A taxa de juros do Brasil resolve isso? Não”, acrescentou.
Berzoini prosseguiu em sua análise. “Então, é preciso que o governo tenha coragem de mudar a meta de inflação. Mudando a meta de inflação, com certeza, nós desmontamos esse tema da dívida interna, que eles falam que vai explodir porque o governo está gastando muito. O governo não está gastando muito. O déficit público brasileiro está na média do mundo. Está abaixo de 20 países e está na média dos países. O problema nosso, na verdade, é que rico não paga imposto e quer ganhar juros escorchantes pela Selic. Então, nós precisamos mudar a política monetária e o principal fator é a meta de inflação”.
Proposta de André Lara Resende
Após a vitória do presidente Lula (PT), o nome de André Lara Resende ganhou evidência depois que o economista divulgou sua proposta para a economia brasileira.
“Eu conheço bem essa proposta. Primeiro, parar de achar que juros altos combatem a inflação, necessariamente. Podem combater em certas conjunturas, mas não combate o tempo todo. Às vezes, até aumenta a inflação que aumenta o custo financeiro das empresas”, avaliou.
“A proposta do Lara Resende é muito simples. Primeiro, criar um conselho que vai combinar não apenas a questão monetária como a questão fiscal. Esse conselho vai ter gente do governo, do mercado financeiro, do setor produtivo e dos trabalhadores. Como era o velho Conselho Monetário Nacional, criado em 1964, que tinha 21 membros. Hoje, o Conselho Monetário Nacional tem apenas três membros e todos do governo”.
Nesse conselho, disse o ex-ministro, seria feita a tentativa de buscar um consenso sobre o que é necessário em termos de política monetária, ou seja, taxa de juros básica, e o que é necessário do ponto de vista fiscal para ajustar essa taxa de juros, “levando em conta que a meta de inflação não pode ser a meta dos nossos sonhos, tem que ser a meta da realidade. Ou seja, se você tem uma guerra no Oriente Médio, você vai ter impacto sobre, não apenas combustíveis, mas vários derivados de petróleo, da indústria petroquímica. Você vai ter uma pressão inflacionária”, declarou.
“Então, eu falo com tranquilidade. O Lara Resende está propondo uma convergência entre expectativas fiscais e monetárias para conduzir a taxa de juros ao longo do tempo e chegar, por exemplo, a 7,5% a 8, a 9, mas não a 13,7. É uma boa proposta”, acrescentou.
“Agora, como é uma proposta que vai levar muito tempo para as pessoas entenderem e o mercado entender, creio que o governo poderia, de maneira tranquila, transparente, dialogar com a sociedade, chamando os bancos, chamando as indústrias, chamando a agricultura, os trabalhadores, e dizer o seguinte: ‘a meta de inflação está irreal, reconheço, e nós vamos ajustar essa meta para 4,5%, enquanto não terminarem as duas guerras. Quando terminarem as duas guerras, a gente faz uma revisão se é possível chegar aos 3% ou não’”.
Vitória de Lula
Berzoini ainda comentou sobre a reeleição do presidente Lula. “Eu fui acusado de pessimista umas três semanas. Porque todo mundo acreditava que o Lula ia ganhar no primeiro turno, o Lula vai passar com 4 milhões de votos na frente no primeiro turno. Eu dizia, não está assim. A dinâmica mudou. E, de fato, ao final do primeiro turno, nós tomamos um susto. Quando fez a apuração com o Flávio (Bolsonaro) na frente, eu falei: dá para virar, mas para virar vai ter que mudar”.
E a mudança, segundo ele, não veio da direção política do partido. “Veio do próprio Lula, que percebeu o tamanho do risco e, principalmente, dos jovens e dos idosos do Brasil, que se manifestaram, se mobilizaram, para reduzir a abstenção. E nós conseguimos virar. A diferença foi superior à minha expectativa”, disse.
“Creio que é importante aproveitar essa vitória para intervir na conjuntura partidária, organizar esses jovens que foram às ruas. Nós temos que dizer para eles, nas faculdades, dizer para eles que não parem de lutar. Venham oxigenar os partidos do campo popular e participem da política, incluindo você que não é de esquerda. A política é fundamental para oxigenar o país”, afirmou.
Derrota do Trump
Ricardo Berzoini classificou os resultados das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, com derrota de Donald Trump, como muito bom para o mundo.
“O mundo ganhou do eleitorado americano uma oportunidade muito grande. Espero que influencie nas eleições europeias, que nós tenhamos uma onda de democratização, de respeito às pessoas, de redução dessa política do ódio, para que nós possamos, de fato, mudar o ambiente na América Latina”, disse.
E lembrou do escândalo financeiro no Paraguai. “É um exemplo concreto de como o mundo desregulamentado, o mundo onde o Estado fica fraco, leva a grandes desastres. O que está acontecendo no Paraguai hoje é como se o Banco Master fosse do tamanho do Bradesco, por exemplo. Vejam só o que pode acontecer num país onde há desregulamentação”.
Ele citou um exemplo concreto. “No Brasil, o neoliberalismo produziu as chamadas agências regulamentadoras. A Anatel, a Aneel, a ANS e outras. Hoje, essas agências reajustam preços de serviços e produtos sem qualquer interferência do poder político, porque eles têm mandato. Nós temos que acabar com esse negócio de mandato no Banco Central, em agência regulamentadora. Conta de luz sobe mais que a inflação, conta de água sobe mais que a inflação, planos de saúde, a ANS autoriza aumentos muito maiores do que a inflação. Isso é um absurdo”, considerou.
“O poder político tem que ser responsável por isso. Em São Paulo, o Tarcísio (de Freitas) privatizou a Sabesp, falando que a tarifa ia cair e aumentou. Aumentou bem acima da inflação e o povo de São Paulo, talvez desinformado, reelegeu esse picareta”, criticou.
“Nós precisamos estar mais atentos e o segundo turno foi um momento de afirmação da política. Por exemplo, esse reajuste do ICMS sobre os combustíveis. Eu acho que era o caso de os partidos do campo popular chamarem o povo às ruas, novamente, para barrar, para lutar pela revogação desse aumento do ICMS que foram os governadores do Confaz (Conselho Nacional de Política Fazendária) que aprovaram. A partir de janeiro, vão aumentar gasolina, óleo diesel e gás de cozinha. E muita gente vai botar a culpa do Lula, embora o Lula não tenha nada a ver com isso”, relatou.
Lula e escolhas para o BC
O ex-presidente do PT voltou a mencionar o Banco Central e se referiu às escolhas feitas pelo presidente para a direção da instituição. “O presidente Lula já teve a chance. Ele indicou oito diretores. O pessoal que está no Banco Central, hoje, é quase todo indicado do Lula. O que eu acho é que, infelizmente, houve um equívoco na indicação. Indicaram muita gente do mercado achando que o mercado se acalmaria”.
Berzoini aproveitou e fez duras críticas ao mercado. “Eu, sendo bancário desde os 18 anos, tendo sido presidente de sindicatos bancários, fundador da Confederação dos Bancários da CUT, parlamentar por 16 anos, participando do governo, eu posso dizer com tranquilidade: o mercado é extremamente canalha, canalha mesmo, com todas as letras. O mercado quer dinheiro”, disparou.
“Como diz um economista muito conhecido, o leão gosta de carne. Se você der um pé de alface para o leão, ele te devora. O mercado é assim. A Faria Lima é um punhadinho de gente, uma boa parte de gente movida à adrenalina de ganhar dinheiro. Mesmo quando não precisa mais de dinheiro, continua querendo ganhar, ganhar, ganhar e, se puder, esfola o povo brasileiro. Com isso, o Brasil pode ser um país mediano, pode ser um país razoável, mas nunca será um país desenvolvido. E o governo precisa aproveitar essa onda que ocorreu no segundo turno para, sem nenhuma irresponsabilidade, sem nenhum arroubo de querer fazer pose de valentão, dizer claramente: o Brasil está farto de ser explorado pelos bancos”, declarou.
“O Banco do Brasil é a Caixa precisam ter direções menos voltadas para si mesmo, direções voltadas para o povo brasileiro. Digo isso com toda tranquilidade, porque eu sempre defendi que o sistema financeiro deve dialogar com o governo. Mas, infelizmente, o sistema financeiro brasileiro não gosta de dialogar, gosta de esfolar o povo trabalhador”, completou Berzoini.
Assista à entrevista completa de Ricardo Berzoini
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