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AS (muitas) VEZES QUE NÃO MORREMOS (XIV) Histórias do jornalismo em Rondônia Organização – PERSONAGEM: Paulo Cordeiro Saldanha (*)

Fonte: gentedeopiniao.com.br | Data: 05/11/2026 20:18:27

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Como um churrasco em Guajará poderia fazer o governador Jorge Teixeira chorar a morte de um assessor? Paulo Saldanha não é jornalista, mas seu currículo literário é tão grande e seus artigos em sites mais que lidos e comentados, participa sua aventura na série “As (muitas) vezes que não morremos”. Vamos lá! 

Num final de semana o Teixeira inaugurou a agência do Banco do Estado de Rondônia (Beron) em sua cidade, Guajará-Mirim. Encerrada a cerimônia o governador e assessores voltaram a Porto Velho, mas Saldanha pediu para ficar, mas que na segunda estaria cedo em Ouro Preto, onde seria inaugurada a 4ª agência do Beron, justificando que iria receber uma homenagem, no domingo, de colegas de infância. O resto da história, com a palavra o duque do Guaporé:

Na segunda-feira, conforme acordado, antes das sete já estávamos taxiando para a decolagem. Pegamos o rumo de Ouro Preto, onde deveríamos

chegar por volta das 08 às10 horas, ainda cedo. Redigi o meu discurso, enquanto

viajava, para depois, em terra e na agência, datilografá-lo. Doce ilusão! O piloto

muito novo perdeu a rota. Era a época de queimadas, se é que existe época

para essa violência ecológica. Ele, ao ver uma estrada nova e bem larga,

imaginou tratar-se da BR 364 e virou à direita até o final dessa via. Constatou

que Ouro Preto não estava à direita e, na volta, visando pegar o rumo, nos

perdemos. Passaram-se os minutos e as horas.

A inauguração dar-se-ia às 09,30 horas. O governador (depois vim a saber)

ligava para Guajará, falava com meu pai, ora com meu irmão e nenhuma

notícia. Lá em cima eu falava para o piloto entrar na frequência de rádio, salvo

engano, 125.8, pois imaginava que o pessoal do governo “já está nos

procurando”. Ele, muito autossuficiente e arrogante, pedia-me para ficar frio. Ou

seja, ficar calado. Lá em cima eu pensava: “quem está bem abastecido, (nosso

caso) se perdido, cai mais longe”; “quem tem um, na crise, fica sem nenhum”.

Em outras palavras, eu estava dentro de um monomotor.

A tensão tomou conta de todo o governo. Estávamos

perdidos! Senti medo, pensava na família e nos filhos. Tentei ser otimista: “a

esperança é a última que morre!”. Frase tão manjada, mesmo assim pensei

nela. “O farol guia. A esperança salva”. Lembrar de Victor Hugo, naqueles

instantes era demais! Mas valeu a pena! Mentalmente me pus a rezar. Contrito,

rezei e pedi ao Espírito Santo inspiração ao piloto. Ao meu anjo da guarda pedi

socorro!

Até que o piloto, depois de duas horas completamente

perdido, lembrou-se de sintonizar uma das rádios de Ji-Paraná e dirigiu o nariz

do monomotor naquela direção, onde imaginava estar situada a cidade. Depois

de uns 20 minutos recebíamos o prefixo daquela rádio salvadora. Perguntou-

me se tinha serra em Ji-Paraná. Respondi-lhe negativamente. Desceu um

pouco, dentro do razoável, quando vi a ponte que une os dois distritos. Disse-

lhe que estávamos em cima de Ji-Paraná. Poderíamos ir por cima da BR,

sempre com a preocupação com as serras existentes entre aquele município e

o de Ouro Preto do Oeste. Vi que chegaríamos logo. Assim o nosso piloto fez.

Íamos tão baixo que as pessoas dos ônibus punham o rosto para fora para ver

se conheciam os passageiros da aeronave. Pousamos. Do alto vi uma imensa

população. A PM do Estado estimou em mais de 5.000 pessoas. O sol se fazia

quente. Já atrasara a solenidade em mais de duas horas.

Pedi desculpas ao governador e a população. Fiz o

meu discurso e depois, a sós, recebi a única reprimenda do meu chefe:

– Você cometeu dois erros graves: primeiro, não voltou com a minha comitiva.

Segundo viajou num monomotor. Jamais perdi um assessor e eu quase

chorava a sua morte. Ligue para a sua família e tranquilize a todos. É que, na

pressa havia esquecido de telefonar para o meu pai e para o Kleber, que

ficaram bastante tensos e preocupados. Como eu ficara com o cenho fechado (o Teixeira) deu-me um abraço, que soou como um “não se amofine, não”, como diria um nordestino. Ele era gaúcho, de General Câmara 

(*) Paulo Saldanha, o mais importante escritor rondoniense, também tem o que contar.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela “OPINIÃO”, que é exclusiva do autor.